Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

domingo, 31 de março de 2013

Mídia e evangélicos, os fiéis da balança de 2014!


Mídia e evangélicos, os fiéis da balança de 2014 - Marcelo Salles - da Carta Maior

O mais importante é monitorar o comportamento dos meios de comunicação e dos evangélicos. Justamente a combinação explosiva que levou a eleição passada para o 2º turno, com a campanha suja contra Dilma na reta final.
As últimas pesquisas de intenção de voto e sobre a aprovação do governo federal devem ser vistas com cautela. Apesar da ampla vantagem da presidenta Dilma Rousseff, o quadro atual dista 18 meses das eleições, tempo suficiente pra que quase tudo possa acontecer.

Em sua última pesquisa, o Ibope aponta uma aprovação recorde do governo: 92% dos entrevistados o aprovam, sendo que 63% deles o consideram bom ou ótimo e apenas 7% o reprovam (ruim ou péssimo). Outros 27% o enquadram na categoria "regular". 

Já a pesquisa de intenção de votos Datafolha divulgada na sexta-feira (22) aponta uma vantagem gigantesca para a presidenta da República. Dilma Rousseff aparece com 58% da preferência dos eleitores, seguida de Marina Silva (16%), Aécio Neves (10%) e Eduardo Campos (6%). Ou seja, se a eleição fosse hoje a presidenta estaria 26 pontos percentuais à frente de seus principais concorrentes somados.

Mas ainda falta muito para o dia do pleito. Isso não significa que as pesquisas devem ser desconsideradas; por outro lado, também não podem ser super-dimensionadas. As pesquisas são retratos de um momento, que pode se consolida ou mudar completamente, a depender de inúmeras variáveis. Por isso não convém entrar no clima do "já ganhou".

Pra início de conversa, existem alguns aspectos que devem ser levados em consideração, para além do econômico - que conta muito, mas não está sozinho.

Primeiro, devemos dar uma olhada no calendário eleitoral. Daqui até outubro de 2014 faltam 18 meses, os quais podemos dividir em três faixas de tempo. A primeira vai daqui até outubro desse ano, quando os partidos que pretendem concorrer devem estar devidamente registrados e as pessoas filiadas aos partidos pelos quais querem disputar uma vaga. É importante lembrar que vamos eleger, além da presidenta (ou presidente), governadores, senadores e deputados (estaduais e federais).

A compreensão desse primeiro momento é fundamental, pois isso significa, entre outras coisas, que somente ao chegarmos em outubro deste ano saberemos efetivamente quais partidos políticos conseguiram reunir as assinaturas para serem criados, assim como quais pessoas estarão filiadas em quais partidos e, consequentemente, aptas a concorrer um ano depois, em outubro de 2014. 

A segunda faixa de tempo transcorre entre outubro de 2013 e março de 2014, quando se encerra o prazo para a desincompatibilização de cargos públicos. Vale, por exemplo, para os ministros e prefeitos que pretendem se candidatar. Nesse momento, com os pré-candidatos definidos, começa, de fato, a campanha, que seria a terceira e última faixa de tempo - aqui as alianças até então delineadas necessariamente se descortinam e a corrida eleitoral chega a seu sprit final.

Ao longo do processo, existem elementos objetivos que ocorrem em cada uma dessas faixas de tempo, enquanto outros, subjetivos, as atravessam. Entre esses últimos creio que dois podem fazer uma grande diferença daqui até outubro de 2014.

O primeiro deles é a mídia. Sem dúvida nenhuma jogará papel decisivo nas eleições. Como dizia o filósofo francês Gilles Deleuze, a mídia é uma das instituições com maior poder de produzir e reproduzir subjetividades. Ou seja, na sociedade contemporânea tvs, rádios e jornais possuem meios de influir nas formas de sentir e agir das pessoas. Conceitos e valores estão em jogo, não apenas nas manchetes jornalísticas, mas também em novelas, filmes e demais produções de entretenimento.

O segundo elemento que devemos observar é a mescla do comportamento da assim chamada nova classe média com o crescimento das religiões protestantes no país. Em "Os sentidos do lulismo", lançado ano passado, André Singer deixa muito claro que, se é verdade que o PT ganhou votos entre as classes mais pobres, esse voto não está, necessariamente, imbuído de ideologia. Segundo o autor, seria um voto conquistado muito mais pelo acesso inaudito à sociedade de consumo do que qualquer outra coisa. 

Da leitura de Singer também era possível intuir a chegada de um novo partido que refletisse os anseios dessa parcela da população que ascendeu socialmente. E esse partido tem tudo para ser a Rede, de Marina Silva, que hoje aparece com 16% das intenções de voto. Além de beliscar os votos dos ambientalistas politicamente corretos, a ex-ministra, evangélica declarada, seria a fiel depositária da confiança da massa que professa essa religião. 

Entre as características de parte expressiva dos evangélicos está o comportamento conservador, como demonstram suas posições em relação a temas como casamento homossexual e aborto, muitas vezes extrapolando em direção ao fundamentalismo racista/preconceituoso. Ou seja, ironicamente os avanços sociais promovidos pelos governos do PT renderiam, em parte, frutos a uma oposicionista (taí o pastor-ministro Crivella pedindo aplausos a Dilma e Lula pelo aumento do dízimo nas igrejas).

Por outro lado, e em tese, Aécio Neves, hoje com 10%, e Eduardo Campos, com 6%, teriam mais margem numérica para crescer, já que são menos conhecidos. A grande dúvida é saber de quem eles irão tirar votos. Isso, claro, se eles forem mesmo confirmados candidatos.

Enquanto isso, repito, o mais importante é monitorar o comportamento dos meios de comunicação e dos evangélicos. Justamente a combinação explosiva que levou a eleição passada para o 2º turno, com a campanha suja contra Dilma na reta final.

Marcelo Salles é jornalista (twitter: @MarceloSalles)

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Os Brics afiam suas garras - por Pepe Escobar!


Os Brics afiam suas garras - por Pepe Escobar, da Carta Maior

Ao se reunirem na África do Sul, os Brics deram um passo que pode ter dimensões geopolíticas: montaram um pacote que prevê um banco de desenvolvimento, uma alternativa às agências de classificação de risco e uma opção ao dólar nas transações comerciais.

