Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

domingo, 28 de julho de 2013

Marcio Pochmann: Grande Mídia promove terrorismo econômico!

Ex-presidente do IPEA acusa a Mídia de terrorismo 
econômico! - por Eduardo Guimarães, do Blog da 
Cidadania

Na última quarta-feira, o IBGE divulgou os resultados da sua Pesquisa Mensal do Emprego (PME) e, apesar de trazer boas novidades, foi apresentada pela mídia, a partir dali, como sendo ruim por o desemprego de junho deste ano ter sido 0,2 ponto percentual maior do que no mesmo mês do ano passado.
Neste momento político em que os bons níveis de emprego e renda constituem o que impede Dilma Rousseff de perder ainda mais popularidade, essa distorção dos fatos não pode passar batida e, nesse aspecto, o governo viu a distorção sendo feita e, como de costume, não contestou.
No sentido de fazer a sua parte no contraponto à desinformação, o Blog foi ouvir um dos economistas mais importantes do Brasil, o ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) doutor Marcio Pochmann.
Antes da entrevista, porém, alguns dados sobre o entrevistado.
Formou-se em Economia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1984. Entre 1985 e 1988 concluiu a sua pós-graduação em Ciências Políticas e foi supervisor do Escritório Regional do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) no Distrito Federal, além de docente na Universidade Católica de Brasília.
Em 1989, mudou-se para o Estado de São Paulo, onde iniciou seu doutorado – concluído em 1993 – em Ciência Econômica na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), tornando-se pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit), do qual seria diretor-executivo anos mais tarde, assim como membro do corpo docente da Unicamp.
Foi, ainda, pesquisador visitante em universidades da França, da Itália e da Inglaterra. Fez pós-doutorado nos temas de relações de trabalho e políticas para juventude e atuou como consultor no Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), bem como na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e no Dieese, entre outras instituições nacionais.
No plano internacional, foi consultor em diferentes organismos multilaterais das Nações Unidas, como a Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal).
De 2001 a 2004, em São Paulo, Pochmann dirigiu a Secretaria Municipal do Desenvolvimento, Trabalho e Solidariedade do governo da prefeita Marta Suplicy. A partir de 2007, passou a exercer a presidência do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília, cujo comando deixou no ano passado para disputar a eleição para prefeito de Campinas, na qual foi derrotado.
Na entrevista a seguir, Pochmann fala sobre economia e política e deixa ver expressiva confiança no país.
*
Blog da Cidadania – Doutor Marcio Pochmann, na quarta-feira foram divulgados os dados da Pesquisa Mensal do Emprego (PME), do IBGE, referentes a junho último e, em relação a junho de 2012, o desemprego subiu de 5,8% para 6%, correto?
Márcio Pochmann – O IBGE realiza essa pesquisa em seis regiões metropolitanas, que representam um terço do Brasil, sobre o mercado de Trabalho. Mas, ainda assim, resume-se a regiões metropolitanas.
A informação relativa ao desemprego, em termos nacionais, é oferecida pelo IBGE apenas uma vez ao ano, na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que é realizada no mês de setembro e divulgada sempre com um ano de defasagem.
Essa informação da PME de junho revela uma oscilação no mercado de trabalho que é sazonal, tendo em vista que no primeiro semestre de cada ano o desemprego é, em geral, superior ao do segundo semestre, quando a atividade econômica é mais acelerada.
Quem estuda o mercado de trabalho sabe, portanto, que esse resultado a que você se refere é sazonal e não apresenta nenhuma novidade.
Blog da Cidadania – No contexto em que o nível de crescimento do PIB ou a inflação vêm sendo tratados pelo noticiário econômico como sinais de que a economia está afundando, a impressão que se tem é a de que, agora, o desemprego pode se juntar a esses outros “cavalos-de-batalha”.
Ontem (25.7), editorial da Folha de São Paulo intitulado “Mudança de sinal” diz que essa “alta” constitui “Mais um sinal de esgotamento da política econômica do governo Dilma”. O senhor acha que é cabível uma conclusão como essa por conta de uma alta de 0,2% no desemprego de junho deste ano em relação a junho do ano passado?
Marcio Pochmann – A prática de terrorismo midiático não é uma novidade no Brasil. Se nós voltássemos no tempo e tivéssemos a oportunidade de analisar as manchetes de jornal de 1953, 1954 ou de 1963, 1964, possivelmente encontraríamos similitudes em relação às notícias econômicas de hoje.
Não há, a meu modo de ver, nada que possa apontar para um sinal – seja da inflação, seja do desemprego – comparável à crítica situação que vive os Estados Unidos, que vive a Europa, os quais têm, inclusive, adotado políticas econômicas que o Brasil adotou nos anos 1990 com resultados extremamente desfavoráveis ao conjunto da população.
Essa prática de terrorismo vem sendo usada, recorrentemente, desde a virada do ano passado para este ano. O “descontrole inflacionário” no Brasil foi apresentado como uma verdade absoluta.
De fato tivemos uma oscilação que acelerou a inflação por causa da safra agrícola e, como se vê, esse fenômeno vai sendo dissipado. Neste momento, há queda da taxa de inflação e, possivelmente, o Brasil vai fechar este ano – como aconteceu nos últimos dez anos – com ela dentro da meta estabelecida pelo Banco Central.
Se tomássemos como referência o que ocorreu nos anos de 2000, 2001, 2002, perceberíamos que, naqueles três anos, em nenhum deles a inflação ficou dentro da meta do Banco Central e não houve, no meu modo de ver, nenhuma manifestação midiática comparável ao que estamos vendo hoje.
Então há, de certa maneira, um terrorismo. Como hoje a inflação não se apresenta em uma trajetória de aceleração e, sim, de queda, então a nova temática passa a ser o desemprego.
O Brasil não vai crescer tanto quanto deveria, mas vai crescer mais do que no ano passado e, portanto, é muito difícil entender que nós tenhamos neste ano de 2013 um desempenho pior do que em 2012, pois se a economia vai crescer mais, ampliam-se os postos de trabalho.
Blog da Cidadania – E o nível de emprego crescerá em cima de um patamar alto. A economia brasileira gira hoje em torno de cinco trilhões de reais. Não é isso, doutor Marcio?
Marcio Pochmann – É isso mesmo. A economia brasileira encontra-se hoje entre as sete maiores economias do mundo. E o ritmo de expansão que o Brasil está conseguindo ter está ocorrendo em meio a um cenário internacional muito desfavorável.
Perceba que a China, que crescia 10, 11 por cento ao ano, está crescendo 6, 7 por cento ao ano. A Índia, a Rússia, os chamados “países-baleia”, também diminuíram o ritmo de crescimento.
Não é, portanto, um problema de ordem nacional, interna, mas uma decorrência da realidade internacional em que os países ricos estão acirrando a competição internacional e tornando difícil o manejo da atividade econômica.
Há algumas semanas houve a necessidade de se fazer um alinhamento na política monetária justamente porque o Banco Central dos Estados Unidos, sem consultar ninguém, decidiu encerrar a sua política monetária frouxa, o que indica uma subida de juros e, contiguamente, uma fuga de dólares de todas as partes do mundo rumo àquele país.
Dessa forma, o Brasil, como todos os países mais importantes do mundo, tiveram que fazer um realinhamento em suas políticas monetárias. Então, o contexto internacional termina impondo decisões de política econômica que não são aquelas mais favoráveis à expansão econômica.
Todavia, não há dúvida de que o Brasil tem um quadro muito diferente do que hoje nós estamos observando em países ricos que estão convivendo com aumento da pobreza, aumento do desemprego, aumento da desigualdade.
O Brasil está crescendo o que é possível crescer, mas com redução do desemprego, da pobreza e da desigualdade.
Blog da Cidadania – E aí, nesse momento, a gente lê um editorial no maior jornal do país em que a primeira frase é a seguinte: “São consistentes os sinais de deterioração da economia brasileira”. O editorial se intitula “Mudança de sinal” e foi publicado na Folha de São Paulo de 25 de julho de 2013.
Doutor Marcio: são consistentes os sinais de deterioração da economia brasileira?
Marcio Pochmann – Interpretações sempre dependem de quem as define. Eu, particularmente, não vejo sinais nessa direção. Infelizmente vamos ter um ano de crescimento menor do que imaginávamos, mas nada que signifique mudança da trajetória dos últimos dez anos, que tem sido uma trajetória de crescimento e distribuição de renda.
