Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

terça-feira, 18 de junho de 2013

Wagner Iglecias: Reflexões sobre as manifestações da Geração Facebook!

O sociólogo e professor da USP, Wagner Iglecias, faz uma reflexão sobre a sua experiência no protesto que tomou as ruas da capital paulista 
Por Wagner Iglecias 
(Foto: Mídia Ninja)
Política: acompanhar in loco a passeata desta 2a. feira em São Paulo foi um exercício interessante. Uma infinidade de bandeiras, cartazes e côros os mais variados embalados por uma multidão cujo ponto de concordância talvez seja simplesmente o repúdio pelo sistema político tal qual ele se porta hoje: reduzido às disputas modorrentas entre partidos da ordem, burocraticamente fechado em gabinetes e inerte ao clamor das ruas e aos problemas cotidianos das pessoas. 
O que parece ser um diagnóstico bastante próximo da realidade. Mas será que a molecada que marchou ontem por SP trabalha com a perspectiva de que a classe política brasileira talvez tenha sido convertida apenas no intermediário de uma engrenagem muito maior? Será que a juventude que está indo às ruas está consciente do que é o nosso atual sistema de financiamento de campanhas eleitorais, a enormidade de dinheiro que ele movimenta e o que ele implica em termos de captura de nossos representantes? 
Será que eles acham que os políticos governam para si mesmos ou que talvez governem prioritariamente para uns poucos? A ver. Como ponto negativo ressalte-se os insistentes pedidos que a massa fazia, as vezes coagindo e mesmo xingando, para que representantes de partidos de esquerda, como PSOL e PSTU, recolhessem suas bandeiras. 
Se há um compreensível repúdio generalizado pelos partidos políticos, estas e outras pequenas legendas de esquerda não são responsáveis pela situação a que chegamos. De mais a mais elas têm prática de mobilização de segmentos diversos da população muito anteriores à sensação generalizada que se produz agora de que “o povo acordou”, como tantas vezes foi entoado na marcha desta 2a. feira.
Capital: percorri o trajeto da Faria Lima, desde o Largo da Batata até a Rede Globo, no Brooklin. Embora a Paulista seja uma espécie de “grande prêmio”, não só porque é o ponto mais alto da cidade mas também o de maior visibilidade midiática, fato é que a Faria Lima consitui-se, junto com a Berrini e a Marginal Pinheiros, no novo centro econômico da cidade, região para a qual os governos estadual e municipal destinaram vultosos recursos nos últimos anos e na qual a valorização imobiliária foi espetacular. 
É naquela região que se concentram as sedes de inúmeras empresas do setor de serviços avançados, principais nós de conexão da economia brasileira com os fluxos globais do capital. Foi ali que a multidão caminhou, entre alguns dos endereços mais caros de toda a América Latina. 
Como o policiamento era pequeno, a impressão que se tinha era a de que o patrimônio físico do grande capital transnacional tivesse sido deixado ali, à própria sorte, sob a responsabilidade de uns poucos seguranças privados que olhavam tranquilos para as milhares de pessoas que passavam diante de seus olhos protestando contra o sistema político e contra setores da grande mídia.
Foi emocionante ver a imagem da multidão refletida nas paredes envidraçadas dos edifícios pós-modernos da avenida, mas foi também estranho perceber que os poucos gatos pingados que puxaram côros contra os shoppings Iguatemi e JK Iguatemi, dois templos do consumo de luxo em SP, não tiveram sucesso diante de uma massa que não poupava xingamentos a Arnaldo Jabor, José Luiz Datena, Fernando Haddad e Geraldo Alckmin. Pelo contrário, a maioria dos manifestantes convidavam clientes e funcionários daqueles estabelecimentos, que olhavam tudo do alto, para que descessem e se juntassem ao protesto. 
O “vem pra rua vem, contra o aumento” dirigido pela multidão ao pessoal dos shoppings não deixa de ser parecido com o “ei, vizinho, vem comer um churrasquinho” que a turma do churrascão de gente diferenciada cantou para alguns temerosos moradores de Higienópolis que assistiam, das sacadas de seus apartamentos, à ocupação de seu bairro por alguns milhares de manifestantes numa tarde de sábado em maio de 2011.
 A impressão que dá é de que não há luta de classes no Brasil, e que numa situação dessas ao invés da conflagração o desejo da massa é de haver confraternização. Por outro lado há que se pensar que a manifestação de ontem em SP foi, majoritariamente, de jovens de classe média, criados e socializados dentro de grandes centros de consumo. Será que se trabalhadores sindicalizados ou jovens da periferia estivessem marchando pela Faria Lima ontem a postura diante dos dois famosos e elitizados shoppings teria sido diferente?
Mídia: por fim, as críticas dos manifestantes à mídia. A Rede Globo não foi poupada pela multidão, e os apupos cresciam na medida em que a marcha se aproximava da sede paulista da emissora. 
Creio que juntamente com a revista Veja são os dois casos mais pronunciados do rápido decréscimo de credibilidade que a grande imprensa nacional sofre, pelo menos junto a este segmento da população. 
Essa garotada enxerga o mundo, em grande medida, pela lógica das redes. Não compram conteúdos, compartilham. O que é um problema bastante concreto para a grande imprensa, pois afeta o âmago de seu tradicional modelo de negócio. Mas mais do que isso, o que se tem hoje são milhões de indivíduos jovens que estão cada vez mais habituados ao fluxo de informações das redes sociais. Nas quais a relação entre as pessoas é horizontal, o que implica a inexistência de autoridade ou de discursos definitivos e de mão única. 
O que vale para essa molecada, especialmente nos debates feitos no mundo virtual, são argumentos fortes e convincentes, venham de quem vier. Qualquer coisa diferente disso é rechaçada, vira objeto de chacota ou de profunda desconfiança. 
E talvez seja assim, dessa maneira, que a juventude cada vez mais enxerga todo e qualquer tipo de autoridade, a qual por excelência foi instituída antes e fora do mundo virtual, imprensa aí incluída.
Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP. 
Link:

Manifestações representam força renovadora e nova oportunidade - por Zé Dirceu!

Manifestações representam força renovadora e nova oportunidade - por Zé Dirceu, do seu blog - Publicado em 17-Jun-2013

Hoje, o Movimento Passe Livre volta às ruas para protestar contra o aumento nas tarifas do transporte público. Há outros atos previstos para esta semana. As manifestações continuam e vão crescer. Delas temos que tirar lições, reformar as polícias e os transportes públicos.

Mas também precisamos entender o caráter dos protestos, que vão além do preço e da qualidade dos transportes. É uma nova juventude exigindo mudanças políticas e culturais. Uma oportunidade para o PT e os nossos governos mudarem a forma de se comunicar.