A manipulação da fala presidencial para justificar alta de juros!


A manipulação da fala presidencial para justificar alta de juros - J.Carlos de Assis, da Carta Maior


Foi o que o sistema Globo fez ao cobrir Dilma na África do Sul: ela afirmou que era contra sacrificar crescimento e emprego em favor do combate à inflação, enquanto a Globo pôs no ar que ela não considerava o controle da inflação uma prioridade.


A Globo, manipuladora como é, não assumiu de forma explícita a crítica à presidenta. Disse, sim, que os “mercados”, ansiosos por aumentar os juros a pretexto de combater a inflação, reagiram mal à declaração dela. Normalmente, a emissora teria saído à cata de um economista com interesse próprio em jogo (há tantos) para vocalizar a crítica, escondendo-se atrás dele. Por um dos incidentes normais no jornalismo de tevê – pode ter faltado tempo para repercutir a fala da presidenta junto a um esbirro do mercado-, recorreu a algum fantasma neoliberal de casa para fazer no escuro o trabalho sujo.

Essa prática de jornalismo de interesses é o que há de mais sórdido na imprensa brasileira. Nesse caso específico, estamos diante de uma conspiração midiática para aumentar a taxa de juros sob o pretexto de combater uma inflação longe de estar fora de controle. Isso é mais comum do que o leitor ou telespectador imagina. Nem é exclusividade nossa: nos Estados Unidos, um colunista do principal jornal financeiro, The Wall Street Journal, foi demitido depois que se provou que anunciava na sua coluna num dia a ação que se valorizaria no dia seguinte!

É muito difícil provar “manipulação”. Mas todos que a sentem sabe do que se trata. A presidenta Dilma reagiu com rapidez e eficácia. Tinha, a seu favor, um bom número de jornalistas fazendo a cobertura da viagem, o que impedia um segundo nível de manipulação, desta vez truncando as palavras literais dela. É claro que, desmascarado, o sistema Globo não se deu por vencido. Na última sexta-feira o jornal do grupo fez um longo editorial com um titulo fundamentalmente cínico: “Presidente acerta ao esclarecer que combaterá inflação”. 

Vamos traduzir o significado do editorial, por partes. Primeiro, segundo o editorialista, a presidenta “acerta”. Quer dizer, de forma subliminar, antes ela tinha errado. Agora O Globo, com sua autoridade infalível, declara que ela está certa. Segundo, a presidenta esclarece que combaterá a inflação, e é por isso que ela acerta. Contudo, desde a primeira declaração manipulada, a presidenta expressou um compromisso com a estabilidade de preços, com a ressalva, porém, de não subordinar isso ao crescimento da economia e do emprego. O jornal omite isso.

Se o editorial do Globo fosse submetido ao mesmo tipo de manipulação a que foram submetidas as declarações presidenciais, poderíamos dizer que estamos diante de um grupo midiático que se comporta como partido político e, pior ainda, como fundo de aplicações financeiras. E isso não está limitado à direção empresarial. 
Os apresentadoras e comentaristas da Globo são tão entusiastas do noticiário neoliberal que vomitam sobre a opinião pública, indiferentes ao estrago que provocam (qual seria o custo para a sociedade de uma retomada da elevação da taxa de juros agora?), que é difícil imaginar, pela expressão de seu rosto, pelo tom da voz, pelos esgares que fazem, que são inocentes úteis a serviço dos patrões. São, de fato, inocentes remunerados não só mediante salários, mas comprados por consultorias e palestras!

Contudo, essa situação não tem solução simples. Pode-se impedir monopólios de emissoras de televisão por se tratar de concessões públicas, mas não há como impedir o estabelecimento de redes, mesmo quando não passam de um recurso fictício para encobrir monopólios. Por outro lado, o princípio da liberdade de imprensa e de opinião é um instrumento fundamental para o desenvolvimento da democracia de cidadania ampliada. Além disso, não sei como na prática funcionaria o tal controle social da mídia, como muitos reclamam.

Entretanto, quando governos se sentem manipulados pela mídia, eles têm o recurso do controle das verbas publicitárias. Podem também, mediante o mesmo recurso, estimular a concorrência e apoiar mídias alternativas. Há sempre o risco ideológico – governos não são eternos, e podem mudar de mãos levando nelas os controles. Há o caminho da difusão ampla e da democratização da informação pela internet. 
Mas melhor é o verdadeiro controle social, ou seja, o da audiência: o noticiário da Globo está manipulando declarações de uma presidenta progressista? Que o povo boicote o noticiário da Globo e os anunciantes que lhe dão suporte financeiro. Não há melhor pedagogia que o corte do dinheiro! 

Ah, deixem de fora do boicote as novelas. Elas são de boa qualidade, agradam o público, são um bom produto de exportação do Brasil e em geral são ideologicamente inofensivas.

J. Carlos de Assis é economista, professor de economia internacional da UEPB e autor, entre outros livros, de “A Razão de Deus” (ed. Civilização Brasileira).

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O Millenium e as lembranças!


O Millenium e as lembranças - por Laurindo Lalo Leal Filho, da Carta Maior

Não é mera coincidência a preferência dos integrantes do Instituto Millenium pela subordinação do Brasil aos grandes centros financeiros internacionais e sua ojeriza diante das relações harmônicas entre governos latino-americanos.


O economista Cristiano Costa foi recebido em fevereiro pelo pessoal do grupo A Tarde, em Salvador. A companhia de comunicação, que tem provedor e portal na internet, agência de notícias, jornal impresso, emissora de FM, gráfica, reuniu seus profissionais para servirem-se de uma palestra da série 'Millenium nas Redações'. 

Blogueiro e professor de uma universidade capixaba chamada Fucape Business School, Costa é também colaborador cativo do Instituto Millenium, articulador desses eventos destinados a “aprimorar a qualidade da imprensa no Brasil”.

A base de sua explanação são seus artigos reproduzidos no site do instituto, em que critica duramente a política econômica do governo e ataca sem rodeios o ministro da Fazenda, Guido Mantega. 