Não vai haver nada de trágico – a menos que surja uma hecatombe, e estamos longe disso no mundo. Deveremos concluir este ano com o controle da inflação, com crescimento econômico melhor do que no ano passado e com indicadores sociais seguindo a trajetória comprovada dos últimos dez anos.
Blog da Cidadania – O senhor acredita que essa previsão de um segundo semestre melhor do que o primeiro possa sofrer influência de fatores políticos como a promoção de protestos violentos nas ruas, como os que vimos em junho, ou o senhor acha que a economia brasileira não corre o risco de ser afetada por essa questão?
Marcio Pochmann – Não percebo que a economia possa dar curso a um problema político de maior dimensão. Agora, o contrário, que a política – ou a radicalização das manifestações – pode ter um impacto na economia como um todo, evidentemente que isso é possível. Mas exigiria um grau de movimentação que não me parece observável.
O que nós tivemos em junho foi um fenômeno importante que revela um processo decorrente das próprias transformações que nós observamos nos últimos dez anos. As pessoas foram à rua não para defender a volta de um modelo econômico ultrapassado; as pessoas foram à rua para reafirmar mais direitos. Não estão satisfeitas com o que estão obtendo e querem avançar mais.
Portanto, vejo nessas manifestações um combustível para o Brasil fazer mudanças mais significativas. Não me parece que possamos chegar a uma conturbação econômica derivada das manifestações políticas.
Blog da Cidadania – Fala-se também, doutor Marcio, em problema cambial. A conta corrente externa brasileira estaria correndo risco de retornar ao desequilíbrio de outrora – leia-se durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Então, minha pergunta é se essa questão cambial pode gerar algum problema maior ou se também nessa questão há exagero.
Marcio Pochmann – Entendo que a política macroeconômica precisa, sim, de ajustes e eles estão sendo feitos nos últimos dois anos. Essa questão das contas externas, a questão dos importados, os gastos de brasileiros com turismo no exterior, tudo isso coloca uma situação que precisamos olhar com muito cuidado.
Mas é bom lembrar, também, que o Brasil tem – e não tinha no passado – um colchão de proteção que são as reservas externas, o melhor remédio para essa situação desconfortável das contas externas.
Com essa desvalorização que tem sido observada da nossa moeda, o Brasil pode ter melhores condições competitivas nas exportações. É claro que isso não é uma resposta imediata, mas espera-se, também, que a economia mundial reaja e, assim, melhore as condições do comércio internacional.  Por fim, o país está fazendo um investimento em infraestrutura que em algum momento irá abrir um ciclo de expansão na economia de longa duração.
Evidentemente, haverá que fazer ajustes pontuais…
Blog da Cidadania – Que ajustes, doutor Marcio?
Marcio Pochmann – Entendo que, assim como a China foi capaz de construir uma rede produtiva com os países do seu entorno, precisaríamos avançar nesse sentido. A economia sul-americana tem no Brasil a sua principal fonte de dinamismo. Haveria que explorar melhor essa situação.
Além disso, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social precisaria funcionar como uma espécie de Eximbank brasileiro [Nota do Editor: estrutura dedicada exclusivamente a financiar exportações e a produção destinada ao mercado exterior] e o Fundo Soberano [Nota do Editor: fundo formado com recursos das reservas brasileiras para ser usado em investimentos] deveria ser usado de uma forma mais agressiva, permitindo ao Brasil ter maior presença em compra de empresas estrangeiras que estão com o valor de suas ações muito baixo, assim como têm feito a China, a Índia, a Suécia. Há oportunidades lá fora que o Brasil poderia aproveitar melhor tendo tantas reservas.
Blog da Cidadania – Mudando um pouco de assunto. Por que o senhor acha que a grande imprensa brasileira está tão pessimista e difunde tanto esse seu pessimismo? Ela está equivocada ou sabe que exagera, mas tem algum outro objetivo?
Marcio Pochmann – Entendo que há um aspecto estrutural em relação ao comportamento da mídia em geral. Isso porque nos últimos dez anos nós tivemos uma ascensão econômica com o surgimento de novos consumidores, mas isso praticamente em nada impactou em consumo de mídia.
Os jornais, ou perderam ou não aumentaram o número de assinantes. Nós não tivemos, portanto, um aumento significativo desses meios de comunicação em relação à sua penetração. Isso gerou uma decisão desses meios de comunicação de fazer uma espécie de “jornalismo militante”.
Lembra-me o tipo de jornalismo que se fazia na antiga esquerda, da União Soviética. Você tinha o Pravda, onde sempre tinha que haver alguma matéria contra o capitalismo porque estava-se escrevendo para militantes. E a impressão que eu tenho é que a imprensa optou por assegurar ou fidelizar os seus militantes leitores e escreve aquilo que eles querem ler.
Só não sei até que ponto essa opção é exitosa, pois, se de fato a população tivesse sua opinião formada pela mídia tradicional, não teria havido vitória do presidente Lula e da presidenta Dilma.
O que a imprensa brasileira diz do Brasil, aliás, é muito diferente do que diz a imprensa estrangeira. Então, esse paradoxo está associado a interesses econômicos de nossa imprensa que estão sendo afetados pelo conjunto da política econômica do governo.
Os principais financiadores privados da mídia privada são os bancos, o sistema financeiro, enfim, o rentismo. E certamente o rentismo não está nada feliz com o Brasil de hoje, em que se praticam taxas de juro, em termos reais, muito rebaixadas.
O setor financeiro deixou de auferir, ano passado, alguma coisa em torno de 100 milhões de reais somente com a queda da taxa de juros. Então, obviamente que a imprensa reage a políticas que prejudicam aqueles que a financiam…
Blog da Cidadania – Mas doutor Marcio, estamos falando em perda de poder da mídia enquanto o alvo dessa campanha dela de convencimento da população contra a política econômica e quem a impõe, que é a presidente Dilma, perdeu popularidade em uma proporção cataclísmica.
Não lhe parece que estamos em um momento novo? Até há poucos meses, a mídia martelava, martelava o governo e sua política econômica e chegava a pesquisa seguinte e o Lula estava cada vez mais forte, a Dilma estava cada vez mais forte. De repente, tudo isso mudou.
A pesquisa CNI-Ibope, recém divulgada, mostra nova queda da popularidade da presidente Dilma. Em entrevista que fiz na semana passada com o diretor do instituto Vox Populi, doutor Marcos Coimbra, ele disse que vê uma certa ressonância que começa a surgir dos ataques da mídia ao governo entre a sociedade.
Marcio Pochmann – Não estou querendo menosprezar o resultado das pesquisas, mas, no meu modo de ver, a perda de popularidade não é exclusiva do governo federal. Houve queda generalizada. Há um descrédito à política brasileira. Há efeitos no Poder Executivo, no Poder Legislativo, no Poder Judiciário e nas esferas federal, estadual e municipal…
Blog da Cidadania – Um momentinho, doutor Marcio. Uma informação para ajudar a sua análise. A presidente Dilma foi quem mais caiu. E houve até ganhos entre seus adversários. Políticos como Marina Silva ganharam muito na disputa da Presidência, no último período. Aécio Neves, como candidato, não perdeu nada. Dilma perdeu muito como candidata.
Marcio Pochmann – O problema é que Dilma exerce o governo. Então, é verdade que o governo perdeu apoio, mas também é verdade que outros níveis de governo também perderam apoio. Então isso também abre oportunidade para o PT, que não é governo em muitos Estados, disputar eleição neles em melhores condições.
Em São Paulo, por exemplo, Alckmin perdeu muito apoio. Então há um descrédito generalizado. E também é bom lembrar que as eleições em 2002, 2006 e 2010 foram sempre muito difíceis para o PT, que sempre venceu só no segundo turno. Não houve nenhuma eleição fácil para Lula ou para Dilma.
Blog da Cidadania – O senhor está otimista. É bom ver otimismo, mas só lembrando que Alckmin perdeu 16 pontos – ele que mandou a Polícia cometer aquela violência toda contra manifestantes – e Dilma perdeu quase 30 pontos.
Mas é bom ver otimismo em alguém com o seu nível de conhecimento da economia do país – e eu sempre digo que foi uma tragédia o senhor não ter vencido a eleição em Campinas, ano passado, porque seria um luxo para a cidade tê-lo como prefeito.
Quero agradecer muito, portanto, doutor Marcio, a atenção que o senhor me deu e, contando com a sua anuência, pretendo procurá-lo outras vezes para obter novas excelentes análises como essa que o senhor deu aos leitores do Blog da Cidadania.
Marcio Pochmann – Eu é que agradeço a oportunidade. E o parabenizo pelo seu trabalho, um trabalho corajoso, um trabalho de buscar a verdade, que é o que nos liberta.
Link:

‘Mais Médicos’: nasce o Bolsa Família da Saúde? - por Saul Leblon!

‘Mais Médicos’: nasce o Bolsa Família da Saúde? - por Saul Leblon, da Carta Maior



O sucesso delineado na ampla adesão dos municípios ao programa ‘Mais Médicos’ deve ser analisado exaustivamente.

Talvez represente mais que um alívio pontual no cerco conservador anabolizado pelas manifestações de junho, cujo impacto nos índices de aprovação ao governo tem sido reiterado, em meticuloso rodízio, pelos institutos de pesquisa. 

A análise do programa lançado pelo ministério da Saúde, há menos de um mês, poderá inspirar uma bem-vinda reconciliação com a dimensão política da luta pelo desenvolvimento, esgarçada nos últimos anos por um certo viés economicista.

Desde 2010, sabia-se que a substituição do ativismo visceral de Lula pela racionalidade administrativa de Dilma implicaria em mudanças de ênfase.

Que pareciam adequadas, diga-se. 

O Brasil necessitava consolidar as múltiplas frentes abertas desde 2003, ademais de retificar flancos estruturais que emergiram no processo. 

Para listar apenas os da agenda econômica: a valorização cambial desindustrializante, o obsceno custo financeiro, a carência de detalhamento para grandes projetos de infraestrutura etc.

A combinação entre a ênfase administrativa do novo governo e a retaguarda política do antecessor parecia perfeita.

Dilma era a chefe de governo. Lula, o chefe político.

A doença do ex-presidente acendeu o farol amarelo. As manifestações de junho piscaram o vermelho.

O blend teórico entre o político e o administrativo mostrou sua vulnerabilidade quando submetido à pressão contundente das ruas.

A interação entre os canais emperrou na ausência de mecanismos de resposta rápida.

Não só.

A inexistência de quadros intermediários capazes de reunir uma versatilidade dissociada na cúpula fez o resto.

Em lugar de criatividade e prontidão, emergiu a face apática de uma equipe pautada pelo engessamento administrativo e o timming burocrático.

Um arquipélago desprovido do oceano político capaz de uni-lo.

Não se trata de desdenhar o que é fundamental.

O planejamento público de longo prazo, de que sempre se ressentiu a economia brasileira.

O governo Dilma veio preencher essa lacuna histórica. 

O que tem feito com sucesso, em parte. 

A emergência política instaurada a partir de junho evidenciaria, no entanto, a insuficiência da especialização quando o relógio político é ajustado pelas ruas.

Uma rotina engessada no labirinto de licitações e licenciamentos, subordinada ao desafio da engenharia financeira, refém de uma enervante sucessão de postergações de prazos e obras, mostrou que um governo não pode se reduzir a um escritório de acompanhamento de projetos. 

Não qualquer governo em qualquer época: mas o do Brasil, sob cerco conservador e em meio às turbulência de uma transição de ciclo econômico internacional.

Intuitivamente, o ‘Mais Médicos’ ataca esses flancos.

Seu desenho resgata um modelo de ação engajada cuja cepa remete às premissas da política de segurança alimentar, combate à fome e à miséria, lançada em 2003, com o nome fantasia de ‘Fome Zero’.

Atacar o emergencial e o estrutural, ao mesmo tempo e com igual intensidade, era o cerne da estratégia contra o intolerável.

Fixar prazos críveis e benefícios visíveis no horizonte imediato da sociedade, um ingrediente mobilizador. 

Outro: estabelecer metas de apelo popular que colocavam sob pressão instancias políticas e administrativas, de cuja adesão dependia o sucesso da política. 

No caso da política de combate fome e à miséria, o carro-chefe foi o benefício do cartão-alimentação (hoje Bolsa Família).

A dimensão estrutural incluía a ampliação do crédito à agricultura familiar; as aquisições diretas do pequeno produtor; o ganho real do salário mínimo; a urbanização das favelas; o Fundeb, etc.

Mas, sobretudo, o pano de fundo político merece ser resgatado.

Ele envolve uma determinação férrea de libertar a ação pública da morosidade incremental, incompatível com os ponteiros da urgência brasileira.

Transferir recursos aos pobres, diretamente, no Brasil de 2003, em meio ao terceiro turno declarado pelo cerco conservador, significava para o governo abrir um atalho de respaldo político indispensável.

Para o conservadorismo era o anátema.

E assim foi tratado. 

A palavra fome nunca teve trânsito livre num vocabulário político dominado pela conveniência do dinheiro grosso. 

Em 1946, quando lançou o seu ‘Geografia da Fome, o médico, comunista e diplomata, Josué de Castro, foi pressionado a trocar o título do livro por algo mais palatável às vergonhas seculares de nossas elites.

Não o fez. A obra tornar-se-ia um clássico da decifração de estruturas reprodutoras da exclusão condensadas na palavra incômoda. 

Quando lançou o ‘Fome Zero’, o governo Lula sofreria igual constrangimento. 

