Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

segunda-feira, 19 de março de 2012

O caos afegão; clima na Otan é de derrotismo e desorientação!


O caos afegão; clima na Otan é de derrotismo e desorientação - do Vermelho


"A situação existente no Afeganistão é caótica. Os últimos acontecimentos fizeram ruir o projeto de uma retirada negociada das tropas de ocupação que preservasse a imagem dos EUA no mundo. Nas bases estadunidenses e da Otan alastra uma atmosfera de derrotismo e desorientação", diz nota dos editores do portal português O Diário.info. Acompanhe a íntegra da nota:


"A chacina de 16 camponeses na Província de Kandahar por um sargento provocou no país uma onda de indignação. Nas semanas anteriores soldados estadunidenses tinham urinado sobre cadáveres de afegãos por eles abatidos, oficiais do exército queimaram exemplares do Alcorão no pátio de uma base militar, um grupo de marines desfraldou em público uma bandeira com a suástica nazi.


A reação afegã gerou pânico no Pentágono. Sucederam-se manifestações de protesto em todo o país. Dois oficiais superiores dos EUA foram mortos a tiro no Ministerio do Interior numa zona de alta segurança. O alto comando estadunidense, alarmado, proibiu a partir de agora a presença dos seus militares em qualquer tarefa de cooperação em edifícios do governo afegão.

Como podem os EUA e a Otan - pergunta-se em Washington - preparar os 300 mil homens do exército e da polícia do Afeganistão aos quais seriam transferidas no próximo ano as responsabilidades da "Segurança" se os recrutas matam os seus instrutores?

O balanço de onze anos da guerra afegã é desastroso. A maioria do território está sob controle da Resistência (na qual lutam inclusive quadros do Partido Popular marxista da Revolução). As tropas estrangeiras, em muitas cidades, somente saem dos quartéis para realizar patrulhas.

Todos os projetos de reconstrução econômica e política fracassaram. As plantações da papoula do ópio e a produção de heroína aumentam sob a protecção de altos funcionários ligados ao narcotráfico; a corrupção mergulha as raízes nos próprios Ministérios; a fome é uma realidade em muitas províncias.

Sondagens recentes promovidas nos EUA revelam que mais de 50% dos eleitores são favoráveis à retirada das tropas estadunidenses do Afeganistão antes de 2014.

As desculpas hipócritas do Presidente Obama pelos últimos crimes cometidos no país não alteram a realidade. A cota de popularidade do Presidente caiu para 41%.

O caos afegão força o sistema de poder imperial a rever toda a sua estratégia para a Ásia Central e o Médio Oriente. A campanha para a reeleição de Obama pode ser decisivamente afetada pelo rumo dos acontecimentos no Afeganistão".

Fonte: O Diário.info



Link:


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178359&id_secao=9 


Robert Fisk: O massacre no Afeganistão não foi loucura!


Robert Fisk: O massacre no Afeganistão não foi loucura - do Vermelho


Começa a cansar-me esta história do soldado louco. Era previsível, é claro. Nem bem o sargento de 38 anos - que massacrou no último domingo (11) 16 civis afegãos perto de Kandahar, incluindo nove crianças - retornou para sua base, os especialistas em Defesa e os meninos e meninas dos centros de pensamento já anunciavam que ele havia enlouquecido. 

Por Robert Fisk, em La Jornada


Não era um perverso terrorista sem entranhas - como seria, é claro, se fosse afegão, em especial talibã -, mas apenas um cara que foi à loucura.

Essa mesma bobagem foi usada para descrever os soldados estadunidenses homicidas que realizaram uma orgia de sangue na cidade iraquiana de Haditha. Com a mesma palavra se descreveu o soldado israelense Baruch Goldstein, que massacrou 25 palestinos em Hebron, algo que fiz notar neste mesmo jornal, poucas horas antes que o sargento enlouquecesse de repente, na província de Kandahar.

Ao que parece, enlouqueceu, anunciaram jornalistas. Um homem "que provavelmente havia sofrido algum colapso (The Guardian)", um soldado perverso (Financial Times), cujo distúrbio (The New York Times) foi sem dúvidas (sic) perpetrado em um acesso de loucura (Le Figaro).

Sério? Sepõe-se que acreditamos nisso? Claro, se estivesse completamente louco, nosso sargento teria matado 16 de seus colegas norte-americanos. Ele teria matado seus companheiros e, em seguida, atearia fogo aos corpos. Mas não, ele não matou estadunidenses; escolheu matar afegãos. Houve uma escolha. Por que, então, matou afegãos?

Há uma pista interessante em tudo isso, que não tinha aparecido em reportagens da mídia. Na verdade, a narração dos fatos foi curiosamente lobotomizada-censurada, inclusive por aqueles que têm tentado explicar o terrível massacre em Kandahar. Lembraram a queima de exemplares do Alcorão - quando soldados norte-americanos em Bagram jogaram os livros sagrados em uma fogueira - e as mortes de seis soldados da Otan, incluindo dois norte-americanos, que vieram depois. 

Mas explodam-me em pedaços se não esqueceram - e isso se aplica a todas as matérias sobre o recente massacre - uma afirmação notável e extremamente significativa do comandante em chefe do Exército estadunidense no Afeganistão, o general John Allen, há exatamente 22 dias. Na verdade, foi uma declaração tão inusitada que eu recortei as palavras em meu jornal matutino e coloquei o recorte na minha pasta para referência futura.

Allen disse aos seus homens: esta não é a hora da vingança pelas mortes de soldados norte-americanos nos distúrbios de quinta-feira. Alertou que eles deveriam resistir a qualquer tentação de revidar, depois que um soldado afegão matou dois norte-americanos. "Haverá momentos como este, em que vocês estarão procurando o significado dessas mortes", continuou. "Momentos como este, em que suas emoções serão governadas pela raiva e pelo desejo de vingança. Esta não é a hora da vingança; é a hora de olhar no fundo de sua alma, de recordar a sua missão, lembrar a sua disciplina, lembrar-se de quem vocês são."

Foi um chamado extraordinário, vindo do comandante em chefe dos EUA no Afeganistão. O general se viu forçado a dizer para o seu exército, supostamente bem disciplinado, profissional, de elite, que não cobrasse vingança aos afegãos aos quais, supostamente, está ajudando/ protegendo/ educando/ adestrando, etc. Teve que dizer aos seus soldados que não cometessem assassinato.

Eu sei que os generais diziam essas coisas no Vietnã. Mas no Afeganistão? As coisas chegaram a esse extremo? Temo que sim. Porque, por mais que eu não goste de generais, tenho lidado com muitos deles pessoalmente, e geralmente têm uma ideia bastante acertada do que acontece em suas fileiras. E eu suspeito que o general John Allen já havia sido advertido por seus oficiais de que seus soldados estavam irritados com as mortes que se seguiram à queima de exemplares do Alcorão e, talvez, tivessem decidido empreender uma escalada de vingança. Por isso tratou de um modo tão desesperado - em uma declaração tão impactante como reveladora - de prevenir um massacre exatamente como o que ocorreu no último domingo.

No entanto, essa mensagem foi completamente apagada da memória dos peritos quando eles analisaram essa matança. Não se permitiu em seus relatos nenhuma alusão às palavras do general Allen, nenhuma referência, porque, naturalmente, isso teria tirado o nosso sargento do grupo dos enlouquecidos e lhe teria dado um possível motivo para o massacre. Como de costume, os jornalistas tiveram que meter-se na cama com os militares para procriar um louco e não um assassino. Pobre rapaz: andava mal da cabeça. Não sabia o que fazia. Não é de admirar que o tenham tirado do Afeganistão tão rápido.

Todos tivemos nossos massacres. Há My Lai (aldeia vietnamita onde, em 16 de março de 1968, centenas de civis, na maioria mulheres e crianças, foram executados por soldados do exército dos Estados Unidos), e nosso próprio My Lai britânico, em uma aldeia da Malásia chamada Batang Kali, onde os guardas escoceses - envolvidos em um conflito contra os insurgentes comunistas - assassinaram 24 indefesos trabalhadores da borracha, em 1948. 

Claro, pode-se argumentar que os franceses na Argélia foram piores que os norte-americanos no Afeganistão - diz-se que uma unidade de artilharia francesa fez desaparecer 2 mil argelinos em seis meses -, mas isso é como dizer que somos melhor que Saddam Hussein. Certo, mas veja que parâmetro de moralidade.