Em um deles, cita o programa 'Minha Casa, Minha Vida' como um dos responsáveis por inflacionar o setor imobiliário. Isso num ambiente em que até os preços de imóveis de alto padrão dispararam. 

As pessoas estão mais seguras no emprego e foram comprar, a queda dos juros levou mais gente a ter acesso a crédito, ou mais gente a tirar dinheiro de aplicações financeiras para investir em imóveis. Há muitos fatores em jogo, mas lá vai o programa federal destinado a famílias de baixa renda pagar o pato da especulação.

Outras redações de jornais e revistas foram brindadas pelo Millenium com palestras sobre assuntos variados, da reforma do Judiciário à assustadora “crise econômica”. 

O currículo dos palestrantes, colaboradores do instituto, explica o objetivo real das palestras: consolidar no meio jornalístico o papel oposicionista da mídia brasileira.

Há algum tempo os ambientes de redação eram conhecidos por ter profissionais críticos, independentes, e o direcionamento da informação era resultado da sintonia dos editores com os donos dos veículos. 

Não era incomum a conclusão do jornal ou da revista acabar em atrito entre repórter e superiores. Agora, os donos dos veículos preferem formar “focas” que já cheguem às redações comprometidos com suas crenças.

Essas crenças, recheadas de interesses políticos e econômicos, vêm sendo difundidas de maneira afinada pelos meios de comunicação reunidos no Millenium. Resultado concreto desse trabalho pôde ser visto neste início de ano. 

Três assuntos, alardeados como ameaças ao país, ocuparam as manchetes dos grandes jornais e foram amplificados pelo rádio e pela TV: apagão, inflação e crise na Petrobras.

Além do noticiário parcial, analistas emitiam previsões catastróficas. Como elas não se confirmavam, o assunto era esquecido e logo substituído por outro. 

No dia 8 de janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo estampou na capa: “Governo já vê risco de racionamento de energia”. Um dia antes a colunista da Folha de S. Paulo Eliane Cantanhêde chamava uma reunião ordinária, agendada desde dezembro, de “reunião de emergência” do Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico convocada às pressas por Dilma para tratar do risco de racionamento. 

Diante da constatação de que a reunião nada tinha de extraordinária, a Folha publicou uma acanhada correção. Como de costume, o tema foi sendo lentamente deixado de lado. O risco do “racionamento” desapareceu.

Pularam para o “descontrole” da política econômica e a ameaça de um novo surto inflacionário. “Especialistas” tentavam, a partir dos índices de janeiro, projetar uma inflação futura capaz de desestabilizar a economia. 

Aproveitavam para crucificar o ministro Mantega, artífice de uma política que contraria interesses dos rentistas nacionais e internacionais: a redução dos juros bancários está na raiz da gritaria.

Não satisfeitos, colocaram a Petrobras na roda, responsabilizando a “incapacidade administrativa” dos dirigentes da empresa pela redução dos dividendos pagos aos acionistas. 

Sem considerar que, dentro da estratégia atual de ação da Petrobras, os recursos de parte dos dividendos retidos passaram a contribuir para o desenvolvimento do país na forma de novos investimentos.

Variações de uma nota só
Aparentemente isoladas, essas versões jornalísticas são, na verdade, articuladas a partir de ideias comuns que permeiam as pautas dos principais veículos. 

No site do Instituto Millenium elas estão organizadas e publicadas de maneira clara. O Millenium diz ter como valores “liberdade individual, propriedade privada, meritocracia, Estado de direito, economia de mercado, democracia representativa, responsabilidade individual, eficiência e transparência”.

Faz lembrar a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, que chegou a dizer que só o indivíduo existe, a sociedade é ficção.

Fundado em 2005, o Millenium foi oficialmente lançado em abril de 2006 com o apoio de grandes empresas e entidades patronais lideradas pela Editora Abril e pelo grupo Gerdau. 

Trata-se de uma liderança significativa, pois reúne uma empresa propagadora de ideias e valores e outra produtora de aços, base de grande parte da economia material do país. 

A elas juntam-se a locadora de veículos Localiza, a petroleira norueguesa Statoil, a companhia de papel Suzano, o Grupo Estado e a RBS, conglomerado de mídia que opera no sul do Brasil. A Rede Globo, como pessoa jurídica, não aparece na lista, mas um dos seus donos, João Roberto Marinho, colabora.

Essa integração entre empresas de mídia e empresários faz do Millenium uma organização capaz de formular e difundir programas de ação política em larga escala, com maior capacidade de convencimento do que muitos partidos políticos. Com a oposição partidária ao governo enfraquecida, ocupa esse espaço com desenvoltura.

Apesar do apego declarado à democracia, alguns dos colaboradores não escondem o desejo de combater o governo de qualquer forma. 

É o que está explícito na fala de outro de seus colaboradores, o articulista Arnaldo Jabor, quando num dos eventos promovidos pelo instituto disse: “A questão é: como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo?”

Essa articulação faz lembrar a de organismos privados como o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad), fundado em 1959, e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), nascido em 1961. Ambos uniram empresários e mídia conservadora na formulação e divulgação de ideias que impulsionaram o golpe de 1964.

“Ipes e Ibad não eram apenas instituições que organizaram uma grande conspiração para depor um governo legítimo. Elaboraram um projeto de classe. O golpe foi seguido por uma série de reformas no Estado para favorecer o grande capital”, lembra o pesquisador Damian Bezerra de Melo, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

No cenário atual, de decadência do modelo neoliberal e de consolidação de políticas desenvolvimentistas no Brasil, o Millenium seria um instrumento ideológico para dar combate a esse processo transformador. 

“Nos anos 1990 ocorreu a disseminação da ideologia do pensamento único, de que o capitalismo triunfou, o socialismo deixou de existir como projeto político”, afirma a historiadora Carla Luciana da Silva, da Universidade do Oeste do Paraná. “Quando surgem experiências concretas que podem desafiar essas ideias, aparece em sua defesa uma organização como o Millenium para manter vivo o ideal do pensamento único.”