A mídia derrotada nas urnas ergueu um cinturão de asfixia em torno do programa, contando com o obsequioso auxílio de parte da academia.

Os argumentos utilizados, então, lembram muito a fuzilaria atual contra o ‘Mais Médicos’.

Ineficaz, inconstitucional e eleitoreiro foram alguns mísseis disparados na primeira hora. Esgotada a munição para o abate em pleno voo, recorreu-se ao clássico artifício da sensatez protelatória – ‘são problemas estruturais, é preciso uma discussão mais profunda’.

A exemplo da fome, quão mais profunda terá que ser a discussão sobre uma notória, documentada e intolerável ausência de atendimento médico nas áreas mais pobres do país? 

O governo dispõe de números convincentes. E tem alternativas ao boicote esperado.

À falta de candidatos para ocupar vazios no interior do país, profissionais serão requisitados no estrangeiro.

Ao carimbo de ‘remendo’, a dimensão emergencial do programa responde com iniciativas estruturais: R$ 15 bilhões de investimentos em obras e equipamentos de saúde; reforma no currículo da medicina, vinculando-o à prestação de serviços ao SUS.

Prazos curtos de implantação atropelam o cerco conservador criando um calendário sensível, capaz de disputar a atenção de uma opinião pública exaurida pelo bombardeio midiático.

O Ministério da Saúde deu prazo até esta 5ª feira para os prefeitos interessados manifestarem a adesão ao programa. 

Utilizou rádios no interior para chegar à população e furar a sabotagem dos grandes veículos de comunicação.

Como um prefeito tucano explicaria, à fila no posto de saúde, a rejeição a um programa que promete elevar o padrão de atendimento local?

O insustentável se refletiu no perfil suprapartidário das adesões: mais de 40% dos prefeitos do PSDB se juntaram a um programa desdenhado por Aécio e assemelhados. Mas que recebeu a inscrição de 63% dos municípios brasileiro

Depurados os integrantes da constrangedora sabotagem corporativa, profissionais brasileiros que aderiram ao programa serão chamados a escolher os municípios onde querem atuar.

Terão até 3 de agosto para faze-lo.

Quarenta e oito horas depois, as escolhas serão validadas no Diário Oficial da União.

Vagas não preenchidas serão divulgadas no dia 6 de agosto: profissionais estrangeiros --foram 2.000 inscritos-- serão convidados a preenche-las até 8 de agosto. 

Ou seja, apenas 30 dias depois de anunciado, o programa emitirá sinais concretos de mudança na vida de cidades e cidadãos, até então condenados a uma combinação perversa de precariedade e incerteza no acesso a um serviço vital.

A vitória no emergencial amplia o chão firme do governo para ousar em ações de caráter estrutural, a exemplo do financiamento fiscal do setor, bem como da reforma no ensino da medicina.

O ‘Mais Médicos’ tem fôlego para se transformar no ‘Bolsa Família’ da saúde pública brasileira.

O governo não pode desperdiçar o potencial dessa experiência. Nem as lições que ela encerra para iniciativas em áreas às voltas com desafios de gravidade e apelo similares.

A presidenta Dilma teria muito a ganhar com isso. 

E o país mais ainda.

Postado por Saul Leblon

Link:

ONU: Programa Mais Médicos é coerente com recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde!

Programa Mais Médicos é coerente com recomendações da Organização Pan-Americana da Saúde



A Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde (OPAS/OMS) no Brasil informou que está acompanhando do debates nacionais sobre como fortalecer a atenção básica e primária de saúde no Brasil. A OPAS/OMS vem trabalhando com atores nacionais para dar seus aportes e vê com entusiasmo o recente pronunciamento do Governo brasileiro sobre o Programa “Mais Médicos”.
Segundo a OPAS/OMS, essas últimas medidas guardam coerência com resoluções e recomendações da Organizaçãosobre cobertura universal em saúde, fortalecimento da atenção básica e primária no setor saúde equidade na atenção à saúde da população. O Programa também está direcionado a construir uma maior equidade nos benefícios que toda a população recebe do Sistema Único de Saúde (SUS).
O Brasil apresenta uma média de médicos com relação a sua população menor que a média regional e a de países com sistemas de referência, tanto nas Américas como em outras regiões do mundo. Para a Organização, são corretas as medidas de levar médicos, em curto prazo, para comunidades afastadas e de criar, em médio prazo, novas faculdades de medicina e ampliar a matrícula de estudantes de regiões mais deficientes, assim como o numero de residências médicas. Países que têm os mesmos problemas e preocupações do Brasil estão colhendo resultados da implementação dessas medidas.
A OPAS/OMS afirma que, em longo prazo, a prática dos graduandos em medicina, por dois anos no sistema público de saúde, deve garantir, juntamente com o crescimento do sistema e outras medidas, maior equidade no SUS.
Link:

domingo, 21 de julho de 2013

O Reino Unido e as suas inúmeras Bolsas! - por Marcos Doniseti!

O Reino Unido e as suas inúmeras Bolsas! - por Marcos Doniseti!


Harry e Kate, herdeiros do trono britânico. Reino Unido oferece inúmeras bolsas aos mais pobres, mesmo sendo um país muito mais rico e menos desigual do que o Brasil. E agora, neoliberais?

Vejam o que o sociólogo Alberto Carlos Almeida escreveu em seu artigo 'O Bolsa Família e outras bolsas' (ver link abaixo):

"O Brasil adotaria políticas sociais que resultariam na dependência, ao passo que, por exemplo, o Reino Unido pós-Thatcher seria o exemplo de dinamismo e de alocação eficiente de recursos. A maioria dos críticos do Bolsa Família também idealiza o que acontece em outros países. Nada mais distante da realidade do que achar que somente no Brasil os mais pobres recebem algum tipo de auxilio do governo para sobreviver. Na verdade, o Brasil é um dos países que menos auxílio presta aos mais pobres. Mais uma vez, o exemplo do Reino Unido é paradigmático: lá existe até mesmo o bolsa funeral.".



No texto de Almeida, ficamos sabendo que entre alguns dos principais benefícios sociais (Bolsas) oferecidos pelo governo britânico aos pobres, estão:
- Bolsa Funeral (R$ 2100 para ajudar no enterro de seu familiar, incluindo pagar flores, caixão, uma viagem de algum parente para o velório, etc);
- Bolsa Aquecimento no Inverno (média de R$ 2400 por mês para ajudar as pessoas a se aquecerem no inverno);
- Bolsa Necessidades Especiais (para deficientes ou idosos, no valor de até R$ 1500 mensais);
- Bolsa Cuidados de quem tem necessidades especiais ( R$ 720 mensais);
- Bolsa Aquecimento por painéis solares (até R$ 3600 mensais);
- Seguro-Desemprego (R$ 720 mensais).

E vejam que isso acontece mesmo com o Reino Unido sendo um país muito mais rico do que o Brasil. 
A renda per capita britânica é de US$ 38.600 anuais (2012), contra cerca de US$ 12.800 anuais do Brasil (dados do FMI). 
E a distribuição de renda no Reino Unido também é muito melhor do que a brasileira, pois enquanto o índice de Gini do Brasil é de 0,519 (dado de 2012), o do Reino Unido é  de 0,36.
Obs: É bom lembrar que o índice de Gini vai de 0 a 1 e quanto mais próximo de 1, maior é a desigualdade existente em um país . 
E o IDH britânico é de 0,85, bem maior que o brasileiro, que é de 0,73. Com isso, enquanto o Reino Unido está na 26a. posição no IDH da ONU, o Brasil se encontra na posição 85.
Mesmo assim, o governo britânico mantém uma série de benefícios que visam ajudar a população mais pobre em momentos de dificuldade ou de necessidade, como pudemos constatar . 