São as redes e a web o principal instrumento de comunicação dessa juventude. O que a une e lhe serve de comunicação são a cultura, a produção e a manifestação. Assim, temos que mudar nossa forma de nos comunicarmos e dar à cultura em nossos governos – ao lado da melhoria das condições de vida – a prioridade que a juventude exige.

Dialogar e abrir novos espaços de participação, já que a repressão pura e simples, como vimos em São Paulo e em outros Estados, não levará a nada e não tem legitimidade e nem apoio político na sociedade.

Temos que aprender a conviver e dialogar com as novas forças sociais que essas manifestações expressam, com suas novas formas de luta. E entendê-las como uma força renovadora e uma oportunidade: o surgimento em nossa sociedade de centenas de milhares de jovens lutando por mudanças.

Precisamos aproveitar essa forma para impulsionar reformas democráticas e sociais que não tivemos e não temos força e maioria na sociedade para realizar. Reformas como a política, a tributária, a urbana, a financeira, a da democratização da comunicação, a educacional e cultural.

Mudanças que aprofundem as que fizemos até aqui e que necessitam de mais apoio e de forças sociais novas que representem o Brasil que ajudamos a transformar.

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Sistema político precisa incorporar representantes eleitos por movimentos sociais! - por Marcos Doniseti!

Sistema político precisa incorporar representantes 

eleitos por movimentos sociais! - por Marcos Doniseti!


O atual sistema político terá que ampliar o acesso aos novos segmentos sociais que não se sentem representados pelos partidos políticos tradicionais, bem como pelas igrejas, sindicatos, entre outros.

São principalmente estes segmentos que estão nas ruas do país inteiro, protestando não apenas contra aumentos de tarifas de transporte coletivo, mas principalmente porque não se sentem representados politicamente no atual sistema de democracia representativa que vigora em nosso país.

Essa geração de jovens demonstra, claramente, que não é representada por nenhum dos partidos políticos existentes e tampouco pelos movimentos sociais tradicionais, pelos quais não sentem nenhuma atração, devido à sua natureza hierarquizada, disciplinada e que não abre espaço para a sua participação e para as suas demandas.

Neste sentido, talvez fosse necessário adotar uma ideia mais ousada, a fim de ampliar o alcance da representação política: eliminar o monopólio dos partidos políticos na representação política nos cargos legislativos (Congresso Nacional, Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores).

Assim, os movimentos sociais deveriam ter o direito de lançar candidatos a cargos eletivos, sem que fosse necessário estar filiado a qualquer partido.

Essa cota mínima poderia ser de uns 25%-30% dos representantes eleitos para o Legislativo (Congresso Nacional, Deputados Estaduais e Vereadores).

Com isso, estaria garantida a representação política de amplos e significativos setores da sociedade que se organizam de uma outra maneira, diferente da tradicional, e que não são representados pelos partidos políticos e movimentos sociais tradicionais.

Sem isso, corremos o sério risco de vermos se desenvolver um crescente e acelerado processo de deslegitimação do sistema democrático representativo.


domingo, 16 de junho de 2013

Geração Facebook: E daqui, para onde vamos? - por Pablo Villaça!

E daqui, para onde vamos? - por Pablo Villaça, do seu blog
Em Portugal, a Geração Facebook luta para preservar os seus direitos, que o Neoliberalismo está , progressivamente, eliminando. E aqui no Brasil, que rumo tomará o movimento da Geração Facebook? Até agora, ninguém sabe. 
Hoje participei da manifestação que ocorreu em Belo Horizonte e sinto-me à vontade para dizer algo: Geraldo Alckmin conseguiu o que queria e entrou para a História do Brasil. Não como sonhava entrar, mas seu nome já está garantido ao menos como nota de rodapé nos livros didáticos.
Explico: até a noite de quinta-feira, 13 de junho, o movimento que ocorria pontualmente ao redor do Brasil em protesto ao aumento das passagens de ônibus era algo relativamente difuso, sem muito potencial para crescimento. Havia duas opções de desfecho: as passagens seriam reduzidas (como ocorreu em Porto Alegre) e tudo voltaria ao normal ou eventualmente a negativa das empresas e do governo deixaria claro que nada poderia ser feito quanto à questão. No entanto, a partir do instante em que Alckmin agiu como Alckmin (e Serra) e ordenou que a PM reprimisse a manifestação popular com força desproporcional, catalisou um processo que talvez levasse um tempo infinitamente maior para se cristalizar. Ninguém gosta de um bully – e o governo tucano, como já havia se mostrado em tantas outras ocasiões (com professores da rede pública, estudantes da USP, habitantes do Pinheirinhos e até mesmo com a Polícia Civil), não hesita em se entregar ao bullying sempre que questionado.
Desta vez, porém, Alckmin errou feio seu cálculo e criou um monstro que se espalhou por todo o país. A partir de quinta-feira, a questão definitivamente já não girava mais em torno de 20 centavos ou mesmo do transporte público livre; era uma questão de cidadania. E, como tal, deixou também de ser algo contra o governo tucano ou a prefeitura petista, passando a ser um grito de revolta generalizado, um berro de “chega!”.
Mas “chega” o quê?
E foi esta pergunta que vi tantos jovens se fazendo durante o manifesto em BH – mesmo que não percebessem o questionamento. Assim, voltei para casa feliz por testemunhar o despertar de uma juventude repleta de potencial, mas também inquieto por perceber claramente que ela não tem ainda uma ideia muito clara do que está fazendo ou de como prosseguir.
O que resulta numa combinação muito, muito perigosa.
(Aqui peço licença para um breve flashback pessoal para estabelecer por que me julgo detentor de certa experiência para discutir a questão: em 1992, depois de fundar e presidir por dois anos o grêmio do colégio no qual estudava – Promove Savassi -, fui eleito em assembleia estudantil como líder do movimento secundarista no Fora Collor. Como tal, participei da organização das manifestações em Belo Horizonte, discursei em carro de som na Praça da Liberdade e na Praça Sete e fui o rosto de meus colegas sempre que uma entrevista à imprensa era necessária – e certamente há fitas embaraçosas nas emissoras mineiras que trazem meu rosto moleque tentando parecer sério enquanto discute os motivos que tornavam necessária a saída do Presidente. Na época, fui um dos estrategistas do movimento em Minas, ajudando a decidir datas, locais e focos de protesto – e mais tarde presidiria o DA da faculdade até abandonar o movimento estudantil ao perceber que precisava me focar nos estudos. Não sou, portanto, um mero palpiteiro, creio eu. Fim do flashback.)
Ao caminhar entre a multidão de milhares de pessoas neste sábado, percebi duas coisas muito óbvias: uma imensa empolgação e uma preocupante falta de foco.
A primeira é fácil compreender: há anos a juventude não ia às ruas – e, como toda geração, eventualmente era inevitável que ela se questionasse acerca de sua própria revolução. A geração anterior teve o “Fora Collor!”; antes dessa, houve a luta contra a Ditadura. O que a geração pós-anos 90 tinha para protestar, porém? Quando e como poderia extravasar o impulso rebelde que faz parte do DNA jovem e que é algo tão belo e fundamental para o avanço da Humanidade?
Os últimos dias trouxeram esta oportunidade – e não é à toa que um jovem amigo pelo qual tenho imenso carinho me enviou uma mensagem por telefone na qual dizia, em parte, “estar em êxtase” após a passeata. Como não estaria? Lembro-me de meus dias de líder estudantil e ainda sinto o calor nostálgico da sensação de dever cumprido: como tantos antes de mim, eu estava deixando minha marca na História.
É um sentimento lindo, único, precioso. E sinto-me privilegiado por ter testemunhado o brilho que este trouxe aos olhos de tantos jovens hoje em Belo Horizonte. Eu olhava ao meu redor e via este êxtase em todos os rostos lisos que me cercavam – e sentia a vontade de abraçá-los com força e dizer: “Eu sei. É lindo, não é?”.
Sim
, é lindo.