A difusão dessas ideias não é feita por meio de manifestos ou programas partidários, observa a pesquisadora. “É muito difícil pegar uma revista como a Veja ou um jornal como a Folha de S. Paulo e conseguir visualizar os sujeitos que estão produzindo as ideias defendidas ali. Cria-se uma imagem do tipo ‘a’ Folha, ‘a’ Veja, como se fossem sujeitos com vida própria. É uma forma de não deixar claro em nome de que projeto falam, como se falassem em nome de todos.”

Contra as versões, fatos
Conhecendo as ações do instituto e seus personagens fica mais fácil compreender como certos assuntos tornam-se destaque de uma hora para outra. A presença nos quadros do instituto de jornalistas e “especialistas” com acesso fácil aos grandes meios de comunicação leva suas “notícias” rapidamente ao centro do debate nacional. 

E fica difícil contra-argumentar com colaboradores do Millenium, não pela qualidade de seus argumentos, mas pela força de persuasão dos veículos pelos quais difundem suas ideias.

Como retrucar, com igual alcance, comentários de Carlos Alberto Sardenberg, na CBN, de Ricardo Amorim, na IstoÉ, na rádio Eldorado e no programa Manhattan Connection, da GloboNews, de José Nêumanne Pinto, no Estadão e no Jornal do SBT, de Ali Kamel, diretor de jornalismo da TV Globo, entre tantos outros?

Não é mera coincidência a preferência dos integrantes do Millenium pela subordinação do Brasil aos grandes centros financeiros internacionais e sua ojeriza diante das relações harmônicas entre governos latino-americanos. 

Trata-se de uma tentativa de ressuscitar um projeto político implementado durante a ditadura que só passou a ser confrontado, ainda que parcialmente, a partir de 2003, com a posse do governo Lula.

Mas parece não haver espaço para uma hipótese golpista, apesar do já citado dilema de Jabor. Para a professora Tânia Almeida, da Unisinos de São Leopoldo (RS) e diretora de relações públicas da Secretaria de Comunicação do Rio Grande do Sul, um dos ganhos da crise política de 2005, com a questão do chamado “mensalão”, foi ter forçado análises e estudos em busca de explicações de como o então presidente Lula conseguiu suportar tanta notícia negativa e manter elevados índices de aprovação.

“Não era só carisma. Desde 2003, havia uma gestão de governo em funcionamento. Não existia somente aquilo de que os jornais e revistas tratavam, não era só escândalo. Outra proposta política estava acontecendo”, observa Tânia. Para a professora, os avanços sociais alcançados não permitem crer em crise que leve a uma ruptura institucional.

“O Millenium é um agente articulador, social, político, que pode fomentar e aquecer debates, mas não teria potencial para causar uma crise nos moldes de 1964. O poder de influência da mídia ficou relativizado desde 2006 em função dessa política que chega lá na ponta e inclui quem estava fora.”

Damian Melo, da UFF, tem visão semelhante, mas com um pé atrás: “O Millenium não possui hoje estratégia golpista. Quer emplacar seu projeto, e isso pode ser pela via eleitoral mesmo. Muito embora nossa experiência nos diga que é melhor ficarmos atentos”. 

*Colaborou Rodrigo Gomes

**Publicado originalmente na Revista do Brasil, edição de março de 2013

Laurindo Lalo Leal Filho, sociólogo e jornalista, é professor de Jornalismo da ECA-USP. É autor, entre outros, de “A TV sob controle – A resposta da sociedade ao poder da televisão” (Summus Editorial). Twitter: @lalolealfilho.

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Economia brasileira cresceu mais de 4% no 1o. trimestre de 2013! - por Marcos Doniseti!

Economia brasileira cresceu mais de 4% no 1o. trimestre de 2013! - por Marcos Doniseti!




Segundo dados recentes sobre a atividade econômica nacional, o Brasil voltou a acelerar o seu ritmo de crescimento, superando os 4% já no primeiro trimestre de 2013. Alguns analistas estimam que esse índice pode ter chegado aos 5,2%. 


Matéria publicada pelo site da revista 'IstoÉ Dinheiro' no dia 28/03/2013 mostra o seguinte:


1) O PIB teve um crescimento anualizado entre 4% e 5,2% no primeiro trimestre deste ano; 


2) Os desembolsos do BNDES cresceram 39,5% no primeiro bimestre;


3) O consumo de máquinas cresceu 8,1% no 1o. bimestre;


4) O financiamento imobiliário aumentou 15,7% no primeiro bimestre;


5) A inadimplência do consumidor caiu para 7,7%, o menor patamar desde 2011;


6) A oferta total de crédito na economia aumentou 16,3% no 1o. bimestre;


7) A taxa de desemprego em Fevereiro foi a menor da série histórica para o mês, ficando em apenas 5,6%;


8) Vendas de veículos no ano, até 15 de Março, cresceram 6%;


9) A safra de grãos será recorde histórico, atingindo os 183,5 milhões de toneladas;


10) Vendas de papelão ondulado em Fevereiro bateram recorde, chegando a 250 mil toneladas. 


11) O número de empregos no setor automotivo chegou a 131.700 trabalhadores, número inferior apenas ao alcançado em 1980, melhor ano da história;


12) Rendimento real dos trabalhadores cresceu 2,4% em Fevereiro sobre igual mês de 2012;


13) Massa de rendimentos teve aumento real de 4,2% em 12 meses;


Como se percebe, confirma-se aquilo que escrevi, tempos atrás, aqui neste modesto blog, que é o fato de que desde o 4o. trimestre de 2012 que a economia brasilera estava em processo de retomada. Já nos últimos 3 meses de 2012, o PIB brasileiro teve um crescimento anualizado de 2,4% e os investimentos produtivos tinham voltado a crescer.

Também afirmei que, em função disso, aqueles 0,9% de crescimento econômico que o Brasil acumulou em 2012 era um número velho, pois não mostrava que esse processo de aceleração, que começou no 2o. semestre, já estava em pleno andamento. 


E agora, com a decisão do governo Dilma de prorrogar a redução do IPI para automóveis e caminhões até o fim deste ano, temos mais um motivo para afirmar que a economia brasileira terá um crescimento bastante significativo neste ano (talvez em torno de 3,5%). E esse crescimento somente não ser


Afinal, a indústria automobilística brasileira, sozinha, responde por quase 24% do PIB industrial do país e por mais de 5% do PIB total brasileiro. 