É disso que se trata. Disciplina. Moralidade. Valor. O valor de não matar por vingança. Mas quando se está perdendo uma guerra que se finge estar ganhando - me refiro ao Afeganistão, é claro -, suponho que isso seja esperar demais. Parece que o general Allen perdeu seu tempo.

Tradução: Joana Rozowykwiak



Link:


http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178507&id_secao=9 


sábado, 17 de março de 2012

Mesmo com crise global, Brasil gerou 294 mil empregos formais em 2012!

Número de postos de trabalho tem menor resultado frente a 2011 - do Vermelho

O Ministério do Trabalho, através do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgou nesta sexta-feira (16) que o Brasil criou em fevereiro 150,6 mil empregos formais. Este foi o segundo melhor desempenho do setor para os meses de fevereiro.



No entanto, mesmo que o número tenha superado o resultado de janeiro, quando foram criados 118,9 mil empregos, em fevereiro de 2011 esse número foi mais que o dobro, atingindo o número 347 mil postos.

Na estatística do Ministério, mesmo com trajetória ascendente, somando os dois primeiros meses do ano, foram abertas apenas 293.987 vagas, frente a 500 mil empregos criados no primeiro bimestre de 2011.

O Caged também apontou que o mês de fevereiro registrou um número recorde de demissões: 1,589 milhão, contra 1,740 milhão de admissões (o segundo maior resultado para o mês).

Segundo o Ministério do Trabalho, no acumulado do ano, foram gerados 294 mil novas vagas de trabalho com carteira assinada.

Em termos setoriais, seis das oito áreas pesquisadas pelo Caged registraram aumento das vagas de trabalho. O setor de serviços teve o segundo maior saldo de vagas para fevereiro, com 0,6% de alta em relação a janeiro (ou seja, 93,1 mil postos), seguido pela construção civil, com geração de 27,8 mil vagas, e indústria de transformação, que criou 19,6 mil postos.

Já o setor de comércio e o de agricultura tiveram mais demissões do que contratações em fevereiro: 6,6 mil e 425 vagas, respectivamente, foram fechadas no mês anterior.

O estudo também apontou que a região Sudeste foi a que apresentou maior crescimento, foram gerados 93.266 novos postos; na Sul foram 39.522 vagas; na Centro-Oeste 23.457 e na Norte, 3.965. A exceção foi a região Nordeste, que por motivos sazonais, ligados às atividades sucroalcooleiras, apresentou queda de 9.610 postos.

O estado que gerou mais empregos foi São Paulo, com 55.754 vagas, seguido por Minas Gerais, com 21.031. O setor de Serviços foi que mais contribui para o bom desempenho da região Sudeste, com mais de 57 mil novas vagas de trabalho formal. No Sul, o estado de Santa Catarina ficou com 15.719 postos, Paraná com 14.075 e o Rio Grande do Sul com 9.728. A Indústria de Transformação foi a que mais se destacou na região sulista, criando 18.977 postos, seguida pelo setor de Serviços, com 14.393.

Com informções da Agência Brasil e do Ministério do Trabalho.


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http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=178380&id_secao=2

'Nimis', uma nova categoria social na Europa em crise!

'Nimis', uma nova categoria social na Europa em crise - por Oscar Guisoni, da Carta Maior

Em 2008, antes da crise estourar, existiam os “mileuristas”, geração de menores de 35 anos que ganhavam a vida com mil euros por mês. Com o agravamento da crise, surgiram os "nimileuristas", as novas gerações europeias que fazem milagres para viver com salários inferiores a mil euros. Foi na Espanha que se perfilaram como um novo coletivo social, com reivindicações próprias, códigos culturais identificáveis e uma sensação de desânimo e pessimismo que impregna tudo. O artigo é de Oscar Guisoni.

Esquenta o clima político interno da sucessão na China!

Esquenta o clima político interno da sucessão na China- por Marcelo Justo, da Carta Maior

Com a eleição de um novo presidente e do secretariado geral à vista, a luta pela sucessão política na China está pegando fogo. A dramática queda de Bo Xilai (foto), destituído como secretário geral da megametrópole chinesa Chonqing nesta semana, é uma vitória para a ala reformista que procura aprofundar a liberalização econômica. Bo Xilai era o maior expoente da Nova Esquerda e de um neomaoismo que procurava combinar abertura econômica, crescimento e justiça social. O artigo é de Marcelo Justo.

Com a eleição de um novo presidente e secretariado geral à vista, a luta pela sucessão na China está pegando fogo. A dramática queda de Bo Xilai, destituído como secretário geral da megametrópole chinesa Chonqing nesta semana, é uma vitória para a ala reformista que procura aprofundar a liberalização econômica.

Bo Xilai era o maior expoente da Nova Esquerda e de um neomaoismo que procurava combinar abertura econômica, crescimento e justiça social. Seu êxito no município de Chonqing, uma virtual nação de mais de 30 milhões de habitantes, que teve um crescimento de 16% no ano passado e está levando adiante um gigantesco programa social, era o trampolim político para ascender ao secretariado geral, que renovará sete de seus nove postos no congresso partidário de outubro-novembro.

O anúncio, nesta quarta-feira, de sua destituição foi feito depois que o primeiro ministro Wen Jiabao advertiu, em uma entrevista coletiva de três horas, que a China poderia repetir os traumáticos acontecimentos da Revolução Cultural se não avançasse em uma reforma política e apontasse diretamente os erros cometidos por Bo Xilai.

No hermético mundo político chinês esta advertência pública equivalia a um pedido de renúncia. Os “erros” de Bo Xilai se referiam a um rocambolesco episódio com todo o aspecto de manobra política para tirá-lo de circulação. No dia seis de fevereiro, seu braço direito na campanha anticorrupção, o ex-chefe de polícia Wang Lijun, acusado de “excessos”, passou várias horas no consulado dos Estados Unidos da vizinha província de Chengdu, aparentemente para pedir asilo.

Ninguém espera um esclarecimento oficial de um episódio que revela fortes fissuras internas na direção. Segundo os analistas, Bo Xilai tentou se livrar de Wang Lijun ao ficar sabendo que o policial estava sendo investigado por corrupção, investigação que o agora ex-secretário geral de Chonqing interpretou como um tiro por elevação dos liberais à sua imagem. Sua sorte, entretanto, pareceu lançada quando um multimilionário de Chonqing, Li Jun, denunciou que havia sido preso e torturado durante três meses pela polícia municipal no marco da luta contra a corrupção que levou à prisão mais de três mil pessoas, entre eles empresários, juízes e membros do partido comunista.

Bo Xilai continua formando parte do seleto Politburo, composto por 24 membros, mas suas chances de chegar ao secretariado geral ficaram seriamente comprometidas. Filho do general Bo Yibo, suplente de Mao Tse Tung, considerado um dos oito pais do Partido Comunista, Bo Xilai apostou suas fichas em combater e promover seu modelo “Chonqing”, que regou com canções vermelhas (“chang hong”) que reivindicavam a mística igualitária maoísta e desenterravam o traumático fantasma da revolução cultural.

Este modelo sofreu um duro golpe, mas os problemas que sugere continuam em pé. 

Desde 2000 a China não publica índices do coeficiente Gini de desigualdade. Esse ano o coeficiente era 0,412, superando o dos Estados Unidos. Muitos acadêmicos chineses estimam que hoje supere 0,5 (a escala vai da igualdade absoluta do zero à máxima desigualdade do um). 

Segundo um recente relatório do Banco Mundial em conjunto com um Think Tank chinês, a China é o país mais desigual da Ásia. Em um gesto que mostrava suas credenciais políticas, Bo Xilai havia se comprometido em publicar o coeficiente de desigualdade do município de Chonqing.

Sua queda não parece afetar a eleição do até agora aparente herdeiro de Hu Jintao: Xi Jinping. O atual vice-presidente da China acaba de visitar os Estados Unidos, onde foi recebido como o próximo presidente e secretário geral do Partido Comunista. Xi Jinping revelou pouco em sua viagem, mas aparece alinhado com a ala “esquerda” do partido. Um artigo alarmista do matutino conservador britânico Daily Telegrapgh pintava-o recentemente como um “irrecuperável comunista”.

Neste contexto a queda de Bo Xilai pode ser interpretada como uma mensagem indireta a Xi Jinping. 