Mas eu também me sentia inquieto ao observar que, ao lado da euforia, havia uma clara dispersão de objetivos. Assim, puxei papo com vários jovens e observei atentamente os cartazes que carregavam.
“Pela humanização das prostitutas!”
“O corpo é meu! Legalizem o aborto!”
“Fora, Lacerda!”
“Viva o casamento gay!”
“Passe Livre já!”
“Passagem a 2,80 é assalto!”
“Pelo fim da PM no Brasil!”
“Cadê a Dilma da guerrilha?”
“Fuck you, PSTU!”
“Aécio NEVER!”
“Não à Copa no Brasil!”
E por aí afora. Era um festival desconjuntado de causas, ideologias e revoltas. Os cartazes tratavam dos sintomas, não da doença – e ao berrarem os sintomas pelas ruas de BH em vez de identificarem a patologia que os provocavam, aqueles jovens pareciam felizes, sim, mas também um pouco perdidos.
Passei a caminhar silencioso pela multidão. Sentia a energia gostosa, positiva, da ação juvenil, mas mergulhava cada vez mais em uma reflexão preocupada sobre o que via. Seria apenas um sinal dos tempos? Uma revolução do tempo das redes sociais, nas quais você pode “curtir” uma mensagem, uma causa, a cada segundo? Havia, sim, um componente de hiperlink até nos bordões cantados pela massa: um refrão sobre os ônibus levava a outro sobre a PM que levava a outro sobre a Copa que levava a outro sobre Lacerda que levava a outro sobre…
… sobre o quê?
Ao chegar em casa, manifestei esta dúvida no Twitter e alguns jovens imediatamente responderam: “Ninguém nos representa!” e “Sim, estamos contra tudo!”.
Mas “estar contra tudo” não é ideologia.
E sem ideologia não há movimento que se sustente. Ou, no mínimo, que se sustente de maneira consistente – o que abre espaço para a manipulação.
Foi isto, enfim, que me angustiou profundamente.
Vivemos em tempos perigosos: a direita religiosa se torna cada vez mais influente e as grandes empresas da mídia já perceberam que o PSDB não é uma oposição viável – e, assim, decidiram ser elas mesmas a Oposição. Não é à toa que, contradizendo todos os índices econômicos divulgados por órgãos independentes, a Globo, a Foxlha, a Veja e o Estadão vêm pintando um quadro de instabilidade crescente: inflação alta, dólar alto, PIB decrescente e por aí afora, pintando um país em crise que, sejamos honestos, não corresponde ao que vemos todos os dias nas ruas.
Enquanto isso, o aliado histórico dos movimentos populares, o PT, parece ter se esquecido de suas origens: tímido em sua resposta à brutalidade da PM, Haddad apenas embaraçou-se ao relativizar os excessos da polícia – e sua proposta de se reunir com as lideranças do movimento Passe Livre vem tardio, já que estas já não representam mais as massas na rua. Enquanto isso, Dilma é vaiada num estádio lotado por representar o poder – mesmo que, há pouco tempo, tenha oferecido subsídios justamente para diminuir as passagens de ônibus que, ironicamente, serviram como estopim da revolta.
Ora, se o PT não é visto mais como representante popular pelos manifestantes (e nem tem projeto que o aproxime da juventude) e o PSDB é claramente a mão pesada da repressão, para onde os jovens podem se voltar? Além disso, como não têm uma causa específica a defender, estes empolgados rapazes e moças criam um problema impossível, já que não há solução viável que os acalme. Como resultado, surge apenas um clima imponderável de insatisfação política generalizada – um clima complexo, intenso, raivoso e insolúvel.
É deste tipo de contexto que nascem os golpes.
E esta não seria uma solução que desagradaria os barões da mídia – lembrem-se das manchetes dO Globo pós-golpe em 64.
Claro que esta não é a única resolução possível para o quadro que se desenha. Uma revolução sem foco é uma revolução em busca de um líder, de um emblema, de uma figura messiânica. E não há, hoje, uma estrutura política mais equipada para preencher este vácuo que a direita religiosa.
A guinada reacionário-fascista, portanto, é uma possibilidade nada absurda para este movimento que nasce tão bem intencionado.
Isto, aliás, é que me deixa tão preocupado: os jovens que vi hoje na rua eram… lindos. Lindos. Felizes em seu papel democrático, acreditavam estar desempenhando uma função histórica fundamental. E estão. Mas se não surgir um foco para esta embrionária revolução, o perigo para que ela se desvirtue e seja cooptada pelo que temos de mais reacionário, conservador, atrasado e estúpido é real e imediato.
E veríamos, então, a destruição dos resultados trazidos por dez anos de um projeto político voltado de forma inédita para o crescimento social dos miseráveis. Ninguém duvida que, do ponto de vista social, o Brasil de 2013 seja infinitamente melhor que o de 2003. Mas se esta massa juvenil maravilhosa não encontrar o foco necessário, corremos um grande risco de regressarmos a 1993.
Foi isto, afinal, que me deixou tão triste após uma tarde de alegria ao lado daqueles admiráveis jovens.

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Manuel Castells: Internet permitiu criar redes de debates, organização e de ação!