A inflação deverá permanecer abaixo do teto da meta (que é de 6,5% ao ano) e, com isso, o Banco Central deverá manter a taxa Selic estável, em 7,25% ao ano, até o fim de 2013. 


E como o salário mínimo teve aumento real também neste ano (e como acontece todos os anos desde 2003), passando de R$ 622 para R$ 678 (reajuste de 9%, acima da inflação acumulada em 2012, que foi de 5,84%) e a quase totalidade das categorias de trabalhadores continua conquistando acordos salariais com aumento real, o que também acontece desde o início do governo Lula, o poder de compra dos trabalhadores brasileiros continuará crescendo neste ano. 


Portanto, salvo alguma piora muito drástica do cenário mundial, e que já é ruim desde 2008, o que não pode ser descartado, devido à crise interminável da Zona do Euro (vide o recente caso da falência de Chipre e os resultados das eleições italianas, que mostraram um repúdio virtualmente generalizado às políticas de austeridade impostas aos europeus), o cenário da economia brasileira é altamente positivo para este ano. ´


E esse crescimento econômico do Brasil somente não será maior em função da fortíssima crise que atinge a Zona do Euro, a virtual estagnação da economia dos EUA (que cresceu ridículos 0,1% no 4o. trimestre de 2012) e a desaceleração da China, cuja economia despencou de um crescimento de 12% para 7,5% entre 2010 e 2012. Com isso, é claro que as exportações brasileiras são muito prejudicadas, pois estas são, justamente, as três maiores economias do mundo. 


E com isso, a presidenta Dilma se fortalecerá ainda mais para a disputa da eleição presidencial de 2014, na qual, segundo a mais recente pesquisa do Datafolha, ela conta com 64% dos votos válidos, contra 36% de Marina, Aécio e Eduardo Campos. 


Links:


Economia brasileira cresceu entre 4% e 5,2% no 1o. trimestre:


http://www.istoedinheiro.com.br/noticias/115657_A+RODA+GIROU?comment=success&page=1&contentBasePath=http%3A%2F%2Fcontent-portal.istoedinheiro.com.br%2F&filePath=http%3A%2F%2Fcontent-portal.istoedinheiro.com.br%2Fistoeimagens%2F


Emprego cresce no setor automotivo:


http://economia.ig.com.br/empresas/industria/2013-03-30/emprego-cresce-no-setor-automotivo.html


Taxa de Desemprego de Fevereiro é a menor para o mês na série histórica; Renda real cresce 2,4%:


http://www.redebrasilatual.com.br/temas/economia/2013/03/estavel


Redução de IPI para carros e caminhões continuará até o fim de 2013:


http://www.redebrasilatual.com.br/temas/economia/2013/03/reducao-de-ipi-para-carros-e-caminhoes-vai-ate-o-fim-o-ano


Porque a notícia sobre o crescimento do PIB de 2012 já nasceu velha


http://guerrilheirodoanoitecer.blogspot.com.br/2013/03/comercio-varejista-cresceu-84-em-2012.html

Após ação da Globo, Azenha anuncia fim do 'Viomundo'!


Após ação da Globo, Azenha anuncia fim do 'Viomundo'

Jornalista diz que grandes grupos de comunicação estão conseguindo, pela via judicial, aquilo que nem a ditadura conseguiu: calar os veículos alternativos
Publicado em 30/03/2013