Segundo o acadêmico Chinês da Universidade de Nottingham Shujie Jiao, o resultado em nível político será a imobilidade. “Em princípio não significa o fim da reforma ou da política de portas abertas, mas congelará a reforma política e animará a conivência entre o governo e as empresas. A corrupção e a desigualdade social piorarão, mas não se pode considerar um triunfo da direita, mas sim um chamado ao imobilismo”, afirmou Shujie Jiao.

Tradução: Libório Junior

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sexta-feira, 16 de março de 2012

A crise síria é teste para o mundo multipolar!

A crise síria é teste para o mundo multipolar- por Alexey Pilko, da Rede CastorPhoto


15/3/2012, *Alexey Pilko, Voice of Russia, Moscou
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu

A crise na Síria e o modo como desdobrou-se mostram que o modelo de relações internacional que se desenvolveu depois do colapso do sistema bipolar mudou consideravelmente nos últimos dez anos. A ideia da unipolaridade continua sobre a mesa; mas cada dia menos nítida. Relações entre governos e entre estados-nação vão-se tornando aos poucos multipolares e mais complexas.
Para comprovar essa evidência, basta considerar a agressão pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) contra a Iugoslávia em 1999. Foi situação típica, com eclosão de um conflito étnico que levou a formação de um enclave separatista no território de um estado soberano. Muitos estados enfrentaram desafios semelhantes. Há vários modos para solucionar a questão. Podem ser soft e podem ser muito hard. Não se pode afirmar com certeza que o governo em Belgrado tenha escolhido a melhor via. Contudo, a Iugoslávia era país independente politicamente soberano e submetido à legislação internacional: qualquer interferência nos assuntos internos da Iugoslávia seria inaceitável.
Mas, no caso da Iugoslávia, ninguém se preocupou com leis. Prevaleceu o princípio de que se faz justiça e serve-se ao Direito, quando o mais forte submete o mais fraco. Nenhum país da OTAN deu-se o trabalho de convocar reunião do Conselho de Segurança da ONU antes da operação militar, reunião que só acontecer depois de muita insistência dos russos. Ali, sobre as ruínas da legitimidade internacional estabelecida desde 1945, começou a delinear-se uma nova realidade: uma legislação internacional paralela. 
Em outras palavras, um grupo de países comandados pelos EUA nos anos 1990s ‘privatizaram’ o mecanismo de força para resolver conflitos na arena internacional e consagraram, num pedestal, o conceito de “intervenção humanitária”. A aliança, assim, se converteu em excelente instrumento para intervir em assuntos internos de outros países, com certeza de impunidade.
Deve-se observar que, depois da campanha da OTAN na Iugoslávia, sobreveio período mais sóbrio. O brutal assalto de três meses contra estado europeu levou a alguma relutância a recorrer novamente aos mesmos métodos. Menos nos EUA, que decidiram que, na primeira década do século 21, caber-lhes-ia consolidar as próprias conquistas, fixando a hegemonia dos EUA nos Bálcãs, e iniciar a autoimplantação dos EUA, sob controle dos EUA, também no Oriente Médio. Resultado desse pensamento geopolítico foi, em 2003, a campanha para ‘mudança de regime’ no Iraque.
Naquele momento, Washington e Londres sequer se deram o trabalho de inventar esquemas complicadíssimos de “intervenção humanitária”. O Iraque foi acusado de estar produzindo armas de destruição em massa, as quais jamais foram encontradas, nem depois de o Iraque já estar totalmente em ruínas. A violação do Direito Internacional foi tão flagrante, que até os mais próximos aliados dos EUA, França e Alemanha, uniram-se à Rússia na oposição à campanha militar que teve traços, de fato, de crime de guerra.
A campanha contra o Iraque durou até bem depois de 2003. A ‘operação rápida’ que os EUA haviam previsto acabou por ser uma longa, sangrenta guerra, de oito anos, na qual morreram mais de 4 mil soldados dos EUA e que terminou em retirada sem honra. Especialista norte-americano próximo da Casa Branca disse, em entrevista recente, ano passado, que o presidente Barack Obama dos EUA tentou persuadir o primeiro-ministro do Iraque Nuri al-Maliki a manter soldados dos EUA no Iraque, para permanência de longo prazo. Mas não conseguiu.
A crise das finanças globais e a crise econômica nos EUA tiveram papel importante no processo de fazer baixar as ambições de Washington. A economia dos EUA, arcada sob o peso do déficit público, já não tem fôlego para sustentar a mesma política externa agressiva dos anos 1990s e 2000s. Os países europeus vivem problemas semelhantes. O derradeiro acorde foi o ataque à Líbia, onde os EUA tentaram pela primeira vez uma mudança de tática, jogando sobre os ombros (e bolsos) de seus aliados europeus a parte maior dos custos da intervenção.
De início, Londres e Paris abraçaram entusiasticamente os novos papéis, na esperança de fortalecer as respectivas posições no Norte da África. As elites britânicas e francesas esperavam talvez vingar-se da Líbia pelo fracasso da aventura de Suez em 1956? Fato é que Grã-Bretanha e França, dadas suas limitadas capacidades militares e financeiras, não se mostraram à altura da muita confiança que os americanos depositaram nelas; e os EUA tiveram de acorrer rapidamente para socorrê-las. No fim, depois de esforços conjuntos que se arrastaram ao longo de quase um ano, o regime líbio foi derrubado, numa Líbia convertida em mar de sangue e em ruínas. Mas é muito evidentemente claro que as potências ocidentais não poderão persistir nesse tipo de aventura.
A atual situação na Síria mostra que Damasco pode ser osso duro de roer para dentes de EUA e União Europeia. As instituições do estado sírio são sólidas e o exército sírio é muito mais bem estruturado para combate que o exército líbio. De início, os planos dos que apoiavam a intervenção apoiaram-se no levante popular contra o governo de Bashar al-Assad e em criar fortes bolsões de resistência controlados pela oposição, bolsões que, como previam os planos iniciais, poderiam ser transformados em “zonas de segurança”, a serem usadas para derrubar o governo sírio. Os fatos mostraram que esses planos estavam errados e deram em nada.
Depois, as forças do governo retomaram o controle da cidade de Homs; e o sucesso recente das operações em Idlib mostra que a capacidade de resistência política do governo de Assad continua bastante alta. Além disso, a posição firme que Rússia e China assumiram também teve o mérito de impedir ataque militar de outros países contra a Síria. 
Manifestando-se como uma só voz, Moscou e Pequim mostraram que não tolerarão nenhuma unipolaridade e que continuam a defender o princípio segundo o qual as relações internacionais devem ser regidas por leis, não por algum surto de desejo vicioso de derrubar um ou outro governo, num ou noutro país.
Tudo isso faz ver que, em 2012, o mundo já está mudado. Rússia, China e outros vários estados manifestaram-se contra a agressão de que foram vítimas a Iugoslávia e o Iraque. Mas, daquela vez, essas vozes não foram ouvidas. 
Hoje, EUA e União Europeia já não têm como não ouvir aquelas vozes divergentes. Por isso, os ministros de Relações Exteriores de países da União Europeia votaram contra a ideia de enviarem soldados seus para atacar a Síria. E o presidente Barack Obama já reconheceu que empreender “ação militar unilateral” seria erro dos EUA.
A situação na Síria já é prova de fogo e teste pelo qual passa a multilateralidade de todo o sistema de relações internacionais. O modo como a crise síria for equacionada mostrará se nosso mundo tornou-se afinal mundo multipolar, ou se continua, como é há muito tempo, uma ditadura militar unipolar.



*Alexey Pilko é Professor Associado da Universidade Estatal de Moscou, Faculdade de Política Mundial 
 
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O fracasso do Grupo Abril; rumo ao fundo do poço?

O fracasso do Grupo Abril; rumo ao fundo do poço? - Por Gustavo Gindre, no Blog do Gindre

publicada sexta-feira, 16/03/2012


O fracasso do Grupo Abril

Na década de 90, dois grupos empresarias brasileiros despontavam entre os principais grupos de mídia da América Latina. Depois da Globo, o outro grupo brasileiro era a Abril.

Desde então, a Abril Midia é uma coleção de fechamentos e venda de empresas ou participações acionárias. A Abril fechou a gravadora Abril Music, o site Usina do Som e os canais de TV paga Fiz TV e Idea TV. Vendeu sua participação na HBO Brasil, na DirecTV Latin America, na ESPN Brasil, no Eurochannel, na TVA MMDS, na TVA Cabo e no UOL, entre outras.