MANUEL CASTELLS - REDES DE INDIGNAÇÃO E ESPERANÇA

PorDanielle Martins- Postado em 05 março 2013
Às vésperas de lançar novo livro, sociólogo aposta numa articulação entre internet e praças reocupadas, pode reinventar democracia e sociedades.
Entrevista a Francisco Guaita, da RT-TV | Transcrição e tradução: Daniela Frabasile
Manuel Castells: Na Internet, as pessoas estabelecem redes de relações democráticas e participativas.   
Manuel Castells parece mais disposto do que nunca a derivar, de suas teorias, saídas políticas. Nas próximas semanas, lançará a primeira edição, em castelhano, de “Redes de Indignação e Esperança”, seu novo livro. 
O autor de obras como a trilogia “A Era da Informação”, que ajudaram a decifrar tendências de longo prazo da sociedade e da democracia contemporâneas, está convencido de que é preciso intervir rápido, andes que elas se percam.
Observador atento e colaborador ativo dos “indignados” espanhóis, este sociólogo de projeção internacional costuma frisar que a mudança de mentalidades, desejada pelo movimento, requer tempo. Mas será possível esperar?
Castells também tem observado que a velha democracia fechou-se sobre si mesma, devido a dois fatores principais. Uma pequena oligarquia, ligada às finanças, enriquece graças ao Estado. São os aplicadores em títulos públicos, cujos rendimentos bilionários já não estão diretamente ligados à produção: dependem de governantes dispostos a manter juros elevados; a livrar os bancos de controle; a reprimir despesas estatais voltadas a outras classes sociais – como a manutenção dos serviços públicos, aposentadorias e programas redistributivos.
E esta oligarquia, que tem fartos recursos para patrocinar campanhas eleitorais, abastecer a mídia tradicional e produzir intensa ação de “lobby”, associa-se, na maior parte dos países, a uma classe de “políticos profissionais” que tende ao autismo. 
Preocupados em conservar seu poder, rechaçam as múltiplas chances de democracia que as novas tecnologias viabilizam. Recorrem com frequência à violência policial. 
Ameaçam permanentemente a própria liberdade na internet.
É na rede, como se sabe, que Castells vê, há muito, a esperança. 
Aqui, os cidadãos estão multiplicando as formas de produzir colaborativamente, trocar sem tornar-se dependentes de dinheiro, estabelecer redes de informação recíproca. Esta imensa rede de novas relações democráticas e participativas só não se estendeu às instituições porque tal transposição não interessa nem à oligarquia financeira, nem aos políticos profissionais.
Castells não se arrisca a prever o desfecho deste confronto latente. Sabe que há riscos: se o sistema se mantiver hermético, os movimentos “radicalizarão inevitavelmente” – e isso talvez incluia violência, o que pode fazer o jogo das classes dominantes.
Contra este e outros riscos, Castells aposta no próprio movimento – e numa nova virada possível. Graças à indignação, diz ele, as sociedades começaram a superar o medo que as mantinha inertes. Agora, para que não gere apenas raiva, esta indignação precisa converter-se em esperanças e em alternativas. É este desafio que o professor catalão – expulso da Espanha pelo franquismo e da França por ser considerado articulador dos movimentos de 1968 – parece estar disposto a encarar. A seguir, a edição da entrevista que ele concedeu, em 17 de julho, à rede de TV internacional da Rússia RT.(A.M.)
Você costuma dizer que o poder não está na Casa Branca, nem nos mercados financeiros, mas em nosso próprio cérebro. Por que este é um segredo das elites?
Manuel Castells:Bem, é porque se eles nos contarem isso, perdem o poder. O poder real não é o poder da polícia ou do exército: estes só são utilizados em último caso, quando as coisas estão muito mal para o interesse dos poderosos. O mais importante, se você quiser ter poder sobre mim, é conseguir que eu pense de uma forma que favoreça o que você quer, ou que se resigne. Aí está o poder! Portanto, o essencial é o poder que está na mente, e a mente se organiza em função de redes de comunicação, redes neurológicas no nosso cérebro, que estão em contato com as redes de comunicação em nosso entorno. Quem controla a comunicação controla o cérebro e dessa forma controla o poder.
Movimentos como o Occupy tentam se apoderar das praças e das ruas para dizer que isso não funciona, querem que o poder venha das pessoas. Esse é uma demanda que, para muitos, não terá nenhum resultado na política ou na economia. O que você acha sobre isso?
Manuel Castells:Depende do que você entende como resultado. Se você quer dizer que disso sai um partido político, que ganhe as eleições nos próximos dois anos, não é possível ter certeza. Todos esses movimentos colhem frutos a longo prazo. O slogan mais difundido dos indignados e das indignadas, é “vamos devagar, porque vamos longe”. Vamos longe para onde? Se se produz uma mudança na mente dos cidadãos, depois de algum tempo ela se converterá em mudança social.
Os dados mostram que, na Espanha, aproximadamente 70% dos cidadãos concordam com as críticas dos indignados. A maioria dos cidadãos também pensa que não poderá mudar as coisas a curto prazo. As duas coisas são compatíveis? as pessoas pensam que o movimento tem razão, mas não tem os instrumentos.
Se é uma grande maioria, por que não houve transformações?
Manuel Castells: Não, por que não têm em quem votar. O próprio movimento não quis criar um partido, para não reproduzir a velha política. Existe um abismo tão grande, entre o que seus integrantes pensam e o sistema político real, que não há uma expressão política capaz de representa-los. 
Por exemplo, se o Partido Socialista tivesse sido capaz de pensar que um movimento assim poderia revitalizá-lo, haveria um caminho. Mas os socialistas envolveram-se totalmente com a especulação financeira. Eles geriram o Banco de España e foram totalmente incapazes de supervisionar o sistema financeiro, porque isso não lhes interessava. Há uma grande lista de motivos pelos quais os indignados desaprovam os socialistas e os socialistas nunca fizeram nada para mudar.
As elites políticas de todos os países optaram por este rumo. Pensam que não há problema, seguem com seus negócios, a única coisa que conta são os votos a cada quatro anos, com uma lei eleitoral que os grandes partidos fizeram para que só eles mesmos pudessem ganhar. 
Nos Estados Unidos, se não você não é democrata ou republicano, não tem nenhuma chance. 
Além disso, se você não tem muito dinheiro, não pode ganhar, simplesmente. Não se consegue voto, se não se compra a campanha com dinheiro. As críticas, em todo o mundo, sugerem que este tipo de democracia não é suficiente. 
Em consequência, sob essas regras do jogo, gastar toda a energia para fazer a política formal, é uma operação sem sentido. Reproduz os velhos esquemas dos grupos de esquerda trotskistas, marxista-leninistas, de todos os tipos, que sempre estiveram nas instituições, mas nunca chegaram a nada. Ou que tentaram a revolução armada – o que ninguém quer, porque é um movimento claramente não-violento. 
Então, têm que fazer outra coisa, e vão por esse longo caminho da transformação das consciências, para que em algum momento os cidadãos possam tomar outras decisões, e daí podem surgir novas forças políticas.
Com outra mudança no jogo? Não é preciso mudar as regras?
Manuel Castells: Um dos grupos do movimento espanhol – porque não é o movimento, mas uma galáxia — pediu que eu fizesse uma proposta de reforma da lei eleitoral. Eu fiz, com um amigo especialista nesse tema. É uma proposta de voto proporcional, de limitar o poder dos grandes partidos, fazer com que, no parlamento, as pessoas que não votam estejam presentes – inclusive visualmente, não como representantes, mas com vazios. Se 30% dos cidadãos não votam, esses 30% devem estar marcados, e as maiorias de devem se constituir sobre o conjunto de cidadãos, não apenas sobre os que votaram.
Há uma série de coisas que se poderia obter, mas há, nas instituições políticas e nos partidos, uma enorme resistência em ser realmente democráticos. Entre outras coisas, porque é um modo de vida, são profissionais da política. 
Em todos os países, a profissão que está abaixo, na lista de reputações, é a política. 
Na Itália, incluíram numa sondagem também prostitutas e mafiosos, e eles ficaram em uma posição melhor que os políticos. As pessoas alegavam: “pelo menos, estes dizem o que fazem”.
Existe uma crise de confiança em todo o mundo em relação à classe política. Se isso continuar, em algum momento irão se romper as relações na sociedade, e isso seria muito grave. 
Na Espanha, há uma situação relativamente calma e pacífica. É sorte que, com 22% de desemprego e 48% entre os jovens, não haja muitos problemas nas ruas. 
Este movimento canaliza os debates e protestos, oferece uma esperança, principalmente aos jovens, de que podem começar a se organizar e vamos ver o que acontece. Mas se a situação continuar assim, esse movimento necessariamente vai se radicalizar.
Por que as instituições se separaram tanto das pessoas? Por que o abismo foi se expandindo?
Manuel Castells: Primeiro, porque as elites financeiras detêm o poder econômico e montaram um sistema no qual, em vez de emprestar para produzir, o que fazem é vender dinheiro para criar dinheiro artificial e montar uma pirâmide em que tudo é fictício, em nível global. 