São Paulo – O jornalista Luiz Carlos Azenha anunciou ontem (29) à noite o fim do blog Viomundo, um dos mais respeitados e acessados da chamada blogosfera progressista, após uma ação judicial movida pelo diretor da Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel – na qual Azenha foi condenado a pagar R$ 30 mil.
Em texto publicado no próprio blog, o jornalista lamenta a judicialização do debate político e diz que os grandes meios de comunicação estão conseguindo, pelo bolso, aquilo que nem a ditadura (1964-1985) conseguiu: calar os veículos alternativos.
“Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão— entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim. Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual”, afirma. Leia abaixo a íntegra da nota
Globo consegue o que a ditadura não conseguiu: calar imprensa alternativa
por Luiz Carlos Azenha
Meu advogado, Cesar Kloury, me proíbe de discutir especificidades sobre a sentença da Justiça carioca que me condenou a pagar 30 mil reais ao diretor de Central Globo de Jornalismo, Ali Kamel, supostamente por mover contra ele uma “campanha difamatória” em 28 posts do Viomundo, todos ligados a críticas políticas que fiz a Kamel em circunstâncias diretamente relacionadas à campanha presidencial de 2006, quando eu era repórter da Globo.
Lembro: eu não era um qualquer, na Globo, então. Era recém-chegado de ser correspondente da emissora em Nova York. Fui o repórter destacado para cobrir o candidato tucano Geraldo Alckmin durante a campanha de 2006. Ouvi, na redação de São Paulo, diretamente do então editor de economia do Jornal Nacional, Marco Aurélio Mello, que tinha sido determinado desde o Rio que as reportagens de economia deveriam ser “esquecidas”– tirar o pé, foi a frase — porque supostamente poderiam beneficiar a reeleição de Lula.
Vi colegas, como Mariana Kotscho e Cecília Negrão, reclamando que a cobertura da emissora nas eleições presidenciais não era imparcial.
Um importante repórter da emissora ligava para o então ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, dizendo que a Globo pretendia entregar a eleição para o tucano Geraldo Alckmin. Ouvi o telefonema. Mais tarde, instado pelo próprio ministro, confirmei o que era também minha impressão.
Pessoalmente, tive uma reportagem potencialmente danosa para o então candidato a governador de São Paulo, José Serra, censurada. A reportagem dava conta de que Serra, enquanto ministro, tinha autorizado a maior parte das doações irregulares de ambulâncias a prefeituras.
Quando uma produtora localizou no interior de Minas Gerais o ex-assessor do ministro da Saúde Serra, Platão Fischer-Puller, que poderia esclarecer aspectos obscuros sobre a gestão do ministro no governo FHC, ela foi desencorajada a perseguí-lo, enquanto todos os recursos da emissora foram destinados a denunciar o contador do PT Delúbio Soares e o ex-ministro da Saúde Humberto Costa, este posteriormente absolvido de todas as acusações.
Tive reportagem sobre Carlinhos Cachoeira — muito mais tarde revelado como fonte da revista Vejapara escândalos do governo Lula — ‘deslocada’ de telejornal mais nobre da emissora para o Bom Dia Brasil, como pode atestar o então editor Marco Aurélio Mello.
Num episódio específico, fui perseguido na redação por um feitor munido de um rádio de comunicação com o qual falava diretamente com o Rio de Janeiro: tratava-se de obter minha assinatura para um abaixo-assinado em apoio a Ali Kamel sobre a cobertura das eleições de 2006.
Considero que isso caracteriza assédio moral, já que o beneficiado pelo abaixo-assinado era chefe e poderia promover ou prejudicar subordinados de acordo com a adesão.
Argumentei, então, que o comentarista de política da Globo, Arnaldo Jabor, havia dito em plena campanha eleitoral que Lula era comparável ao ditador da Coréia do Norte, Kim Il-Sung, e que não acreditava ser essa postura compatível com a suposta imparcialidade da emissora. Resposta do editor, que hoje ocupa importante cargo na hierarquia da Globo: Jabor era o “palhaço” da casa, não deveria ser levado a sério.
No dia do primeiro turno das eleições, alertado por colega, ouvi uma gravação entre o delegado da Polícia Federal Edmilson Bruno e um grupo de jornalistas, na qual eles combinavam como deveria ser feito o vazamento das fotos do dinheiro que teria sido usado pelo PT para comprar um dossiê contra o candidato Serra.
Achei o assunto relevante e reproduzi uma transcrição — confesso, defeituosa pela pressa – no Viomundo.
Fui advertido por telefone pelo atual chefão da Globo, Carlos Henrique Schroeder, de que não deveria ter revelado em meu blog pessoal, hospedado na Globo.com, informações levantadas durante meu trabalho como repórter da emissora.
Contestei: a gravação, em minha opinião, era jornalisticamente relevante para o entendimento de todo o contexto do vazamento, que se deu exatamente na véspera do primeiro turno.
Enojado com o que havia testemunhado ao longo de 2006, inclusive com a represália exercida contra colegas — dentre os quais Rodrigo Vianna, Marco Aurélio Mello e Carlos Dornelles — e interessado especialmente em conhecer o mundo da blogosfera — pedi antecipadamente a rescisão de meu contrato com a emissora, na qual ganhava salário de alto executivo, com mais de um ano de antecedência, assumindo o compromisso de não trabalhar para outra emissora antes do vencimento do contrato pelo qual já não recebia salário.
Ou seja, fiz isso apesar dos grandes danos para minha carreira profissional e meu sustento pessoal.
Apesar das mentiras, ilações e tentativas de assassinato de caráter, perpretradas pelo jornal O Globo* e colunistas associados de Veja, friso: sempre vivi de meu salário. Este site sempre foi mantido graças a meu próprio salário de jornalista-trabalhador.
O objetivo do Viomundo sempre foi o de defender o interesse público e os movimentos sociais, sub-representados na mídia corporativa. Declaramos oficialmente: não recebemos patrocínio de governos ou empresas públicas ou estatais, ao contrário da Folha, de O Globo ou do Estadão. Nem do governo federal, nem de governos estaduais ou municipais.
Porém, para tudo existe um limite. A ação que me foi movida pela TV Globo (nominalmente por Ali Kamel) me custou R$ 30 mil reais em honorários advocatícios.
Fora o que eventualmente terei de gastar para derrotá-la. Agora, pensem comigo: qual é o limite das Organizações Globo para gastar com advogados?
O objetivo da emissora, ainda que por vias tortas, é claro: intimidar e calar aqueles que são capazes de desvendar o que se passa nos bastidores dela, justamente por terem fontes e conhecimento das engrenagens globais.
Sou arrimo de família: sustento mãe, irmão, ajudo irmã, filhas e mantenho este site graças a dinheiro de meu próprio bolso e da valiosa colaboração gratuita de milhares de leitores.
Cheguei ao extremo de meu limite financeiro, o que obviamente não é o caso das Organizações Globo, que concentram pelo menos 50% de todas as verbas publicitárias do Brasil, com o equivalente poder político, midiático e lobístico.
Durante a ditadura militar, implantada com o apoio das Organizações Globo, da Folha e do Estadão— entre outros que teriam se beneficiado do regime de força — houve uma forte tentativa de sufocar os meios alternativos de informação, dentre os quais destaco os jornais Movimento e Pasquim.
Hoje, através da judicialização de debate político, de um confronto que leva para a Justiça uma disputa entre desiguais, estamos fadados ao sufoco lento e gradual.
E, por mais que isso me doa profundamente no coração e na alma, devo admitir que perdemos. Não no campo político, mas no financeiro. Perdi. Ali Kamel e a Globo venceram. Calaram, pelo bolso, o Viomundo.
Estou certo de que meus queridíssimos leitores e apoiadores encontrarão alternativas à altura. O certo é que as Organizações Globo, uma das maiores empresas de jornalismo do mundo, nominalmente representadas aqui por Ali Kamel, mais uma vez impuseram seu monopólio informativo ao Brasil.
Eu os vejo por aí.
PS do Viomundo: Vem aí um livro escrito por mim com Rodrigo Vianna, Marco Aurelio Mello e outras testemunhas — identificadas ou não — narrando os bastidores da cobertura da eleição presidencial de 2006 na Globo, além de retratar tudo o que vocês testemunharam pessoalmente em 2010 e 2012.
PS do Viomundo 2: *Descreverei detalhadamente, em breve, como O Globo e associados tentaram praticar comigo o tradicional assassinato de caráter da mídia corporativa brasileira.
Link:

Política de cotas aumentou em 7 vezes acesso de alunos pobres às Universidades!