E agora, neoliberais, o que é que vocês irão dizer a respeito disso, hein?

Links:

Artigo de Alberto Carlos Almeida:

http://www.senado.gov.br/noticias/senadonamidia/noticia.asp?n=840508&t=1

Índice de Gini:


http://www.thinkfn.com/wikibolsa/Coeficiente_de_Gini


IDH da ONU:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_%C3%8Dndice_de_Desenvolvimento_Humano


Renda Per Capita:


http://pt.wikipedia.org/wiki/Anexo:Lista_de_pa%C3%ADses_por_PIB_nominal_per_capita



sábado, 20 de julho de 2013

Executivo de Wall Street que virou blogueiro diz que a máquina pode explodir!

Executivo de Wall Street que virou blogueiro diz que a máquina pode explodir - do Viomundo


publicado em 20 de julho de 2013 às 1:07




por Heloisa Villela, de Nova York

Afinal, onde está a revolta?

A pergunta é cada vez mais frequente nos blogs dos Estados Unidos. Richard Eskow já foi músico, consultor e executivo de Wall Street na área de tecnologia.

Com o título acima ele publicou, recentemente, na internet, um artigo comparando Estados Unidos e Brasil — no qual cita o brasileiro Paulo Freire várias vezes. 

Quando fala da crescente desigualdade na sociedade norte-americana, ele afirma que a retórica do consenso e da busca de acordo, uma constante na atuação política do presidente Barack Obama, é responsável por boa parte do acirramento dessa desigualdade. Conclui com palavras de Paulo Freire: “Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o poder do opressor, é optar por ele”. Para explicar porque mudou de carreira para se dedicar ao jornalismo na internet, novamente cita o brasileiro, lembrando que a palavra transforma o mundo.

Eskow conheceu as ideias de Paulo Freire bem cedo, através do pai, que era educador. Ele acha que o momento pede a leitura e os pensamentos do pernambucano.

Apesar de se considerar um otimista, Eskow analisou o processo de concentração de renda nos Estados Unidos e concluiu que ele cria um círculo vicioso: dá ainda mais poder de fogo aos grandes grupos, que investem pesado nas campanhas eleitorais e nos lobbies, para garantir leis ainda mais vantajosas ao capital no Congresso.

Eskow também leva em consideração as denúncias recentes sobre espionagem doméstica. Elas refletem um estado policial cada vez mais opressor, que se une aos interesses financeiros para desmantelar qualquer movimento de massa nascente, como aconteceu com o Occupy. Ainda assim, acredita que é possível vencer toda essa máquina e vê, no temor dos poderosos, sinais de que o caldo eventualmente vai entornar.

Que medo é esse? Ainda bem conectado ao mundo das finanças, ele conta que um amigo economista voltou há pouco de uma reunião na Europa com 100 representantes de instituições financeiras mundiais e perguntou qual era o clima entre os banqueiros. “Eles estão aterrorizados”, disse o amigo.

Por quê? Segundo Eskow, eles analisam as estatísticas, os gráficos e dados econômicos. Sabem que a concentração de renda nas mãos de uma camada cada vez menor da população é uma receita desastrosa. Cria uma situação de instabilidade cada vez maior que pode, a qualquer momento, explodir. E nem por isso eles cedem: a ganância vicia.

Na pergunta do título vai implícito: quando essa panela de pressão vai dar sinal de vida? Enquanto a situação econômica da maioria piora, os norte-americanos continuam calados, trancados em casa, provavelmente achando que são uns fracassados.

Olham para os problemas de forma individual. Não conectam o que estão vivendo com o que se passa com o vizinho, com o colega de trabalho que também perdeu o emprego, com o conhecido que perdeu a casa porque não conseguiu mais pagar as prestações…

Eskow também responsabiliza a mídia norte-americana por essa alienação, já que ela não discute os problemas econômicos que a população enfrenta. “Limita-se ao trivial”, afirma.

Para Eskow — uma versão estadunidense de blogueiro sujo, já que o espaço dele se chama Crooks and Liars, Velhacos e Mentirosos — o Brasil ofereceu um bom contraste ao que se passa na terra de Tio Sam.

Enquanto todos os indicadores mostram que houve uma mudança positiva para os mais pobres e uma ascensão de muitos à classe média no Brasil, ainda assim os protestos explodiram. Ou seja, melhoria e mais protestos (no Brasil). Concentração de renda cada vez maior e silêncio (nos Estados Unidos). Na conversa com o Viomundo, ele analisou essa apatia.

Viomundo – Para responder à pergunta do título do artigo, você menciona a alienação. Como ela é produzida?

RE — Existem vários fatores. Um deles é que quando as pessoas perdem de vista o contraste entre o mundo delas, como ele existe, e o mundo como ele poderia ser — ou até mesmo como era alguns anos atrás — quando as pessoas perdem essa noção do contraste, então usamos a expressão “é como um canário em uma mina de carvão”. Quando o oxigênio vai acabando, o canário não percebe que o ar está acabando até que cai e morre.

Os mineiros levam o canário para a mina porque não sabem quando estão perdendo o ar. Se o canário morre eles sabem que estão prestes a sufocar. Acho que é o que acontece conosco.

Não sabemos que nosso oxigênio econômico está desaparecendo à nossa volta. 

Acho que parte dessa alienação é porque as pessoas estão com medo. 

Trabalhando muitas horas, foram forçadas a se endividar, vivem em um estado constante de insegurança. Mas aconteceu tão devagar que não têm nada para comparar com isso. Acham apenas que o mundo é mesmo assim.

Acho que isso é parte do problema. Também há o aprendizado desse conceito de impotência: elas tentam eleger republicanos, depois democratas, vão e voltam — e nada funciona. Então, o desânimo se torna parte do processo.

Acho também que é falta de informação. Nossa mídia, em sua grande maioria, não está enfatizando os problemas econômicos que estão acontecendo. Tende a focar no trivial e não enfatizar o que está acontecendo social e economicamente ou apontar as forças subjacentes a esses problemas. Se você soma todos esses fatores, você tem pessoas altamente insatisfeitas, mas desanimadas e alienadas, que não estão reagindo.

Viomundo – Aqui nos Estados Unidos você ainda tem as redes públicas de rádio e tevê — a PBSe a NPR – que são fortes e discutem assuntos com um pouco mais de profundidade, enquanto no Brasil a internet é que se tornou uma ferramenta importante, especialmente para os jovens, para obter informações e discutir as coisas.  Aqui nos Estados Unidos, você encontra na internet uma grande variedade de opiniões e debates. Por que isso não produz algum tipo de discussão maior?

RE — Acho que existem duas razões. Por um período, isso aconteceu. 

Especialmente durante a presidência de George W. Bush [2000-2008] quando houve uma quase assustadora uniformidade de cobertura da mídia neste país. 