Aumentaram artificialmente os preços dos imóveis, das ações, e concederam empréstimos às pessoas, inclusive sem que estas quisessem. Tinham medo e não entendiam, porque o negócio era vender dinheiro, e empréstimos, em qualquer condição. 
De forma totalmente irresponsável, do ponto de vista da economia, mas muito interessante para eles, porque todos os grandes executivos que agora estão deixando os bancos saem com indenizações milionárias. Para eles, tudo funcionou muito bem.
Quando a justiça vai ganhar, nestas regras do jogo que você propõe reconstruir?
Manuel Castells: Quando os cidadãos tiverem capacidade de fazê-lo. Sim, as pessoas podem votar. Mas primeiro, podem fazê-lo apenas a cada quatro anos. Segundo, sob regras muito desiguais. Por isso, é muito complicado mudar através do voto.
A maior parte dos políticos é gente mais ou menos honesta: não é verdade que sejam todos corruptos. Mas qual o objetivo central de um político? Conservar o posto. Esse é o aspecto mais importante, porque, para a maioria, é profissão. Se não fizerem isso, terão que trabalhar como todo mundo. Se mantiverem poder, terão melhores cargos, até porque a maioria não tem nível profissional muito alto.
Então, a classe política se reproduz. Para entrar em um partido, você tem que começar aderindo a um dos grupos internos. É todo um mundo fechado em si mesmo, e esse mundo não tem ar. 
A novidade é que, com a internet, abriram-se janelas. Porque os políticos e banqueiros, juntos, controlam os meios de comunicação. Não controlam os jornalistas, que por sorte são a linha de resistência, mas orientam os proprietários dos meios de comunicação e, portanto, suas linhas editorias. 
Por consequência, temos o controle dos meios, das finanças (e, portanto, da economia), o controle do estado através de uma classe política que se reproduz.
Fora disso, só estava a internet. E foi justamente desde a internet que se construíram redes de debates, redes de organização, redes de ação. Mas para agir sobre a sociedade, as pessoas têm que sair, têm que ir às ruas. É quando a internet, como espaço livre de comunicação, combinou-se com a ocupação dos espaços públicos, transformados em ágoras, o jogo começou a mudar. Mas o movimento ainda não se traduziu em grandes mudanças na política, porque o sistema está fechado.
Quão distante está o cidadão da realidade retratada nos meios de comunicação?
Manuel Castells: Depende do aspecto. Na Espanha, os meios de comunicação repetiram milhares de vezes, durante dois anos, as afirmações do presidente Banco Central, disseram que os bancos nacionais eram os mais seguros do mundo. Nenhum meio contestou isso. Ou são tontos, não têm capacidade de análise, ou a cada vez que alguém sério tentava dizer algo, tinha um problema com a linha editorial.
O resultado é que os bancos espanhóis já devem 250 bilhões de euros ao Banco Central Europeu, e agora dizem que vão pegar mais dezenas de bilhões. A dívida, portanto, é impagável, os bancos espanhóis estão quebrados. Significaria dizer aos cidadãos que seu dinheiro está em perigo, e não se sabe o que fazer. Há o risco de que o euro no mínimo se desvalorize, ou até mesmo acabe. O governo não pode aconselhar os cidadãos a se desfazerem da moeda, mas deve tornar disponível a informação sobre o que está acontecendo, e os meios de comunicação também devem fazer isso.
A internet abriu a janela, os meios de comunicação tradicionais ainda têm muitos leitores da rede. Os cidadãos podem se comunicar, mas não são figuras de referência, comparáveis às que aparecem na mídia. Como podemos aprender nos auto-informar?
Manuel Castells: Você tem razão. Mas começam a surgir saídas. Primeiro, as pessoas montam seu próprio jornal ou meio de comunicação online. Não lemos El País ou El Mundo ou La Vangaurdia inteiramente. Lemos um artigo aqui e outro lá, comparamos com outras fontes da imprensa estrangeira, ouvimos o que nossos amigos nos dizem. Fazemos um mosaico de informações, não somos prisioneiros de um meio.
Mas você disse costuma dizer que o leitor, o cidadão, procura reforçar o que pensa, e não se informar por outras vias.
Manuel Castells:Você está certo. O que sabemos é que as pessoas buscam principalmente o reforço para suas opiniões, mas isso porque têm pouquíssima possibilidade de ser cidadãs, de ser ativas, reduzem-se a consumidoras passivas. Não estão acostumadas a abrir suas próprias janelas. Se sua opção é entre os meios de comunicação que já existem, a atitude provável é: ”vou ver ou ler aquilo de que gosto mais”.
Outra lógica se abre quando as pessoas entram em um espírito mais crítico, desconfiam dos meios. Aí começa outra atitude, que é a wiki-informação: eu informo meus amigos, meus amigos me informam, vamos discutindo, e assim se organiza um grande debate na internet, do qual saem coisas. 
Em função desse espírito crítico em rede, examina-se o que os diferentes meios estão dizendo. E esse espírito crítico reconstrói todos os mecanismos de informação, que passam a seguir um novo fluxo — de muitos para muitos – ao invés de todos receberem uma mensagem com muito poucos emissores.
Você diz que vivemos na sociedade da informação, mas estamos desinformados, com uma educação muito pobre e, além disso, temos medo — uma ferramenta fundamental em todo esse mecanismo. Como funciona o medo, para que as regras do jogo não mudem e para que as mesmas pessoas sigam comandando as estruturas de poder?
Manuel Castells: Em primeiro lugar, a educação é pobre mas, comparando historicamente, estamos melhor formados que antes. Se há uma variável que se repete, em todos os novos movimentos do mundo, é o fato de serem constituídos por gente bem formada. Isso não quer dizer que ganham mais dinheiro. O ativista típico é o profissional recém-graduado, ou de uns 30 anos, com um trabalho muito precário ou desempregado. Essas pessoas podem passar a ter uma atitude mais crítica, apostando em uma mudança de mentalidade.
Por exemplo, os direitos da mulher. Há quarenta anos, nenhum partido majoritário falava sobre eles como tema principal. Hoje, se não falam disso, têm um problema. Há trinta anos a ideia de desenvolvimento sustentável, de que é preciso defender um modelo ecológico, de que é preciso integrar a natureza à cultura e ao consumo, tudo isso era coisa de radicais, nenhum partido sério colocava isso no programa. Hoje, precisaram se pintar de verde, pelo menos um pouco, porque se não o fazem, são rechaçados.
Muitas ideias não são de um partido ou de um líder, são formas de conceber nossa vida em sociedade. Essas grandes mudanças na mentalidade demoram. Precisam de tempo, de debates, de ir além dos líderes.
Dentro desses direitos, agora entra o tema da internet livre. Está se tornando um ponto essencial, como foi o desenvolvimento sustentável, os direitos da mulher.
Manuel Castells:Você tem muita razão. Nesse momento, defender a liberdade na internet é a base para defender a liberdade, em todos os sentidos. Como os poderes estabelecidos cada vez mais desconfiam da internet, odeiam-na. Se pudessem acabar com ela, iriam fazê-lo.
Mas não é tão fácil. Existem tantas ameaças à liberdade na internet que os jovens estão criando uma série de partidos e de movimentos. Vão criar muitos problemas aos que tentarem restringir a liberdade. Pouco a pouco, o velho sistema está se consolidando em partidos de direita e de esquerda que se colocam contra o essencial, que resistem a novas formas de representação democrática. 
Daí, duas coisas que podem acontecer: ou eles realmente se abrem e aceitam redefinir o jogo democrático, ou não se abrem e essa é uma perspectiva muito pessimista. 
Não acredito nas revoluções violentas, mas acredito em situações de tensão, que vão se multiplicar, e em uma situação de catástrofe econômica e de não-representatividade política, com as pessoas conscientes e críticas e um sistema cada vez mais pressionado, que começa a se defender.
Você tem esperança?
Manuel Castells: Sempre — mas só porque os movimentos têm esperança. Meu novo libro, que será publicado em breve, chama-se Redes de indignação e esperança: são os dois sentimentos que existem no movimento. A indignação foi fundamental para superar o medo, porque o medo é a emoção que todas as sociedades impõe para não mudar nada. 
As pessoas têm medo de que, se fizerem algo que não está dentro das normas do sistema, no mínimo perdem o emprego. Como se supera o medo? As próprias experiências neuro-cientificas mostram que é com a indignação. Quando se sente muito indignado, você não se importa com o que pode acontecer. Isso já se deu.
Mas se não se transforma em um sentimento positivo, se a indignação é pura raiva, isso leva a um enfrentamento. Qual é o sentimento positivo? A esperança. A esperança de que algo irá mudar. Como se constrói a esperança? Quando as pessoas se juntam. 
Por isso, o lema na Espanha é: “juntos, podemos”. É a ideia de que eu não posso, e que você não pode, mas muitos juntos, sim, podemos. 
A vitalidade desse movimento não é apenas em função da internet, a vitalidade é necessária para poder seguir fazendo algo aparentemente impossível, que é reconstruir a democracia a partir dos cidadãos.
Link:

Manuel Castells: Agora, a capacidade de auto-organização é espontânea!

Manuel Castells: Agora, a capacidade de auto-organização é espontânea! - do Fronteiras do Pensamento

Manuel Castells analisa os novos movimentos que se organizam por fora de partidos políticos, sindicatos, igrejas, etc.
Sociólogo espanhol, Manuel Castells esteve no Fronteiras do Pensamento 2013 para a conferência Redes de indignação e esperança, homônima à sua mais recente obra, a ser lançada no Brasil em setembro (editora Zahar). 

Em São Paulo, no preciso momento de sua fala no Teatro Geo (11/06), a Avenida Paulista era espaço de tensão entre a polícia militar e os manifestantes contra o aumento das passagens de ônibus. 

Questionado pelo público sobre o que estava acontecendo na cidade, Manuel Castells respondeu:

Todos estes movimentos, como todos os movimentos sociais na história, são principalmente emocionais, não são pontualmente indicativos. Em São Paulo, não é sobre o transporte. Em algum momento, há um fato que traz à tona uma indignação maior. 

Por isso, meu livro se chama 'REDES de indignação e de esperança'

O fato provoca a indignação e, então, ao sentirem a possibilidade de estarem juntos, ao sentirem que muitos que pensam o mesmo fora do quadro institucional, surge a esperança de fazer algo diferente. O quê? Não se sabe, mas seguramente não é o que está aí. 

Porque, fundamentalmente, os cidadãos do mundo não se sentem representados pelas instituições democráticas. Não é a velha história da democracia real, não. Eles são contra esta precisa prática democrática em que a classe política se apropria da representação, não presta contas em nenhum momento e justifica qualquer coisa em função dos interesses que servem ao Estado e à classe política, ou seja, os interesses econômicos, tecnológicos e culturais. Eles não respeitam os cidadãos. É esta a manifestação. É isso que os cidadãos sentem e pensam: que eles não são respeitados.

Então, quando há qualquer pretexto que possa unir uma reação coletiva, concentram-se todos os demais. É daí que surge a indicação de todos os motivos - o que cada pessoa sente a respeito da forma com que a sociedade em geral, sobretudo representada pelas instituições políticas, trata os cidadãos. Junto a isso, há algo a mais. 

Quando falo do espaço público, é o espaço em que se reúne o público, claro. 

Mas, atualmente, esse espaço é o físico, o urbano, e também o da internet, o ciberespaço. É a conjunção de ambos que cria o espaço autônomo. Porém, o espaço físico é extremamente importante, porque a capacidade do contato pessoal na grande metrópole está sendo negada constantemente. 