Pela porta da frente

Apoiada por 62% dos brasileiros, a política de cotas ampliou sete vezes a presença dos alunos pobres nas universidades e, portanto, a sua oportunidade de fazer parte de um país mais escolarizado
Por: Cida de Oliveira - Publicado em 18/03/2013
Poder voltar à escola e ter mais chances de conseguir um trabalho longe da rotina extenuante do canavial. Esse era o maior desejo de Agenor Custódio, que entre os 12 e 18 anos cortava cana em Mato Grosso do Sul. 
O que jamais imaginou esse brasileiro nascido numa comunidade indígena da etnia Terena, em Aquidauana, era que, aos 39 anos, se formaria em Imagem e Som pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). 
Tampouco que viria a ter possibilidades de passar pela seleção do programa de mestrado na mesma instituição, qualificando-se a disputar, em condições de igualdade, uma boa vaga na área de audiovisual ou na carreira acadêmica. Localizada no interior paulista, a 230 quilômetros da capital, a UFSCar é uma das dez melhores do país, segundo indicadores de qualidade do Ministério da Educação.
Agenor sempre teve dificuldades para estudar. Na adolescência largou a escola para trabalhar. Aos 21 anos se matriculou no ensino médio, que só concluiu aos 28. Mesmo assim foi aprovado no vestibular de Turismo de uma universidade pública de seu estado. Estava no terceiro ano quando teve de parar por falta de dinheiro para alimentação, moradia e transporte. Mas o sonho não morreu. 
Em 2008 ingressou na UFSCar graças à cota para indígenas; neste mês de março vai colar grau. “De outra forma seria impossível entrar numa universidade pública, gratuita, prestigiada, poder estudar como estudei, pesquisar e ainda ter a chance no mestrado”, avalia.
Sua vizinha de república, Vanessa David de Campos, 23 anos, aluna de Engenharia de Produção, também tem grandes expectativas. Ingressou na UFSCar em 2008, beneficiada pelas cotas para negros. 
lém de estudar, desenvolve atividades de pesquisa num grupo que dá consultoria em ergonomia para grandes empresas. Vanessa atua ainda na divulgação científica por meio do teatro, o que lhe permitiu conhecer praticamente todo o país, e num coletivo de estudos africanos.
Negra e primeira da família a entrar na universidade, a futura engenheira nasceu e cresceu na periferia pobre de Taubaté (SP). Sempre estudou em escola pública e até o ensino médio acreditava que toda faculdade era paga. Por isso foi estudar modelação industrial no Senai para entrar mais cedo no mercado de trabalho. 
Fazia curso técnico junto com o colegial, era aprendiz numa indústria de autopeças e tinha aulas nos fins de semana num cursinho popular. Aos 18 anos, com dinheiro emprestado, viajou sozinha pela primeira vez para se matricular em São Carlos. Sem computador portátil e dinheiro que mal dava para xerox, enfrentou dificuldades. “Tive muitas desilusões. Embora não seja declarado, o racismo existe aqui também”, afirma.

Uma nova cultura

Ex-metalúrgico, o colega Edmar Neves da Silva, 21 anos, do terceiro semestre de Ciências Sociais, ingressou na faculdade por meio da cota para oriundos da escola pública. Cursou a primeira metade do ensino fundamental na rede municipal de Mogi-Guaçu (SP), depois seguiu na rede estadual até o ensino médio. “A formação foi muito ruim, em especial no colegial, quando praticamente não tive professor de História”, lembra o estudante, que sempre quis chegar ao ensino superior público, pela gratuidade e pela qualidade. 
O que o ajudou a suprir as falhas foi uma bolsa de um curso pré-vestibular particular que ganhou em 2010. Durante o dia trabalhava no controle de qualidade de uma fábrica e estudava à noite e também nos fins de semana.
edmar
Dirigente do diretório acadêmico da UFSCar, Edmar é o segundo entre os familiares a entrar numa faculdade. A irmã mais velha cursou Administração com bolsa integral do Programa Universidade para Todos (ProUni) e agora faz pós-graduação em Marketing. Os pais não conseguiram terminar o ensino fundamental.
Edmar cursa o terceiro semestre de Ciências Sociais na UFSCar. “A formação foi muito ruim, em especial no colegial, quando praticamente não tive professor de História” (Foto: Paulo pepe/RBA)
Uma minoria da população brasileira, que pôde pagar por bons colégios particulares para que seus filhos chegassem a cursos prestigiados das melhores universidades públicas, ainda se incomoda ao vê-los passar a dividir as salas de aula com negros, indígenas e estudantes pobres vindos da escola pública. 
São estudantes que, antes de as cotas começarem a ser adotadas, em 2004, dificilmente estariam ali. Mas é possível que esse incômodo seja diluído à medida que parte dessa elite passe a se conscientizar de que as boas escolas públicas são mantidas pelos impostos pagos por todos.
Há também casos como o da fisioterapeuta Silvia Martinez, que sempre pagou boa escola particular para a filha que, neste ano, ficou na lista de espera da Universidade de Brasília (UnB). “Se não houvesse vagas reservadas para as cotas, ela teria entrado na primeira. É uma mudança de mentalidade, talvez leve algumas gerações para ser culturalmente assimilada. Mas, por uma questão de justiça social, valerá a pena”, opina.
É uma visão que faz sentido. Um estudo dos pesquisadores Jacques Velloso e Claudete Batista Cardoso, da UnB – a primeira a adotar cotas para negros e pardos, em 2004 –, simulou as chances de ingresso de candidatos negros em processos seletivos no período entre 2004 e 2008 caso as cotas não existissem. Na maioria dos casos, as cotas mais que dobraram as probabilidades de ingresso desses candidatos.
Icaro
Icaro foi o primeiro aluno a ingressar em Medicina da UFba por meio de cotas, formou-se em 2011. Hoje é médico do Programa saúde da Família da prefeitura de salvador: "Cotas só não é suficiente. Tem que melhorar a escola pública" (Foto: Lucia Correa Lima/RBA)
Para completar, no final de agosto de 2012 a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei nº 12.711, que disciplina o ingresso nas universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível médio. 
O prazo é de quatro anos para que essas instituições passem a reservar metade das vagas para estudantes que tenham cursado integralmente o ensino médio em escolas públicas. Desse percentual, metade é para estudantes de famílias com renda de até 1,5 saláriomínimo per capita.  