Realmente fez a gente sentir quase como uma coisa totalitária a forma como certas notícias não estavam sendo transmitidas. A internet realmente explodiu em matéria de blogs e de mídia alternativa para oferecer uma contra-narrativa durante os anos Bush, especialmente sobre a guerra [do Iraque] e algumas das políticas econômicas…

Mas acho que uma das razões pelas quais ela não é tão efetiva agora é porque, com a eleição de Barack Obama e com a decisão do Obama, em várias áreas, de apoiar interesses econômicos aos quais o Bush também deu apoio, o mundo da internet ficou dividido entre os que queriam continuar lutando contra essas forças econômicas e os que se sentem mais à vontade e até leais quando essas medidas estão sendo promovidas por alguém que é democrata ou parece mais liberal – ao menos culturalmente e socialmente mais liberal, como Obama.

Acho que isso criou uma fragmentação na internet. Agora você tem uma proliferação tão grande de pontos-de-vista que não existe uma força coerente argumentando contra esses interesses econômicos. Nós tivemos um pouco durante o movimento Occupy. Foi um curto espaço de tempo fascinante.

Literalmente, em um período de duas ou três semanas, quando o Occupy surgiu, a parte do mundo da internet e do ativismo social que eram leais ao Partido Democrata – me lembro disso vividamente – reagiu de forma bastante negativa.

Depois, quando o movimento se tornou bem sucedido, tentaram cooptá-lo, se juntar a ele. Depois desapareceram e voltaram às suas velhas práticas. Então, acho que existe uma energia potencial que não foi acionada. Mas por causa dessa fragmentação e da ausência de uma mensagem, essa energia não é coerente e não se articula, como está acontecendo no Brasil.

Viomundo – - Como pode se dar essa articulação, a formulação de uma mensagem mais coerente?

RE – De certa forma, eu bem que gostaria de saber. Mas muitos de nós continuamos tentando responder essa pergunta. Para mim é uma questão de continuar reiterando certas mensagens. Existe um artigo recente a respeito da maneira com que os políticos que servem aos interesses corporativos estão usando a agenda social – como casamento gay e os direitos reprodutivos das mulheres — para dividir a oposição.

São boas causas, mas esses políticos dão ênfase a elas e ignoram ou até representam forças econômicas negativas. Conseguem que as pessoas votem contra seus próprios interesses porque ganham a lealdade delas nas causas sociais.

Então, acho que precisamos manter essas mensagens vivas. Infelizmente, se nada for feito, a pressão vai aumentar tanto que vai se tornar insuportável para as massas. No momento em que isso acontecer, existem várias possibilidades. Nem todas são muito atraentes. Uma delas é que as pessoas podem se virar para uma forma de política demagógica, como você viu aqui nesse país com o Tea Party, tipo super nacionalista, até mesmo potencialmente racista.

Ou poderemos ver a volta a algo mais dedicado à igualdade e justiça social e econômica. Podemos ainda ver o ódio, um ódio niilista. Os que, como eu, pensam que isso é um problema, têm a obrigação de preparar o caminho para a melhor reação possível, quando esse momento vier.





Viomundo – Na cultura norte-americana, existe um sentimento individualista muito forte. O mito de que todo mundo precisa se virar por conta própria, a ideia do desbravador do Oeste, a cobrança de que é preciso sair de casa com 17 anos, não importa a situação… Isso tudo dificulta um pouco a atuação em grupo para mudar a atual situação?

RE – Com certeza! Acho que você colocou o dedo na ferida. Falei rapidamente disso no artigo que você leu. Acho que não há dúvida que tem sido muito útil para certos interesses poderosos continuar reforçando esse mito cultural que diz que as pessoas não existem de forma coletiva, só existem no sentido individual.

A versão de Margareth Thatcher de que não existe sociedade, apenas indivíduos e famílias. Nos Estados Unidos, nós temos todo tipo de expressão e ícones culturais que dizem: você faz as coisas por conta própria.

O outro lado da moeda disso é que se você não pode pagar a prestação da sua casa, se não consegue arrumar um emprego que pague decentemente, então você é um derrotado. Essa sensação de vergonha e culpa cruel e excruciante, paralisa as pessoas, evita que elas ajam.

Acho que essa cultura da individualidade, nos Estados Unidos, é gigantesca. Mas a grande maioria das pessoas perdeu o poder de uma maneira que seria impensável, aqui mesmo, há cinquenta anos, quando tínhamos na presidência Dwight Eisenhower que, apesar de ser republicano e um general, uma figura militar considerada conservadora, mas não de extrema direita, estava bem à esquerda de Barack Obama e da maioria dos políticos democratas de hoje.

Na campanha pela reeleição, Eisenhower falou muito de aumentar a filiação aos sindicatos e incluir mais gente na fila dos programas sociais para que tivessem segurança financeira quando ficassem mais velhos ou ficassem impossibilitados de trabalhar por problemas de saúde.

Tínhamos uma visão social bem mais aguda durante o governo Eisenhower. 

Construímos um sistema federal de estradas de uma costa à outra. Tudo isso foi feito com o entendimento de que, apesar do nosso individualismo, existem também coisas que fazemos juntos, uns pelos outros e uns com os outros. Mas agora esse individualismo ficou acima de tudo. Acho que estamos vendo essa ideia de individualismo ser usada para realmente destruir o tecido social.

Viomundo – O senhor vê alguma conexão entre esse estado geral de coisas e o fato de os Estados Unidos serem o país que tem o maior consumo per capita de remédios para depressão?

RE – Bem, ainda somos os primeiros em algo! Somos muito competitivos, você sabe… (ele ri). Nós temos uma doença coletiva para a qual estamos procurando cura individual. E o consumo de antidepressivos se adequa muito bem a isso.

Se você faz tudo o que sua cultura diz que deveria lhe fazer feliz mas isso está deixando você péssimo, essa escravidão à necessidade de consumir produtos, que deveria lhe trazer conforto mas não traz, se você faz o que a sociedade diz que faria de você uma pessoa bem sucedida e está fracassando, não tem como interpretar isso a não ser como uma doença individual. Se isso não está te realizando, você deve estar doente — e temos uma pílula para isso.

O consumo de remédios é uma saída lógica para isso. Aliás, se você estudar a ciência e a economia da indústria farmacêutica neste país, é um exemplo perfeito de como nosso modelo corporativo está se infiltrando em todos os aspectos da nossa cultura.

É bastante chocante ver quão fracas são as provas da eficácia dos remédios psiquiátricos para muitas pessoas. Mas o processo é controlado pelas corporações que fabricam os remédios. Então temos centenas de milhares de médicos neste país que acreditam que estes remédios são eficazes com base em provas bastante duvidosas.

Até mesmo a editora do New England Journal of Medicine, que foi médica, disse que não acredita em nenhum estudo sobre remédios feito neste país porque são financiados pelas empresas farmacêuticas e eles são divulgados seletivamente.

Então, é chocante constatar como os lucros corporativos se infiltraram em tudo, nas nossas publicações, na nossa vida profissional. Some-se a isso esse fracasso do modelo de busca de prazer consumista individual e o resultado é uma porção de gente tomando antidepressivos.

Viomundo – Diante desse controle cada vez maior do estado, evidenciado pelas denúncias de Edward Snowden a respeito do programa de espionagem da NSA (Agência de Segurança Nacional), da concentração de riqueza nas mãos de um número cada vez menor de grandes empresas, que influenciam a política de forma decisiva, você ainda é otimista a respeito da possibilidade de mudar esse estado de coisas. Por que?

RE – Claro que existe maneira de lutar contra tudo isso. E não seria a primeira vez na história que uma enorme e poderosa máquina foi derrubada. Existem meios. 