Hoje a Abril se resume basicamente à editora e sua gráfica, à DGB (holding de distribuição e logística que é um verdadeiro monopólio nas bancas de jornais), à Elemídia (que instala monitores informativos em hotéis, elevadores, aeroportos, etc) e ao canal de TV paga MTV Brasil. Além dos sites de cada um destes veículos. Um grupo de mídia pequeno para o cenário de convergência que vivemos.

Cabe registrar que a MTV Brasil (que licencia a marca da Viacom) vive às voltas com o fantasma dos cortes de gastos e demissão de pessoal. Sua duração no longo prazo é constantemente posta em dúvida.

Para piorar, os Civita venderam 30% da Abril (o limite permitido pela Constituição Federal) aos sul-africanos do Naspers (donos, no Brasil, do site Buscapé). O Naspers, quando se chamava Die Nasionale Pers, foi o órgão de imprensa oficioso do povo africâner e porta-voz do apartheid. Pieter Botha e Frederik de Klerk foram membros do board do Naspers.

Ou seja, a Abril vive hoje do prestígio da revista Veja. Sem ela, os Civita já teriam virado empresários de porte médio do setor de comunicações, irrelevantes para o futuro do setor no Brasil.
E, segundo denúncias de Luis Nassif, sabedores dessa situação, os Civita tratam de inflar de todos os modos as vendas da Veja, inclusive com uma ajuda substancial do governo de São Paulo, que adquire milhares de assinaturas.

Cada vez mais fracos, mais temerosos do futuro, a tendência é que elevem o tom de voz na crítica a qualquer regulação das comunicações no Brasil. E se aproveitem da falta de vontade política do governo para enfrentar o tema e blefem com um poder político que, se um dia o tiveram, hoje com certeza já se esvaiu quase todo.

PS: como não são bobos e sabem que seu horizonte se  estreita, os Civita resolveram colocar os ovos em outro cesto e passaram a investir em educação, criando uma outra empresa, sem relações com a Abril Mídia, chamada Abril Educação. Quando a Veja for de vez para as calendas, é de educação privada que eles irão viver.

Link:

 http://www.rodrigovianna.com.br/outras-palavras/grupo-abril-rumo-ao-fundo-do-poco.html

Pepe Escobar: Guerra à moda do Óleo-gasodutostão!

Pepe Escobar: Guerra à moda do Óleo-gasodutostão! - da Rede CastorPhoto


16/3/2012, Pepe Escobar, Asia Times Online
Traduzido pelo Coletivo da Vila Vudu
Pepe Escobar
A mensagem da secretária de Estado dos EUA Hillary (Viemos, vimos, ele morreu”) Clinton ao Paquistão foi curta e grossa: tentem tocar adiante o gasoduto Irã-Paquistão (IP), e acabamos financeiramente com vocês.
Islamabad, com a economia em cacos, vivendo em terra de apagão elétrico e desesperada para conseguir energia, tentou argumentar. O mais alto funcionário do Ministério de Petróleo e Recursos Naturais Muhammad Ejaz Chaudhry repetiu que o gasoduto IP, de 2.775km e $1,5 bilhão, era absolutamente crucial para a segurança energética do Paquistão.
Caiu em ouvidos surdos. Clinton evocou as sanções “especialmente danosas” – associadas ao movimento de Washington para isolar o Irã por todos os meios existentes e a campanha sem limites para obrigar especialmente a Índia, a China e a Turquia a cortar suas importações de petróleo e gás iranianos.
Dado que Washington continua fracassando nos esforços para interromper os avanços do Óleo-gasodutostão na Ásia Central – isolando o Irã e contornando a Rússia – tornou-se agora caso balístico de vida ou morte impedir, custe o que custar, a integração entre o sudoeste e o sul da Ásia, do campo-gigante de gás iraniano de South Pars até as províncias paquistanesas do Baloquistão e de Sindh.
O óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP, vale relembrar, é o original IPI (Irã-Paquistão-Índia) de $7 bilhões, também conhecido como “o óleo-gasoduto da paz”. A Índia caiu fora em 2009, sob pressão furiosa e incessante que sofreu dos governos George W Bush e, depois, Barack Obama. A Índia ganhou acesso a tecnologia nuclear para objetivos civis.
A China, por sua vez, ainda está de olho na possibilidade de estender o IP do porto de Gwadar, cruzando até o norte do Paquistão ao longo da rodovia Karakoram, até Xinjiang. A China já está ajudando Islamabad a construir reatores nucleares civis – como parte da política de segurança energética do Paquistão.
O Industrial and Commercial Bank of China Ltd. (ICBC), maior banco da China e primeiro do mundo em empréstimos, já estava posicionado como assessor e conselheiro financeiro do IP. Mas então, considerando o que se via escrito nas estrelas (sanções), passou a “mostrar menos interesse”, como Islamabad decidiu divulgar. O ICBC está completamente fora do negócio? Não exatamente. Pelo menos segundo o porta-voz do ministro paquistanês do Petróleo, Irfan Ashraf Qazid: “O banco ICBC continua engajado no projeto do óleo-gasoduto IP e as negociações prosseguem”.
Um megabanco como o ICBC, com zilhões de interesses globais, tem de ser cauteloso, se se trata de desafiar a máquina de sanções de Washington; mas há outras opções de financiamento a encontrar, outros bancos ou acordos em nível de governo com China e Rússia. A ministra de Relações Exteriores do Paquistão Hina Rabbani Khar acaba de deixar isso muito claro. O Paquistão precisa muito do gás que começará a fluir em dezembro de 2014.
Islamabad e Teerã já acertaram o preço. O trecho iraniano de 900km já está construído; o do Paquistão está começando a ser construído, pela empresa ILF Engineering, da Alemanha. A agência IRNA do Irã disse que o Paquistão anunciou que o projeto IP prossegue. Deve-se prever que a imprensa ocidental passe a dizer que os chineses assustaram-se e desistiram.
E o IPC? Quem se interessa?
Para Washington, a única via que resta é outro gambito no Óleo-gasodutostão – o perenemente tumultuado óleo-gasoduto TAPI (Turcomenistão-Afeganistão-Paquistão-Índia). Ainda que se pressuponha que encontre financiamento; ainda que se pressuponha que os Talibãs recebam sua parte (aspecto que já fez desmoronar negociações entre os Talibã e o governo Clinton e, depois, o governo Bush); e mesmo que se assuma, até, que o óleo-gasoduto TAPI não seja bombardeado de hora em hora pelos mujahideen desde a pedra inaugural, o TAPI só estará pronto, otimistamente, em 2018. E Islamabad não pode simplesmente esperar até lá.
Como seria de esperar, a campanha de Washington contra o IP foi incansável – incluindo, é claro, guerra clandestina. Islamabad está convencida de que a CIA, a agência indiana de inteligência RAW, o Mossad israelense e o MI-6 britânico conspiram ativamente para conseguir, seja como for, que uma espécie de Baloquistão Ampliado decida levantar-se em armas para separar-se do governo central. Todas essas agências têm andado, mais ou menos à moda líbia, financiando e armando grupos de dissidentes baloques. Não por amor à independência – mas como via para balcanizar o Paquistão.
Para arrematar a fúria de Washington, o Irã dito “isolado”, vai começar a exportar mais 80 mil barris/dia de petróleo para o Paquistão; e já alocou $250 milhões para financiar o trecho paquistanês do óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP.
Tudo isso tem potencial para virar coisa muito, muito mais feia. Nada conseguirá conter a fúria que Washington aplicará na operação para esmagar o IP. Do ponto de vista do Irã pressionado e de uma economia estrangulada no Paquistão – e também do ponto de vista da China – trata-se aqui da Grade Asiática de Segurança Energética [orig.Asian Energy Security Grid].
O chinês ICBC talvez esteja (mais ou menos) fora. Mas a coisa toda pode ficar ainda mais suculenta, se Pequim decidir entrar na roda e converter o óleo-gasoduto Irã-Paquistão, IP, em óleo-gasodutostão IPC, Irã-Paquistão-China.
Washington terá coragem para desafiar Pequim cara a cara?



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(e muitas outras postagens sobre petróleo no Oriente Médio e Sul da Ásia)

Postado por Castor Filho



Muito mais que ficção: jornalismo literário vive “boom” na América Latina!