Adversidades 

Por meio da imprensa conservadora, os porta-vozes da classe social que o ex-governador paulista Cláudio Lembo batizou de “elite branca” empreenderam uma verdadeira cruzada. 

Espalhou-se uma visão enviesada, segundo a qual as cotas ferem o princípio da igualdade e do mérito acadêmico, são ineficazes já que o problema estaria na péssima qualidade do ensino básico público, e não na má distribuição de renda –, rebaixam o nível acadêmico, desfavorecem os brancos mais pobres em detrimento dos negros e prejudicam essa população ao estigmatizá-la como incompetente. Para completar, esses setores da imprensa tentavam fazer crer que a sociedade brasileira é contrária à política.
Todos esses mitos, porém, estão sendo derrubados. Em 2006 e 2008, pesquisas do instituto Datafolha indicavam, sem alarde, que mais de 80% da população aprovava as cotas. Em fevereiro passado, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma pesquisa do Ibope que mostra que 62% dos entrevistados (dois em cada três brasileiros) apoiam cotas em universidades públicas para alunos negros, pobres e estudantes da escola pública. 
A pesquisa foi realizada em todas as regiões brasileiras e constatou que é maior (77%) o apoio às cotas para os de baixa renda e/ou conforme a origem escolar dos pretendentes, seguido por 64% de aprovação às baseadas em critério de raça. 
A oposição é maior entre os entrevistados brancos, das classes A e B, moradores das capitais, em especial nas regiões Norte e Centro-Oeste. E menor entre os estudaram da 5ª à 8ª série, emergentes da classe C, nordestinos e moradores do interior. 
Segundo o jornal, os que buscam ascensão social e econômica são mais simpáticos a políticas que aumentem suas chances de chegar à faculdade. A pesquisa mostra que, em todas as camadas sociais, o apoio é maior que a contrariedade.
O recado da pesquisa é claro: está aprovado o mecanismo que permitiu aumentar a presença de populações excluídas nas universidades. “De 2004 a 2011, a proporção de pessoas pertencentes à faixa de menor renda aumentou sua presença no ensino superior, passando de 0,6% para 4,2%. 
No mesmo período, a inserção dos pretos saltou de 5% para 8,8% e dos pardos, de 5,6% para 11%”, diz o professor e pesquisador João Feres Júnior, do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). 

População esclarecida

Na avaliação de frei David Raimundo dos Santos, diretor da ONG Educação e Cidadania de Afrodescendentes (Educafro), a aprovação das cotas é fruto do entendimento dos argumentos sólidos dos defensores da medida. “Com humildade, sabedoria e vigor, essas pessoas levaram esclarecimento à opinião pública, o que não aconteceu com os críticos que apareceram em 90% de todas as reportagens contrárias publicadas nesses 10 anos”, diz. “Quando a imprensa aprofundar o debate de maneira responsável, a tendência é a aprovação aumentar ainda mais.”
Entre os que não apoiavam as cotas e mudaram de ideia está o juiz federal William Douglas, do Rio de Janeiro. A princípio contrário à reserva para negros, ele passou a defender o aperfeiçoamento das ações afirmativas.
agenorBranco, filho de pai lavrador e mãe operária, enfrentou dificuldades para chegar aonde chegou, mas não acredita mais na exigência do que chama de heroísmo. 
“Sem as cotas seria impossível entrar numa universidade pública, gratuita, prestigiada, estudar, pesquisar e ainda ter a chance no mestrado”, diz Agenor, da etnia Terena e ex-cortador de cana (Foto: Paulo Pepe/RBA)
“Minha filha estuda em colégio caro, onde nada falta, com professores bem pagos e ótima estrutura. O mesmo não acontece com a maioria das crianças pobres, que estudam em escolas sem professores, carteiras ou banheiros. 
Não é justo nem honesto que todos sejam exigidos da mesma forma na hora de ingressar na universidade”, diz.Entre os que não apoiavam as cotas e mudaram de ideia está o juiz federal William
Como lembra frei David, há cotas apenas para o ingresso. A permanência e a conclusão são por conta do aluno. 


E, com o mesmo nível de exigência durante o curso, os cotistas têm demonstrado capacidade de superar as deficiências do ensino básico e render igual ou melhor que não cotistas. Em 2008, foi constatado na que o desempenho acadêmico dos cotistas negros era de 6,41 e daqueles das escolas públicas 6,56, acima do 6,37 dos não cotistas. Além disso, a taxa de conclusão dos cursos era maior.





Dados semelhantes foram encontrados na Universidade Estadual de Campinas. Embora as estaduais paulistas não adotem sistema de cotas, a Unicamp tem um programa que concede pontos adicionais na nota do vestibular dos egressos da rede pública. A comissão permanente para o vestibular constatou que a nota média desses alunos beneficiados foi mais alta que a dos demais.
Outra resposta ao discurso de que a política de cotas seria demagógica e os beneficiados abandonariam o curso vem de um estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA). 
A maioria dos cotistas já tinha cumprido a maior parte dos créditos das disciplinas e o desempenho estava entre os mais altos em cursos como Matemática, Física, Engenharia Elétrica, Ciências Biológicas, Odontologia, Farmácia, Filosofia, Comunicação, Nutrição, Psicologia e Direito. Os cotistas também estiveram menos sujeitos a reprovação por faltas.
Primeiro aluno a ingressar na UFBA por meio de cotas, Icaro Vidal formou-se em Medicina em 2011. Negro e oriundo da escola pública, viu graduarem-se inúmeros “grupinhos” de estudantes brancos, formados nas melhores escolas particulares de Salvador. Nunca fez parte de nenhum deles, tampouco sentiu na pele preconceito por ser cotista. Mas sabe que existia, de forma velada. 
Médico do Programa de Saúde da Família da Prefeitura de Salvador e servidor estadual num instituto de criminalística, Icaro agora torce pela educação brasileira. “As cotas facilitam a entrada na faculdade, mas isso não é tudo. É preciso melhorar a escola pública. Atendo adultos e crianças de 12 anos que não sabem ler nem escrever.”
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