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"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

domingo, 21 de outubro de 2012

Era de Hobsbawm!


Era de Hobsbawm - por José Sergio Leite Lopes, do Vermelho



A morte de Eric Hobsbawm (1917-2012), fechando a longa trajetória que o habilitou a ser um observador privilegiado e arguto do século 20 (e da primeira década do século 21), pôs em evidência sua popularidade e celebridade – qualidades raras para um historiador erudito e contestatário.

Por José Sergio Leite Lopes 


Sua tetralogia sobre as Eras – das revoluções, do capital, dos impérios e, finalmente, dos extremos –, o projetou como um autor difundido internacionalmente, do ensino médio às pós-graduações.

Foi o primeiro desses livros, A era das revoluções: 1789-1848, que fez dele um historiador conhecido por um grande público. Publicado em 1962, quando tinha 45 anos, A era das revoluções é um livro de síntese e erudição histórica (de haute vulgarisation, como o autor classifica, ironicamente, logo no prefácio), em que Hobsbawm demonstra sua capacidade de dar uma interpretação para o período, utilizando os recursos da história social, que vinha renovando o campo da história pós-Segunda Guerra.

A obra inaugurou-lhe o caminho da fama mundial. Foi traduzido em várias línguas e destacou-se no florescente mercado editorial dos livros de história moderna e contemporânea. Até então, Hobsbawm havia feito importantes contribuições sobre a história dos trabalhadores na Europa industrializada e sobre movimentos eivados de tradição e rebeldia na Europa do sul. Mas foi como segunda opção que a prestigiosa editora Weidenfeld & Nicolson, que procurava um escritor erudito para a coleção de história das civilizações, chegou a Hobsbawm. A indicação deveu-se ao historiador J. L. Talmon, que havia declinado do convite.


Em seguida, Hobsbawm pôde então reunir em livro seus artigos anteriores publicados em revistas especializadas, como em Os trabalhadores, de 1964. Nos anos 1960, publicou ainda uma longa introdução às Formações pré-capitalistas, manuscritos então recém-editados de Karl Marx, que corroboravam os ventos renovadores não-evolucionistas do marxismo crítico, particularmente forte entre os historiadores britânicos à época; Da revolução industrial inglesa ao imperialismo; e Bandidos, em que prolongava as preocupações de um dos seus primeiros livros, Os rebeldes primitivos.

Em 1970, tornou-se professor efetivo do Birkbeck College da Universidade de Londres, instituição onde ensinava desde 1947. A explícita militância marxista de Hobsbawm teve por efeito retardar sua ascensão nos postos universitários. Apesar de aluno de destaque em Cambridge, acabou por encontrar seu lugar na instituição universitária de ensino noturno, cujos alunos trabalhavam durante o dia, característica do Birkbeck College.

Assinale-se que o trabalho nos cursos universitários de formação de adultos ou de formação continuada teve uma importância comum à carreira de autores como E. P. Thompson e Raymond Williams, além de exilados do nazismo como Norbert Elias e Karl Polanyi.

Movimentos sociais
Antes da fama decorrente da publicação da Era das revoluções, Hobsbawm havia publicado dois livros. O primeiro, Labour’s turning point (1948), insere-se nos estudos dos movimentos de trabalhadores na Inglaterra no final do século 19, área em que havia se tornado especialista.

O segundo, Rebeldes primitivos (1959), resultou do estímulo dado por Max Gluckman e seu grupo de antropólogos da Universidade de Manchester. Certamente chegou ao conhecimento desses antropólogos – especialistas na África contemporânea e interessados nos movimentos anticoloniais que ali vinham se desenvolvendo – a experiência de Hobsbawm nos movimentos de rebelião ‘tradicional’ no seio de populações camponesas ou artesãs do sul da Europa, na Espanha e na Itália, desde 1952. O grupo o convidou, em 1956, para dar três conferências sobre tal experiência e, em 1959, foi publicado o livro pela editora daquela universidade.

Por meio de observação direta e do trabalho em arquivos locais nos países estudados sobre grupos de camponeses e trabalhadores rurais atingidos pela expansão do capitalismo e sua forma de resistência "pré-política" (isto é, anterior ao seu pertencimento ao teatro da grande política nacional), Hobsbawm prolonga a sensibilidade histórica que tivera com manifestações similares de trabalhadores urbanos pré-industriais da própria Inglaterra. Tais análises foram apresentadas nos artigos “Os quebradores de máquinas” (1952) e “Os artesãos itinerantes” (1951), depois reunidos no livro Os trabalhadores.

É interessante observar como essa ligação pioneira da história social, à qual pertence Hobsbawm, com os antropólogos e a temática antropológica acaba não sendo devidamente ressaltada, hoje, com a onda de aproximação, a partir dos anos 1980, entre história e antropologia na chamada "história cultural".

No que diz respeito à história do trabalho, Hobsbawm contribuiu pioneiramente para a passagem da história das instituições operárias – partidos e sindicatos – para a história social da classe operária. Ele inicia assim uma história social do trabalho não limitada aos trabalhadores organizados, suas organizações e líderes, mas voltada para as experiências das classes trabalhadoras. Além disso, esteve atento às ligações entre a história do campesinato em diferentes países e a dos trabalhadores industriais. Foi, ainda, o introdutor e primeiro sistematizador da noção de "invenção das tradições".

Com a fama alcançada nos anos 1960 e a titularidade universitária nos anos 1970, Hobsbawm foi convidado para atividades em inúmeros países. No Brasil, como conta em seu livro autobiográfico Tempos interessantes, participou de um famoso seminário de história na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 1975, em plena ditadura, quando foi testada a tolerância da repressão com eventos acadêmicos que provocavam interesse maior do público universitário.

Naquele evento, apresentou um trabalho sobre movimentos pré-políticos do campesinato e teve como debatedor o antropólogo Otávio Velho. Na mesma viagem, apresentou no Museu Nacional seu trabalho sobre ocupações de terra no Peru, em palestra que marcou época naquela instituição.

Em 1992, teve uma mesa em sua homenagem, intitulada "A era de Hobsbawm", em seminário com a sua presença, promovido no Sindicato dos Trabalhadores Químicos de São Paulo pelo Instituto Cajamar, de formação sindical. Foram inúmeras suas vindas ao Brasil, onde tinha como interlocutores intelectuais e lideranças de trabalhadores, inclusive os últimos dois ex-presidentes da República. 

(*) José Sergio Leite Lopes é antropologo do Museu Nacional / Universidade Federal do Rio de Janeiro

Fonte: Ciência Hoje


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