Há uma destituição sistemática do espaço público da cidade, que está sendo convertido em espaço comercial. Shopping centers não são espaços públicos, são espaços privados organizando a interação das pessoas em direção a funções comerciais e de consumo. Os cidadãos resistem a isso.

Veja que interessante é o caso da Praça Taksim e do Parque Gezi, em Istambul. Há meses, eles estão protestando contra a destruição do último parque no centro histórico da cidade, onde seria construído um shopping center, um complexo dedicado aos turistas, que nega aos jovens o espaço que poderiam ter para se relacionar com a natureza, para se reunir, para existir como cidadãos.


Movimentos de jovens auto-organizados lutam para manter e recuperar espaços públicos urbanos que estão sendo destruídos. 

Portanto, é a negação do direito básico à cidade. O direito, como disse Henri Lefebvre, de se reunir e ocupar um espaço sem ter que pagar, sem ter que consumir ou pedir permissão a autoridades. Por isso, tenta-se ultrapassar a lógica da liberdade na internet à liberdade no espaço urbano.

Eu não posso opinar diretamente sobre os movimentos que estão acontecendo neste momento aqui em São Paulo, mas há algumas características de tentar manifestar que a cidade é dos cidadãos. E este é o elemento fundamental em todas as manifestações que eu observei no mundo.

O que muda atualmente é que os cidadãos têm um instrumento próprio de informação, auto-organização e automobilização que não existia. Antes, se estavam descontentes, a única coisa que podiam fazer era ir diretamente para uma manifestação de massa organizada por partidos e sindicatos, que logo negociavam em nome das pessoas. 

Mas, agora, a capacidade de auto-organização é espontânea. Isso é novo e isso são as redes sociais. E o virtual sempre acaba no espaço público. Essa é a novidade. Sem depender das organizações, a sociedade tem a capacidade de se organizar, debater e intervir no espaço público.

Link:

http://www.fronteiras.com/canalfronteiras/entrevistas/?16%2C68

Viva a primavera da juventude brasileira! - por Miguel do Rosário!

Viva a primavera da juventude brasileira! - por Miguel do Rosário, 16/06/2013


Movimento não pode adquirir um caráter antipolítico  e pode vir a ser instrumentalizado por forças conservadoras. 