Tenho um amigo que é economista e acaba de vir de uma reunião na Europa. Foi uma reunião de 100 líderes da indústria bancária mundial para falar da indústria deles, do que pode ser modificado, etc. Perguntei qual era o clima por lá. Ele me disse que estão “aterrorizados”.

Muitas das pessoas contra as quais nos sentimos impotentes vivem em um estado permanente de medo porque podem ler as estatísticas econômicas tão bem quanto nós. Podem ver o aumento da desigualdade da riqueza entre o 1% e os 99% e entre o 0,1% e o 0,99%.

Até mesmo entre os super-ricos existe uma disparidade enorme. Eles sabem que 400 famílias têm a fatia do leão do poder econômico dos Estados Unidos. Isso é tão visível para eles como é para qualquer pessoa. A história nos mostra que os sistemas de distribuição enormemente injustos são instáveis.

Então, fiquei surpreso quando ele me respondeu isso. Mas depois pensei bem e faz sentido. Por isso o Occupy os assustou tanto e eles reuniram todas as forças disponíveis para marchar contra o Occupy. Acho que eles realmente têm medo do povo se virar contra eles. Acho que essa é uma possibilidade bastante concreta. Eu gostaria que acontecesse de forma justa e humana e não violenta.

Quando escrevi sobre isso, sobre os bancos e tudo isso, recebi comentários no meu blog dizendo que a única maneira de lidar com essas pessoas [os banqueiros] é com uma corda, com a forca. É preciso parar com isso. Esse é o meu medo. Acho que é o que eles temem, também. Acho que existem meios pacíficos de lidar com isso e a história americana tem precedentes nessa área.

Fizemos isso nos anos 30. Com Franklin Roosevelt tínhamos um sistema extremamente injusto e instável e mudou de forma bastante pacífica. Esse novo modelo funcionou, mal ou bem, por quase 50 anos. Então acho que esse é o tipo de mudança que devemos promover. Talvez haja algo ainda melhor que isso. 

Mas a ideia de que pode haver violência, é o que está deixando muita gente com medo. Se você diz que é impossível parar a máquina, acho que a melhor resposta é que os poderosos não acham isso.




Viomundo — Mesmo assustados e com medo, eles continuam investindo uma fábula no Congresso para impedir a adoção das leis que tem por objetivo reformar o sistema financeiro. Separar novamente bancos comerciais e bancos de investimento, combater os paraísos fiscais, etc. Dinheiro que poderia resolver todos os problemas do país. Se eles têm tanto medo, talvez não devessem investir tanto dinheiro para evitar essas reformas.

RE – É verdade. Mas acho que eles estão chegando a um ponto em que estão começando a agir contra os interesses deles mesmos ao serem tão gananciosos.

Você sabe, havia um chefe de uma tribo indígena americana que ouviu de seu povo a seguinte pergunta a respeito do homem branco: por que eles rompem todos os acordos que fazem conosco? O amor ao dinheiro é uma doença deles, respondeu o chefe.

Acho que o amor ao dinheiro é mesmo uma doença, um vício que eles não podem cortar, mesmo quando sabem que é ruim para eles. Então o medo aumenta, mas o vício também aumenta, a riqueza deles aumenta e estão em uma rota de colisão com a história. Acho que eles sabem disso.

Eles estão enfraquecendo ainda mais a Dodd-Frank [a lei de reforma do sistema financeiro que entrou em vigor em 2010, nos Estados Unidos]. Ela já era uma reforma fraca que fez algumas mudanças importantes, mas longe do que realmente precisamos. Estão resistindo às outras reformas bancárias. 

Certamente ficaram muito chateados com a proposta Warren-McCain que é bastante razoável e propõe restabelecer as proteções da lei Glass-Steagall [que separava bancos comerciais de bancos de investimento [e foi derrubada durante o governo Clinton] que funcionou tão bem, por tantos anos.

Mas eles vivem em um sistema que precisa dar resultados a cada trimestre. É assim que eles são remunerados, valorizados. Quando você vive nesse sistema trimestral não pode, por exemplo, construir um sistema bancário sólido para uma economia estável no futuro porque será demitido e substituído pelo cara que consegue melhores resultados no próximo trimestre.

Para ter melhores resultados no próximo trimestre, você precisa derrubar todas as leis que por ventura estejam no seu caminho. Tem que derrubar qualquer movimento político que esteja no seu caminho. Esse ciclo louco, sempre acelerado de lucros em espaços de tempo cada vez menores, ganância e ausência de leis… ainda tem de garantir a existência de políticos eleitos que não permitam que você seja punido por ter desrespeitado as leis… e assim por diante.

É por isso que muita gente se pergunta se é possível parar essa máquina. Mas eu acho que deveriam perguntar quanto tempo mais essa máquina pode funcionar dessa maneira, antes que exploda.

Viomundo – E leve todos nós junto…

RE – Claro, e eles também. Por isso acho que existe essa mentalidade de “vamos arrancar todo lucro possível agora, enquanto podemos o mais rápido possível e torcer para que possamos assegurar uma moradia em Doha ou em alguma ilha antes que a merda bata no ventilador”. Quando perguntam como brigar contra essa máquina você tem que partir do princípio de que ela não é invencível, em primeiro lugar.

Em segundo, ver que ela possui defeitos estruturais que a fazem acelerar constantemente até que exploda. 

E se preparar, ficar pronto para, no momento que ela explodir, dar uma resposta pacífica com propostas para o futuro e não com raiva e violência niilista. É com isso que eu me preocupo.

Link:

http://www.viomundo.com.br/denuncias/executivo-de-wall-street-que-virou-blogueiro-diz-a-que-maquina-pode-explodir.html

Antônio David: O Lulismo e o seu potencial transformador!

Antônio David: Solução brasileira ou islandesa? - do Viomundo





Vladimir Safatle é um dos intelectuais de esquerda mais eruditos e agudos da atual geração.

Em sua coluna para a Folha de S. Paulo (2/7), Safatle escreveu:

 ”/…/ a única ideia sensata depois de semanas de ações paliativas para aplacar as manifestações populares foi a proposta de uma constituinte da reforma política capaz de colocar em questão todo o sistema atualmente em funcionamento. A ideia era tão sensata que foi abandonada em menos de 24 horas.

 No seu lugar, ficou um plebiscito canhestro, em que a população será chamada a responder perguntas que ela não colocou. Ou alguém imagina que o povo brasileiro foi às ruas para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual? Há algo de piada de mau gosto nesse tipo de manobra”.

 Entretanto, essa não foi a primeira vez em que Vladimir Safatle expõe o que pensa sobre o instrumentoplebiscito. Em seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome (Três Estrelas, 2012), ao tratar da soberania popular – que ele entende ser um dos pilares do programa da esquerda –, Safatle discute o episódio do golpe de Estado em Honduras ocorrido em 2009, cuja motivação imediata foi a iminente realização de um plebiscito, contra o qual as elites locais se insurgiram:

“O plebiscito é simplesmente a essência fundamental de toda vida democrática, e falar em “golpe plebiscitário” é uma das maiores aberrações que se possa imaginar. O dia em que um plebiscito equivaler a um golpe de Estado, então nossa noção de democracia estará completamente esvaziada. Ela perderá todo o seu valor”. (p. 56)

Claro está que, para Safatle, o povo brasileiro não foi às ruas para reivindicar o que a presidente Dilma propôs como temas do plebiscito. Supostamente, nisso estaria a diferença entre o plebiscito de Honduras e o plebiscito atualmente em debate no Brasil.