Muito mais que ficção: jornalismo literário vive “boom” na América Latina- do Opera Mundi

Livros, revistas, coleções, workshops, prêmios... crônica jornalística está em alta no continente



Quem procura histórias, mas não quer se esquecer da realidade, encontra na América Latina uma literatura potente, cara à mente e ao coração: a crônica jornalística. Não é de agora que o chamado jornalismo narrativo (ou literário, como preferir) vibra nas letras de grandes autores latino-americanos. Hoje, no entanto, fala-se hoje de um “boom” da crônica de não-ficção no continente.
E as evidências não são poucas. Nos últimos anos, proliferaram as revistas, as coleções, os workshops e os prêmios voltados ao gênero.

Falando das primeiras, é de chamar a atenção que certa escassez na oferta cultural de muitos países da região não afete a variedade de títulos dedicados às crônicas da vida. Temos, sem pretensão de uma lista definitiva: Gatopardo (México, América Central e países andinos), Etiqueta Negra (Peru), The Clinic e Paula (Chile), Elmalpensante e Soho (Colômbia), Pie izquierdo (Bolívia), Marcapasos (Venezuela) e, ufa, Piauí, no Brasil.

Se a lista de publicações é extensa e crescente, a de autores anima muito mais. Eles podem ser veteranos, como o argentino Martín Caparrós, o nicaraguense Sergio Ramírez, o mexicano Juan Villoro, o colombiano Héctor Abad Faciolince e o porto-riquenho Hector Feliciano.

 Ou então dar corpo a uma safra de novas vozes, na qual se destacam os peruanos Julio Villanueva Chang, Daniel Alarcón, Daniel Titinger, Gabriela Weiner e Toño Angulo. Todos eles alçados à “fama” graças ao sucesso de Etiqueta Negra, revista editada em Lima na qual já publicaram seus textos escritores tão respeitados como Jon Lee Anderson, Alma Guillermoprieto, Francisco Goldman e Susan Orleans, habituais da bíblia do jornalismo narrativo, The New Yorker.
Efe

Garcia Marquez, que acaba de completar 85 anos, continua sendo expoente da crônica jornalística latino-americana


Por sinal, costuma-se dizer que vem do norte a semente inspiradora dos cronistas latinos, o que não é verdade. Antes de surgirem nos Estados Unidos os cânones da narrativa jornalística típica da New Yorker, lá pelos anos 1960, aqui na terrinha se arriscaram nessa arte figuras como o argentino Rodolfo Walsh e o colombiano Gabriel García Márquez.

Era a década de 50 quando Walsh lançou “Operación masacre”, livro-testemunho que revela a trama oculta de uma série de massacres de militantes políticos, civis e militares nos lixões de José León Suárez, zona norte da Grande Buenos Aires, em 1956.

García Márquez – que em 1955 publicou a reportagem literária “Relato de un náufrago”, baseada em entrevistas com o único sobrevivente do naufrágio do navio A.R.C. Caldas – afirmou certa vez que o nosso continente se fez por suas crônicas. Para o ganhador do Nobel, nos relatos dos cronistas de Índias já se assomavam os germes do chamado realismo mágico e do estilo latino-americano de contar histórias descrevendo a vida cotidiana.

Jornalismo com alma

Mas o que é, finalmente, a crônica jornalística? “Um conto que é verdade”, explicou García Márquez. Para Martín Caparrós, ela resulta de certo jornalismo abrigado pela literatura e que é muito mais instigante do que o tradicional, “porque cria uma cultura e não fala de uma que já existe”. Se for realmente boa, uma crônica não inventa ou celebra o surpreendente, mas trata de descobri-lo, fazendo com que o leitor se interesse por algo que em princípio não lhe preocupava nem um pouco.

A febre atual

Quem quiser ficar em dia com o novo ímpeto da crônica jornalística latino-americana encontra em duas publicações recentes uma saborosa compilação de crônicas – e também de textos sobre a arte de escrevê-las.

A primeira é a “Antología de la crónica latino-americana actual”, organizada por Darío Jaramillo Agudelo e lançado pela editora Alfaguara. Depois tem “Mejor que ficción. Crónicas ejemplares”, a cargo de Jorge Carrión, pela editora Anagrama. Por enquanto, tudo em espanhol e para ser encomendado de fora, é verdade, mas nada que um leitor em busca de uma boa leitura não assimile com prazer.

Quem sabe, no futuro, editoras (daqui, de lá) não se esforcem mais para encarar novas compilações que misturem autores brasileiros e hispânicos. Afinal, por aqui essa febre encontra eco também – e latinos com capacidade de assombro diante da nossa mágica realidade somos todos nós.

Link:
http://operamundi.uol.com.br/conteudo/noticias/20553/muito+mais+que+ficcao+jornalismo+literario+vive+boom+na+america+latina.shtml

Israel versus Irã: Apocalipse Now! (1ª parte)- por Moniz Bandeira!

Israel versus Irã: Apocalipse now! (1ª parte)- por Moniz Bandeira, da Carta Maior

Mesmo com o respaldo da esquadra, estacionada no Golfo Pérsico, e a participação de tropas dos Estados Unidos, uma guerra contra o Irã, desencadeada por Israel, seria uma guerra extremamente difícil e sangrenta. Um ataque de Israel ao Irã mataria milhares de civis e arrasaria cidades, sem garantia de destruir completamente o programa de enriquecimento de urânio. Por outro lado, o Irã logo retaliaria com uma chuva de mísseis, provocando milhares de mortes em Israel. A análise é de Luiz Alberto Moniz Bandeira.

Em meados de 2010, os jornalistas Karen DeYoung e Greg Jaffe, do Washington Post, revelaram que as Special Operations Forces (SOF) dos Estados Unidos estavam a operar em 75 países, 60 a mais do que no fim do governo de George W. Bush , e o coronel Tim Nye, porta-voz do U.S. Special Operations Command, declarou que o número chegaria a 120. Esses números indicam que o presidente Barack Obama intensificou shadow wars em cerca de 60% das nações do mundo e expandiu globalmente a guerra contra a al-Qa’ida, além do Afeganistão e do Iraque, mediante atividades clandestinas das SOF, no Iêmen e em toda a parte do Oriente Médio, África e Central [1]. E ainda solicitou aumento de 5,7%, no orçamento das SOF para 2011, elevando-o a US$6,3 bilhões, mais um fundo de contingência adicional de U$ 3,5 bilhões em 2010 [2]. Seus contingentes, em 2010, eram de 13.000 efetivos, operando em diversos países, e eventualmente 9.000, divididos entre o Iraque e Afeganistão.

Com esse “way of war”, os Estados Unidos passaram a empregar high-tech killing machines, como os drones (UAV), aviões não tripulados e manejados à distância pela CIA, que disparam mísseis ar-terra do tipo AGM-114 Hellfire, ou equipes do Joint Special Operations Command (JSOC), como o Navy SEALs [3], para assassinar, sumariamente, e/ou capturar (Kill/Capture) chefes da al-Qa’ida e Talibans, no Paquistão, Afeganistão, Iêmen, Somália e em toda a Península Árabe [4]. O número de civis mortos por drones, desde 2004, situou-se, somente no Paquistão, entre 2.347 e 2.956 (dos quais 175 crianças), mais do que militantes [5].

Cerca de pelo menos 253 ataques foram ordenados pelo presidente Barack Obama [6]. E no início de 2012 os Estados Unidos dispunham de mais de 7.000 sistemas aéreos não-tripulados (Unmanned Vehicle Systems), i. e., os chamados drones, mais 12.000 no solo, até centenas de operações de ataque, cobertas e encobertas em, pelo menos, em seis países [7]. O mercado de drones, em 2011, estava avaliado US$ 5.9 bilhões e esperava-se que dobrasse na próxima década. Esses aviões não tripulados custam milhões de dólares e existem dos mais diversos tipos, como MQ-1 Predator e o MQ-9 Reaper. algumas variedades mais sofisticadas, como o Parrot AR.Drone, que custa cerca de US$300,00 e pode ser manejado, inclusive, por iPhone [8].