Há tempos eu não encontrava um assunto tão desafiador como esses levantes da juventude. De início, fiquei chocado, negativamente, com algumas cenas: jovens queimando a bandeira do Brasil; um outro vestido com as cores dos EUA exibindo uma bandeira do Brasil pichada com a palavra Lixo; depredação da sede de um partido político; destruição de patrimônio público, ônibus, agências…
Depois a coisa se complicou na minha cabeça. Não era bem assim. Os vândalos eram uma minoria, infiltrados? Há relatos  de policiais a paisana promovendo depredações, para desqualificar os protestos. Em seguida, a repressão brutal mudou completamente a balança. O vandalismo é lamentável, mas é uma coisa da qual a gente pode se defender com certa facilidade. Basta identificar e prender os responsáveis. O vandalismo ataca objetos inanimados. A brutalidade policial ataca seres humanos, e vem justamente daqueles que pagamos com nossos impostos para zelarem por nossa proteção.
Seria vulgar e óbvio criticar o governador Geraldo Alckmin. Sua irresponsabilidade é gritante. Sua truculência, um fato lamentável que, espero, o povo saiba castigar no seu devido momento, assim como fizeram com aquele prefeito de São José dos Campos, rechaçado pelas urnas por causa da brutalidade que patrocinou, juntamente com o governo do estado, contra os moradores de Pinheirinho.
Eu quero entender é o movimento em si. Estou lendo tudo há dias, freneticamente. O Nassif tornou-se um entusiasta dos levantes. A esquerda tradicional olha com desconfiança e mesmo com medo para um movimento ideologicamente obscuro. Os movimentos da direita virtual, que tentam há anos, em vão, fazer mobilizações similares, observam os acontecimentos com brilho maligno nos olhos, e tratam de se unir aos jovens e tentar influir em seu estado de espírito, envenenando-os com rancor antipolítica e falso moralismo.
A grande mídia, por sua vez, também parece perdida. Esses jovens não lêem jornais e a maioria alimenta ideologias francamente esquerdistas. Jabor, Villa, editoriais dos jornalões, reagiram com uma brutalidade verbal correspondente a da polícia. Aliás, a polícia provavelmente agiu com a truculência que se viu por causa justamente da pressão midiática.
Um amigo me ligou dizendo que as manifestações no Rio e Niterói estavam assumindo aquele lamentável viés antipolítica que procuramos combater. E se negaram a se encontrar com os prefeitos. No Correio Braziliense, há matérias falando num movimento orquestrado nos protestos de Brasília, esses mais voltados contra o governo federal. O serviço secreto da PM paulista acusa “militantes do PSOL” de contratarem punks para protagonizarem os atos mais violentos.
Mas eu não posso acreditar no Correio Braziliense nem na PM paulista.
Então prefiro acreditar que são levantes genuínos.
Mas protestos com depredação de patrimônio público, por sua vez, não são uma tradição brasileira, nem podemos permitir que se tornem. Seriam válidos se vivêssemos numa ditadura, o que não é o caso. Os políticos que nos governam podem ser um bando de sacripantas, mas foram devidamente eleitos por uma maioria. Devem ser respeitados não por si mesmos, mas porque representam a vontade soberana de milhões.
O patrimônio público nacional, por sua vez,  que já é precário, e tem de ser protegido, jamais destruído.
Lembrem da praça Tahir!
O levante da praça Tahir emocionou o mundo porque era radicalmente pacífico, voltado para a reconstrução da democracia e recuperação do patrimômio público. Os manifestantes varriam as ruas! Por algumas semanas, parte de uma cidade famosa pela sujeira, manteve-se impecavelmente limpa! 
O Museu Histórico do Cairo foi protegido por uma cerca humana contra os vândalos, num gesto que tocou profundamente arqueólogos e historiadores do mundo inteiro, pois seria uma tragédia indescritível para a humanidade se os tesouros do Egito Antigo fossem destruídos e roubados.
O que me preocupa mais, no entanto, é que o vazio e a confusão ideológica da maioria dos jovens, podem ser facilmente instrumentalizados por interesses políticos mal intencionados. Mesmo não lendo jornais, os jovens são influenciados por um ambiente político envenenado. E aí poderíamos testemunhar o que vimos na Líbia: um levante da juventude, calcado em demandas belas e justas, sequestrado pelo que há de mais sórdido: oportunistas, golpistas, cobiça imperialista.
Por outro lado, não há sentido em temer o esforço da juventude em romper o silêncio e ir às ruas protestar por melhoras sociais. É divertido, por isso mesmo, ver esquerda e direita observarem o movimento com um misto de fascínio e perplexidade. Para onde isso vai? Quem herdará os votos da juventude indignada?
Uma das maiores prejudicadas, a meu ver, é a presidente Dilma, que encerra a semana com uma pontuação péssima. Alckmin se queimou definitivamente com a juventude paulista, ou mesmo brasileira, mas provavelmente ganhou votos junto ao numeroso eleitorado conservador de seu estado. Dilma parece ter perdido apoio de ambos os lados.
E ainda levou uma sonora vaia no jogo do Brasil e Japão! Eu assisti à vaia e o que mais me impressionou não foi nem a vaia em si, mas a tromba da presidente. Ela tinha as sombrancelhas arqueadas, aparentando um desconforto terrível, e tive a impressão que as pessoas a vaiaram ainda mais ao se deparar com uma face tão severamente mau humorada num ambiente tão cheio de alegria. Parecia que Dilma iria anunciar que os EUA haviam declarado guerra ao Brasil e estávamos prestes a receber um ataque nuclear!
Mas o Brasil não é Líbia, e a nossa imaturidade democrática ainda se ressente com a falta de participação popular. O governo do PT terá de aprender a conviver com a rebeldia da juventude. Terá que responder a ela não apenas com “gabinetes de crise” mas disposto a ouvir suas demandas.
Por outro lado, não podemos nos deixar levar por um oba-oba leviano. Os jovens têm de ser respeitados, mas sem deslumbramentos. O jovem tem uma energia especial que deve ser estimulada. Ele é aberto ao novo e guarda ás vezes uma capacidade ilimitada para sonhos e ideais. A ideia do passe livre, por exemplo, é interessante, se for viável. 
Celso Furtado dizia que a liberdade do homem reside na possibilidade de agir conforme as circunstâncias do momento. Mas o jovem não deve ser mitificado ou endeusado. Vivemos uma era extraordinária em termos de acesso à informação e possibilidades de interação social, onde a maturidade e mesmo a velhice, em função disso, não podem mais ser discriminados.
Na vida real, o novo jamais se impõe através da negação total do velho, e sim mediante sua atualização dialética. O novo engole o velho e, por sua vez, também envelhece um pouco, tanto que será, mais na frente, incorporado por outro novo. Os jovens de hoje em breve serão velhos. 
Digo mais, os levantes da juventude, pela dialética inevitável do corpo social, serão sucedidos por uma reação conservadora. A sociedade brasileira tornou-se complexa, hierarquizada, dividida, como toda sociedade moderna e democrática. Quando um lado resolve puxar mais forte a corda, obriga o outro a reagir com a mesma força.
Por isso mesmo, qualquer movimento social deve estar, permanentemente, se preparando para o embate de ideias. Em algum momento, haverá pressão sobre a juventude que se rebela: e aí, o que vocês pensam, realmente? Quais são suas propostas? Quando chegar esse momento, quem defenderá os jovens e suas ideias? Quem terá o sangue frio e a experiência para enfrentar a reação do conservadorismo e defender mais ousadia governamental e políticas públicas mais progressistas? Nós, os adultos e velhos.
Haverá um momento em que esses jovens chegarão ao poder. Tornar-se-ão políticos, empresários, advogados, servidores públicos, professores universitários. Também eles enfrentarão os terríveis dilemas da vida e da política.
A independência maravilhosa da juventude nasce de sua pobreza, que às vezes beira a indigência. O jovem é a camada financeiramente mais frágil da sociedade, porque ainda não tem especialização, ainda não tem um emprego decente, ainda não tem patrimônio, e à parte isso guarda, como dizia Fernando Pessoa, todos os sonhos do mundo!
Ah, os sonhos da juventude! É o tempo em que acreditamos chegar ao topo do mundo. Ganharemos o prêmio Nobel, seremos felizes e realizados profissionalmente! Tempo de poesia, música, paixões fulminantes e sonhos de revolução!
Devemos incentivar os jovens a serem livres, a pensarem com sua própria cabeça, a sonharem, a irem às ruas protestar por um mundo melhor, mas também é dever dos mais velhos ensiná-los! Os mais velhos não podem fugir a essa responsabilidade, não podem se eximir da tarefa de transmitir aos jovens tudo que aprenderam. Os jovens têm o direito de errar, mas os adultos têm o dever de lhes contar sobre seus próprios erros. Só assim as gerações evoluem.
E o que devemos ensinar aos jovens? Que o mundo não pode mudar? Que revoluções não são mais possíveis? Claro que não! Até porque não é verdade. O mundo tem mudado, o nosso país tem passado por profundas transformações, muitas das quais os jovens não percebem porque não viveram o momento anterior. Mas talvez, de fato, estejamos nos acomodando. Talvez o país precise, de vez em quando, sofrer uma sacudidela, só para lembrar que o ritmo das mudanças tem se ser constantemente acelerado.
Quem pode julgar a paixão da juventude? Não é ela que move o mundo? E não é nosso objetivo maior, justamente, manter ao menos uma parte dessa paixão acesa em nossos espíritos? Que espécie de infeliz quer ser velho? Todos queremos ser jovens!
Que venham, portanto, os protestos! Quem os jovens tomem as ruas e exijam mudanças! Que xinguem os governantes, mesmo aqueles que nós, os mais velhos, tanto lutamos para eleger, e pelas mesmas razões que os movem: vida melhor para todos!
Que façam loucuras! Que sonhem!
Só não se esqueçam que vocês não estão sozinhos. Nem ousem pensar isso. Nós, os adultos pacatos, os velhos esquerdistas ranzinzas, nunca deixamos de lutar! Combatemos, diariamente, a dura lida da sobrevivência! E travamos hora a hora a terrível luta da comunicação! À nosso modo também lutamos por um custo de vida menor para trabalhadores e estudantes. 
Afinal, o aumento dos salários não significa a redução do valor proporcional das passagens? O aumento do salário mínimo e a queda no desemprego não significam que a passagem de ônibus pesará menos no bolso do trabalhador? 
Uma luta complementa a outra e agradecemos que vocês nos ajudem com protestos de rua. Só que não concordaremos em tudo. Não concordaremos, por exemplo, se vocês abraçarem o discurso da antipolítica ou flertarem com a hipocrisia udenista. Não concordaremos se vocês aceitarem, em suas fileiras, a direita esquálida, decadente e antibrasileira.
Somos todos gladiadores na vida e na política, e continuamos lutando. E não vejo outra frase melhor, portanto, para encerrar o post, que a proferida por soldados de Roma antes de iniciarem um exercício de guerra: Morituri te salutant. Saudações, combativos jovens, nós que vamos morrer vos desejamos sorte!
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