O presidente Barack Obama, em 2011, determinou a construção de uma constelação de bases, no Corno da África, Etiópia, Djibouti e até em uma das ilhas do arquipélago das Seychelles, no Oceano Índico, para uma agressiva campanha operações com drones, contra o grupo fundamentalista radical Harakat al-Shabaab al-Mujahideen (HSM), aliado de al’Qa’ida, baseado na Somália [9]. A CIA passou a constituir cada vez mais uma força paramilitar, além dos trabalhos de espionagem e coleta de inteligência, e, juntamente com as SOF, participa de quase todas as quais, travadas nas mais diversas regiões. E com esse way of war, ao qual o presidente Barack Obama, justificando o Prêmio Nobel da Paz, recorreu mais do que o presidente George W. Bush, ele se coloca por cima das leis nacionais e internacionais. Basta assinar uma Executive Order (EO) ou um finding [10], autorizando assassinatos (killing targets) e outras operações encobertas, sem ter de consultar o Congresso. E assim as guerras se multiplicaram e se multiplicam.

Barômetro de Conflitos
O Barômetro de Conflitos (Konfliktbarometer) divulgado pelo Instituto de Heidelberg de Pesquisa Internacional de Conflitos (Heidelberger Institut für Internationale Konfliktforschung - HIIK), órgão do Instituto de Ciência Política de Universidade de Heidelberg, mostrou que, em apenas um ano, 2011, o número de guerras e conflitos, no mundo triplicou e foi o mais alto, desde 1945: saltou de seis guerras, e 161 conflitos armados, em 2010, para 20 guerras e 166 conflitos em 2011, tendo como cenário, sobretudo, o Oriente Médio, África e Cáucaso [11]. E a previsão do prof. Christoph Trinn, diretor do HIIK, é de que esse número aumentará ainda em 2012 [12].

É provável. Segundo o presidente Jimmy Carter (1977–1981), revelou em entrevista à imprensa, Israel, em 2008, possuía um arsenal nuclear da ordem de 150 ogivas nucleares [13]. Em fevereiro de 2012, Patrick "Pat" Buchanan, um paleoconservador (linha tradicional) do Partido Republicano e ex-comentarista político da televisão MSNBC (canal a cabo dos Estados Unidos), estimou que Israel tem cerca de 300 ogivas nucleares e advertiu que uma guerra no Oriente Médio seria desastrosa para os Estados Unidos e a economia mundial [14].

No fim dos anos 1990, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos havia calculado que Israel possuía entre 75-130 armas nucleares, baseada nas estimativas de produção [15]. O arsenal incluía ogivas para mísseis Jericho-1 e Jericho-2, ademais de bombas para os aviões e outras armas táticas. Conforme outros cálculo, Israel poderia ter, àquele tempo, cerca de 400 armas nucleares, mas o número parece exagerado e seu último inventário incluiu menos de 100 artefatos [16].

O arsenal de Israel pode ser de 150 a 300 ogivas nucleares e a Israeli Defense Force – Air Force (IDF/AF) possuir 1.000 aeronaves, cerca de 350 jatos de combate contando com 125 F-15s avançados, e esquadrões de F-16s, especificamente modificados para empreender ataques estratégicos a longa distância, ademais de uma frota de Heron TP [17], drones, i.e. aeronaves não tripulados (UAV), que podem atingir 40.000 pés de altura e voar pelo menos 20 horas, até alcançar o Golfo Pérsico. A Israeli Defense Force – Air Force (IDF/AF) talvez seja maior do que a do Reino Unido e da Alemanha [18]. Contudo afigura-se muito limitada a possibilidade de sua utilização para deflagrar uma guerra contra o Irã, com a segurança de vitória.

Alguns, em Israel, crêem que o ataque ao reator Osirak (Operation Opera), no
Iraque (1981) constituiu um sucesso histórico, um precedente para o uso da força militar para impedir a proliferação de armas nucleares. Porém, oficiais do Pentágono entendem que um ataque às instalações nucleares no Irã seria uma operação muito complexa, muito diferente dos ataques “cirúrgicos” realizados por Israel ao reator Osirak, no Iraque, e ao reator da Síria (Operation Orchard), na região de Deir ez-Zor, em 6 de setembro de 2007, com um total de oito aviões F-15I Strike Eagle, F-16 Fighting Falcon e uma aeronave de inteligência [19].

A fim de atacar o Irã, no entanto, Israel necessitaria de ao menos 100 bombardeiros F-15, com bombas anti-bunker GBU-28 (laser-guided), das quais consta que dispõe apenas de 30, escoltados por caças a jato F-16 Fighting Falcon, e, segundo o antigo diretor da CIA e voar uma distância de 1,600 km (cerca de 1.000 milhas) sobre um espaço aéreo hostil, devendo ser reabastecidos no ar por outros aviões [20]. Segundo o antigo diretor da CIA Michael Hayden, Israel não seria capaz de efetuar ataques aéreos que seriamente afetasse o programa nuclear do Irã. Teria sérios problemas de alcanças as maiores usinas de enriquecimento de urânio em Natanz e Fordo, e a planta de conversão de urânio em Isfaham. Dentro do establishment de Israel, porém, há poucas vozes isoladas que duvidam do sucesso de uma larga investida contra o Irã, mas o consenso é de que seria uma operação complexa e difícil, para a capacidade da IAF [21].

O auto-Holocausto
A posse de armamentos nucleares não torna Israel uma potência. Esse poderio militar não corresponde à sua extensão territorial, à sua dimensão demográfica nem aos seus recursos materiais e humanos [22]. E os cenários que se delineiam, em caso de um ataque ao Irã, com ou respaldo dos Estados Unidos, são realmente apocalípicos. Basta comparar os dados geográficos e demográficas, bem como de suas forças armadas convencionais, para avaliar a catástrofe que levaria ao fim o Estado de Israel, com um Holocausto provocado pelo seu próprio primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Um auto-Holocausto. É o que também prevê o presidente da Rússia Vladimir Putin [23].

O território de Israel é de apenas 20.770 km2, cercado pelo Egito, a Faixa de Gaza, Líbano, Síria e pela Cisjordânia (West Bank). Sua população atual é de 7,5 milhões de habitantes (2012), dos quais mais ou menos 6 milhões, cerca 75%, são judeus e 25%, i. e., 1,5 milhão são árabes muçulmanos, alguns cristãos e druzos. Na Faixa de Gaza, há 1.6 milhões de palestinos; na Cisjordânia, há cerca 2,3 milhões de palestinos. Aproximadamente dentro de todos o território da Palestina (incluindo Israel) o número de árabes é da ordem de mais de 5,5 milhões de palestinos, número quase igual ao dos judeus em Israel, e o fato do governo de Binyamin Netanyahu continuar autorizando construções na Cisjordânia (mais 700 foram autorizadas em fevereiro de 2012), desrespeitando o princípio da criação de dois Estados, pode levá-los a uma violenta explosão, nas circunstâncias de uma guerra contra o Irã.

Ao contrário de Israel, o Irã ocupa o décimo-sexto maior território do mundo, ao sudoeste da Ásia, com uma larga extensão de 1.648.195 km2 e fronteiras com oito países, e mais de 2.440 km (1.516) do litoral entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã, interligados pelo estratégico Estreito de Hormuz. Sua população é de 78,8 milhões de habitantes (2012 est.), cerca de dez vezes maior do que a de Israel. O diretor do Military Balance Project, na Universidade de Tel Aviv, coronel Yiftah Shapir, admitiu que Israel poderia lançar um ataque contra o Irã e causar muitos danos, inabilitando seu programa nuclear, porém teria de bombardear o país e não poderia fazê-lo sozinho [24]. Ele reconhece que o máximo Israel que pode conseguir é atrasar seu programa nuclear por “some months” e, no máximo quanto possível, cinco anos [25]. Tanto o general (r) Nathan Sharony, chefe do Council for Peace and Security, composto por 1.000 altos oficiais de segurança de Israel, quanto ex-chefe do Mossad (2002-2010), Meir Dagan, também pensam que o ataque ao Irã não compensaria, não seria favorável a Israel [26].

Na Hebrew University, Meir Dagan qualificou um ataque militar ao Irã como “a stupid idea” e, na Tel Aviv University, disse que que isto provocaria uma guerra regional, impossível para Israel enfrentar, e daria à república islâmica razão para prosseguir com seu programa nuclear [27]. Posteriormente, em novembro de 2011, falou no Club de Indústria e Comércio de Tel Aviv que Israel não devia atacar o Irã e previu uma Katastrophe, se ocorresse [28]. Por sua vez, general (r) David Fridovich, ex-comandante ajunto do Special Operations Command e atualmente diretor de Defesa e Estratégia no Jewish Institute for National Security Affairs, declarou ao diário israelense que um ataque de Israel ao Irã poderia ser “counterproductive” [29].

A mesma opinião manifestou o general James Cartwright, do Marine Corps, acentuando inclusive que persuadiria mais iranianos a apoiar o programa nuclear e convencê-los que por isso o país deve ter os armamentos. Um ataque – acrescentou - poderia destruir as instalações, mas, mas não “uninvent” a tecnologia e o capital intelectual continuaria a existir [30]. E Shlomo Gazit, ex-chefe da Intelligence and National Security, da Israeli Defense Force, acentuou, claramente, que um ataque ao Irã teria conseqüência oposta, i. e., resultaria na “liquidation of Israel” [31]. E acentuou: We will cease to exist after such an attack” [32]. Daí que o general Martin Dempsey, chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, declarou à CNN que “We think that it's not prudent at this point to decide to attack Iran" [33].

Instalações nucleares
O Irã possui cerca de 12 a 20 instalações nucleares, espalhadas por diversas regiões. Alguns agentes de inteligência da França, Reino Unido e Estados Unidos suspeitam que, em Fordo, com 3.000 reatores, os cientistas iranianos estejam tentando enriquecer o urânio com uma concentração superior a 20% de pureza, o que capacitaria o governo de produzir artefatos nucleares, se fosse estocada quantidade suficiente para o uso militar. Essa usina está construída parcialmente dentro de uma montanha, a nordeste da mesquita de cidade de Qom, altamente protegida, com uma bateria de mísseis anti-aéreo, montada pela Guarda Islâmica Revolucionária [34].

A de Natanz, na província de Isfaham, distante de Israel quase 1.609 km. encontra-se cerca de oito metros abaixo do nível do solo, protegida por várias camadas de cimento. Lá operam aproximadamente 5.000 centrífugas, alimentadas com urânio hexafluoride. E, segundo o coronel reformado da USAF, Rick Pyatt, seria muito difícil o ataque ao Irã. Os aviões de Israel teriam de voar sobre um território estrangeiro hostil, porquanto os alvos estão 1.700 km distantes, devendo ser reabastecidos no ar, os mísseis Jericho-2 ou Jericho-3 teriam ogivas de peso limitado, provavelmente menos de 1.000 libras, e é muito duvidoso que elas pudessem penetrar bastante fundo para alcançar o nível determinado de destruição [35].

Se o Irã tiver ou tivesse o projeto de enriquecer urânio para fabricar artefatos nucleares, o que muitos suspeitam existir experimentos, inclusive na base militar de Parchim, outras usinas devem ser também subterrâneas, dentro de cavernas, difíceis de detectar com satélites e aviões. A topografia do Irã, a configuração do seu relevo, apresenta enorme dificuldade para ataques aéreos. É muito similar à do Afeganistão, muito escarpado e difícil de mapear, com aviões, inclusive porque os vôos têm de ser baixos e a república islâmica possui ótimo sistema de defesa antiaérea, com inúmeros mísseis terra-ar.

Uma operação aérea contra instalações nucleares do Irã teria de ser, provavelmente, acompanhada por tropas terrestres. Mas Israel conta apenas com 176.500 homens no serviço ativo, dos quais 133.000 no exército, e 565.000 na reserva, enquanto o Irã tem mais do que 523.000 no serviço ativo, dos quais 350.000 no exército, e cerca de 125.000, nos corpos da poderosa Guarda Revolucionária Islâmica [36]. Ademais, o Irã tem excelente sistema de defesa naval, montado com mísseis Sunburn, importados da Rússia e da China, o míssil mais letal contra qualquer navio, desenhado para voar 1.500 milhas por hora, nove pés acima do solo e da água [37]. O desequilíbrio de forças convencionais entre os dois países é enorme. Também possui submarinos e modernos barcos de patrulha, equipados com mísseis, e teria capacidade de interditar a estratégica de linha comunicação marítima, através do Golfo Pérsico [38], e controlar a passagem dos carregamentos de petróleo.

Mesmo com o respaldo da esquadra, estacionada no Golfo Pérsico, e a participação de tropas dos Estados Unidos, uma guerra contra o Irã, desencadeada por Israel, seria uma guerra extremamente difícil e sangrenta. Também, conforme os analistas do Pentágono, um ataque aéreo dos Estados Unidos às instalações nucleares do Irã não seria bastante para destruir todos os reatores para enriquecimento de urânio, embora fosse mais amplo, menos arriscado e provavelmente lhes causasse muito mais danos que se realizado por Israel [39]. Poderia somente atrasar o programa, mas não impedir que o Irã produzisse armas atômicas [40].

A população do Irã é superior à soma das populações do Iraque e do Afeganistão e grande parte está concentrada nas montanhas, que configuram um cinturão estendido entre Zagros e Elbroz e uma linha entre o litoral do Mar Caspio e o Estreito de Hormuz. Outra parte da população está algumas cidades e no nordeste, em Mashhad, cidade com 2,83 milhões de habitantes, próxima à fronteira com o Afeganistão e o Turcomenistão, onde se encontra a tumba do imã al-Rida (765-c.818), um dos sucessores do profeta Muhammad, venerado pelos xiitas e visitado por cerca de 20.000 pessoas. O resto do país é muito pouco povoado. Com três lados cercados por montanhas e dois pelo Mar Cáspio e o Golfo Pérsico, o tamanho e a topografia tornam do Irã uma fortaleza, muito difícil de ser invadida e, ainda mais, ser conquistada [41].

Um ataque de Israel ao Irã seria um desastre. Mataria milhares de civis, arrasaria cidades, porém não poderia aniquilar 78,8 milhões de iranianos nem devastar um território de 1.648.195 km2. Porém nenhuma segurança teria de destruir completamente seu programa de enriquecimento de urânio. Por outro lado, o Irã logo retaliaria e, se lançasse seguidamente uma chuva de mísseis Shahab, Gahdr-3ª ou Sejji, com bombas de fragmentação, cuja sub-munição (bomblet), cerca de 202 explosivos, pode atingir entre 200 e 400 metros e alcançar até 149 km, demoliria muitas cidades de Israel, inclusive Tel Aviv, e dizimaria milhares de seus habitantes. Certamente, o Hamas (sunita), na Faixa de Gaza, e o Hisbollah (xiita), no Líbano, aproveitariam para também atacar Israel com mísseis Katyusha, Fadjr-5, Urgan, Khaibar e outros de que as duas organizações paramilitares dispõem.

Seria extremamente difícil, quase impossível, o governo de Benjamin Netanyahu resistir aos bombardeios e ao levante da população palestina dentro de Israel (1,5 milhão), na Faixa de Gaza (1.6 milhão) [42] e na Cisjordânia (2,3 milhões). Dentro de todo o território da Palestina (incluindo Israel) o número de palestinos é da ordem de mais de 5,5 milhões, contra mais ou menos 6 milhões de judeus. Seria uma guerra híbrida, de alta e baixa intensidade. Da população de Israel, de mais ou menos 6 milhões de judeus, 1,5 milhão poderia ser, em larga medida, aniquilada.

(*) Luiz Alberto Moniz Bandeira é cientista político e historiador, professor titular de história da política exterior do Brasil (aposentado) da Universidade de Brasília e autor de mais de 20 obras, entre as quais Formação do Império Americano (Da guerra contra a Espanha à guerra no Iraque).

NOTAS
[1] Karen DeYoung & Greg Jaffe. “U.S. 'secret war' expands globally as Special Operations forces take larger role”. Washington Post. Friday, June 4, 2010
Nick Turse. “A secret war in 120 countries. The Pentagon’s new power elite”. Le Monde diplomatique,18 August, 2011.

[2] Karen DeYoung & Greg Jaffe. “U.S. 'secret war' expands globally as Special Operations forces take larger role”. Washington Post. Friday, June 4, 2010

[3] Navy SEALs é uma unidade especial do United States Naval Special Warfare Command (NAVSPECWARCOM), cujo quartel-general é Coronado, na California, a integra o US Special Operations Command (USSOCOM). Foi um comando do Navy SEALs que executou bin Ladin no Paquistão. SEAL é um acrônimo de Sea, Air e Land (SEAL)

[4] Priest, Dana & William M. Arkin. Top Secret America. The Rise of the New American Security State. Nova York-Londres: Little Brown & Company, 2011, p. 251.

[5] Chris Woods “Drone War Exposed – the complete picture of CIA strikes in Pakistan”. Bureau of Investigative Journalism. August 10th, 2011. http://www.thebureauinvestigates.com/2011/08/10/most-complete-picture-yet-of-cia-drone-strikes/ Benjamin Wittes “Civilian Deaths from Drone Strikes”. Lawfare - Hard National Security Choices. http://www.lawfareblog.com/2011/08/civilian-deaths-from-drone-strikes/

[6] Ibid.

[7] Peter W. Singer. “Do Drones Undermine Democracy?”. The New York Times. Sunday Review. January 21, 2012. Peter W. Singer é diretor da 21st Century Defense Initiative na Brookings Institution e autor da obra Wired for War: The Robotics Revolution and Conflict in the 21st Century.

[8] Nick Wingfield & Somini Sengupta. “Drones Set Sights on U.S. Skies”. The New York Times, February 17, 2012

[9] Craig Whitlock & Greg Miller “U.S. assembling secret drone bases in Africa, Arabian Peninsula”. The Washington Post, September 21 2011.

[10] Autorização dada pelo presidente dos Estados Unidos, quase sempre por escrito, na qual ele acha (find) que uma operação encoberta (covert action) é importante para a segurança nacional. O finding é o mais secreto entre os documentos do governo americano.

[11] "Conflict Barometer 2011" - http://hiik.de/de/konfliktbarometer/

[12] Ibid.

[13] “Israel: Carter Offers Details on Nuclear Arsenal” - Reuters. New York Times. May 27, 2008. “Israel tem 150 armas nucleares, diz ex-presidente dos EUA”. BBC.Brasil. 26 de maio, 2008 - 19h46 GMT (16h46 Brasília)

[14] Pat Buchanan: “300 Nukes in Israel Yet Iran a Threat?” - http://buchanan.org/blog/video-pat-buchanan-300-nukes-in-israel-yet-iran-a-threat-5022
“300 ojivas nucleares israelíes, una amenaza mundial”. HispanTV 29/02/2012 09:39 www.hispantv.ir/detail.aspx?id=175279. Mark Whittington- “Pat Buchanan Oddly Thinks Israel is a Bigger Threat Than Iran” Yahoo! Contributor Network – Wed, Feb 22, 2012. Jeff Poor – “Buchanan: Who is a bigger threat — Iran or Israel?” The Daily Caller - 02/22/2012 - http://dailycaller.com/2012/02/22/buchanan-who-is-a-bigger-threat-iran-or-israel/

[15] A comunidade de inteligência dos Estados Unidos calculava, em 1999, que Israel tinha então entre 75 e 150 ogivas nucleares, conforme em boletim da Federation of American Scientists (FAS). Scarborough,Rowan. Rumsfeld's War. Washington, D.C.: Regnery Publishing, 2004, pp. 194-223.

[16] “Nuclear Weapons – Israel”. Federation of American Scientists (FAS). University of St. Andrew – 8.Jan.2007. www.fas.org/nuke/guide/israel/nuke/

[17] Os vants Heron TP, fabricados pela IAI (Israel Aerospace Industries), podem voar a uma altura de até 13.000 metros, acima da altitude da aviação comercial. Os Estados Unidos têm outro modelo, o MQ-1 Predator, usado para matar supostos terroristas, em operações chamadas de “3D”: “dull”, i. e., operações sombrias.

[18] Anshel Pfeffer – “Israel could strike Iran's nuclear facilities, but it won't be easy. Haaretz – Israel, 20.02.12.

[19] “Report: U.S. officials say Israel would need at least 100”. Ha’aretz – Israel, 20.02.12

[20] Ibid. Michael Kelley. “US Offers Israel Advanced Weapons In Exchange For Not Attacking Iran”. Business Insider – Military & Defense. March 08, 2012.

[21] Anshel Pfeffer – “Israel could strike Iran's nuclear facilities, but it won't be easy. Haaretz – Israel, 20.02.12.

[22] “O status de potência pode ser estimado pela sua extensão territorial e o número de sua população, bem como pelos recursos materiais e humanos que um Estado tem condições de usar a fim predizer quão vitorioso pode ser em uma guerra com outro Estado, se usa seus recursos como vantagem.
Karl W. Deutsch, “On the concepts of politics and power,” in John C. Farrel
e Asa P. Smith (eds.), Theory and Reality in International Relations, Nova
York, Columbia University Press, 1966, p. 52. Gramsci, Antônio. Maquiavel, a política e o Estado moderno, 2ª ed., Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1976, p. 191.

[23] Stephen Bierman & Ilya Arkhipov. “Putin Says Iran Military Strike to Be ‘Truly Catastrophic’”. Bloomberg Businessweek. February 27, 2012. http://www.businessweek.com/news/2012-02-27/putin-says-iran-military-strike-to-be-truly-catastrophic-.html

[24] "Israel May Lack Capability for Effective Strike on Iran Nuclear Facilities” -
Bloomberg- http://www.bloomberg.com/news/2011-11-09/israel-may-lack-capability-for-iran-military-strike.html

[25] Larry Derfner - “Security expert: Attacking Iran isn’t worth it. +972 is an independent, blog-based web magazine. February 6 2012|- http://972mag.com/warriors-against-war-with-iran/34831/

[26] Ibid.

[27] Ethan Bronner - “A Former Spy Chief Questions the Judgment of Israeli Leaders”. The New York Times, June 3, 2011.

[28] Bergman, Ronen & Mittelstaedt, Juliane von. “Dagans Bombe”. Der Spiegel. 07.11.2011.

[29] Hilary Leila Krieger & Jpost Correspondent. 'Strike on Iran could be counterproductive'. Jerusalem Post. Thu, Mar 15, 2012.

[30] Kristina Wong “Attacking Iran’s nuke sites may only slow progress”. The Washington Times, Monday, February 27, 2012

[31] ‘An Attack on Iran Will End Israel as We Know It’. Tikun Olam-תיקון עולם: Make the World a Better Place -Promoting Israeli democracy, exposing secrets of the national security state http://www.richardsilverstein.com/tikun_olam/2011/06/10/an-attack-on-iran-will-end-israel-as-we-know-it/

[32] Ibid.

[33] David Jackson, “Obama to meet Israel's Netanyahu on March 5” - USA TODAY Feb 20, 2012.

[34] Julian Borger (New York) & Patrick Wintour (Pittsburgh). “Why Iran confessed to secret nuclear site built inside mountain”. The Guardian, 26.09.2009

[35] David Isenberg (Cato Institute). “Israeli Attack on Iran’s Nuclear Facilities Easier Said Than Done”. Inter Press Service, Washington, Feb 13 2012 (IPS). Rick Francona. “Iran - Israel's Air Strike Options Update”
Middle East Perspectives: June 22, 2008: HTTP://Francona.Blogspot.Com/2008/06/Iran-Israels-Air-Strike-Options-Update.Html

[36] “Factbox: How Israel and Iran shape up militarily” – Reuters. 03.11.2011.
http://www.reuters.com/article/2011/11/03/us-israel-iran-forces-idUSTRE7A25O520111103

[37] “Iran's Arsenal Of Sunburn Missiles Is More Than Enough To Close The Strait”. Business Insider - Russ Winter| - February 08, 2012|
http://articles.businessinsider.com/2012-02-08/news/31036419_1_anti-ship-defense-system-target-missile#ixzz1oWwRbKm4

[38] Anthony H. Cordesman & Alexander Wilner – “Iran and the Gulf Military Balance I: The Conventional and Asymmetric Dimensions”. Center for Center for Estrategic & International Studies (CSIS) Mar 6, 2012.

[39] Mark Landler. “Obama Says Iran Strike Is an Option, but Warns Israel”. The New York Times, March 2, 2012

[40] Ibid.

[41] “The Geopolitics of Iran: Holding the Center of a Mountain Fortress”. Stratfor – Global Intelligence, December 16, 2011.

[42] Cerca de 45 foguetes e um número quase igual de bombas foram disparadas desde Gaza sobre Israel em 24 horas, no dia 9 de março, como represália das milícias palestinas pelo assassinato do secretário-geral dos Comitês Populares de Resistência, Zuhair Al Qaisi, com foguetes de Israel. “Em 24 horas, 45 foguetes palestinos atingiram Israel”. Folha de São Paulo, 10.03.2012. 

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