Mas, afinal, se o povo não foi às ruas “para decidir se as eleições teriam lista fechada ou aberta, voto distrital ou estadual”, o povo foi às ruas para reivindicar o quê?
Não seria necessário recorrer às pesquisas de opinião, embora essas também mostrem o que todos nós vimos nas ruas. De um lado, melhora radical nos serviços públicos; de outro, combate à corrupção.

Se assim é, então não se trata de saber se o povo colocou as questões propostas para o plebiscito, mas sim de saber se as questões propostas para o plebiscito tocam nos problemas concretos que motivaram o povo a ir para as ruas. Creio que sim, pelos motivos a seguir.

Em primeiro lugar, a não ser que concordemos com o editorial do Estadão (4/7) – porta-voz da classe média tradicional e da burguesia paulistas – para o qual “a corrupção não resulta dessas ou daquelas normas eleitorais e partidárias, mas da falta de escrúpulos dos beneficiários dos malfeitos”, seremos obrigados a dizer que a corrupção não se reduz a mera questão moral; é estrutural e sistêmica.



É evidente que as questões propostas para o plebiscito não acabarão com a corrupção, cuja raíz é histórica, vem de nosso passado colonial, e persiste em última instância na abissal desigualdade existente no Brasil.

Mesmo assim, a corrupção é favorecida por um determinado sistema político e eleitoral, e são mecanismos-chave desse sistema que serão postos à prova no plebiscito. Talvez não tocará em todos, nem nos mais importantes, mas certamente tocará em parte deles.

Em segundo lugar, se realizado da forma como foi proposto pelo Planalto, o plebiscito tocará não apenas na corrupção, mas também na lógica da governabilidade.

Ora, se a população foi às ruas para exigir uma radical melhora nos serviços públicos, não é exatamente a lógica de governabilidade, com seus constrangimentos e enquadramentos, que impede o governo de concretizar tal melhora?

Não é por outro motivo que a governabilidade mereceu a crítica de Vladimir Safatle em seu livro:

“Como se a governabilidade justificasse a acomodação final da esquerda nacional a uma semidemocracia imobilista, de baixa participação popular indireta e com eleições em que só se ganha mobilizando, de maneira espúria, a força financeira com seus corruptores de sempre”. (p. 14)

Acaso não é exatamente a “força financeira” dos “corruptores de sempre” que está em jogo com o financiamento público de campanha? Aqui, novamente: com o plebiscito, não se trata de dar o golpe final na força financeira dos corruptores de sempre, mas um golpe importante.

Não é a toa que a direita está em campanha aberta contra o plebiscito. A tese de que o plebiscito é“cortina de fumaça para encobrir problemas do país” já está na boca da classe média.

E nós, o que devemos fazer? Da parte da esquerda, há maneiras e maneiras de criticar o plebiscito e suas limitações. Uma maneira que me parece inteligente é fazer como Valter Pomar, dirigente do PT, ou como fez Ivan Valente, presidente nacional do PSOL. Disputar o conteúdo do plebiscito, sem deixar de tomar parte na disputa real: o plebiscito deve acontecer.

Entretanto, para Safatle, o plebiscito “canhestro” teria vindo como uma compensação “de mau gosto” pela retirada da proposta da Constituinte. Aqui entra a “solução islandesa”.

Solução islandesa

Em seu artigo na Folha de S. Paulo, Safatle escreve:

“Assim como o povo brasileiro, o povo da pequena Islândia um dia descobriu que estava em crise de representação”.

Safatle discorre em seguida sobre o processo constituinte da pequena Islândia, para então concluir:

“Se alguém realmente ouvisse a população em nossos governos, a solução islandesa seria aplicada e as propostas de reforma política sairiam de fóruns de participação direta pela sábia mão do acaso. Isso, entretanto, seria pedir demais para quem, no fundo, tem medo das massas”.

Mas será que o problema pode mesmo ser reduzido a “medo das massas”?

Este artigo não parece ter sido escrito pela mesma pessoa que, poucos meses antes, escreveu:

“[A esquerda] deve ser capaz de detalhar ao máximo suas ações e os cenários possíveis que essas engendrariam. Ela deve mostrar estar ciente das dificuldades e da melhor maneira de vencê-las, isso sem ter que apelar para ideias vagas como ‘tudo se resolve por meio da vontade política’” (A esquerda que não teme dizer seu nome, pp. 16-17).

Não seria o “medo das massas” uma “ideia vaga” tanto quando “tudo se resolve por meio da vontade política”?

É desnecessário cansar o leitor deste artigo com dados comparativos, que só comprovariam o óbvio: Islândia e Brasil não são a mesma coisa. Mesmo assim, talvez seja útil o esforço de responder à pergunta: Por que a solução islandesa não foi adotada?

A solução islandesa foi posta à mesa, mas logo foi retirada. Por que foi posta, e por que foi retirada? A razão reside no fato puro e simples de que o governo Dilma tem “medo das massas”, ou residiria em outro lugar?

A resposta a essa pergunta talvez seja a chave para compreendermos os reais impasses do lulismo.



Classes e suas frações

Até aqui, temos adotado a narrativa de Safatle: “o povo foi às ruas…”. 

Ocorre que quem foi às ruas não foi o “povo”, em abstrato. Talvez o coro em uníssono contra a corrupção e o verde-amarelismo tenham criado a impressão de uma pasteurização.

Contudo, saíram às ruas duas frações de classe bem definidas, cujos interesses são antagônicos: de um lado, uma parcela do proletariado – jovens trabalhadores, que ascenderam socialmente através do ensino e hoje, encontrando-se submetidos a condições de trabalho no setor de serviços com alta rotatividade e estimulados ao consumo, vivem sob forte tensão; de outro, a classe média tradicional – profundamente reacionária. 

Aquela quer mais conquistas, mais direitos, melhores condições de vida e de trabalho. Essa quer os “mensaleiros” na cadeia. De certa forma, uma e outra almejam o exato oposto para o Estado brasileiro.

Será que algumas dessas frações de classe saiu às ruas para reivindicar “fóruns de participação direta”, como Safatle supõe? É certo que o tom antipartido das manifestações fez parecer haver uma demanda por democracia direta. 

Porém, se a tônica das manifestações era “contra os partidos e os políticos”, pesquisa feita em São Paulo mostrou que mais de 50% dos manifestantes têm candidato para 2014: Joaquim Barbosa e Marina Silva. 

Contra os partidos, pessoas.



Para tornar o quadro mais complexo, uma parcela majoritária da classe trabalhadora não saiu às ruas. A fração que André Singer chama de subproletariado (a base social e eleitoral do lulismo) ficou em casa vendo os protestos pela televisão. 

Possivelmente com alguma desconfiança. 

Essa fração de classe, como mostra André Singer em seu livro Os sentidos do lulismo (Companhia das Letras, 2012), rejeita a radicalização política. E tem razões para tal.

O governo acertou em associar a rejeição à corrupção expressa nas manifestações com a Constituinte Exclusiva. Pesquisa do Datafolha mostrou que 73% dos brasileiros apoiaram a proposta. Por que o governo recuou? Por que a mídia faria campanha contra? Por que, ao cabo, o Congresso e o STF derrubariam-na? Isso tudo é verdade, mas é apenas parte da verdade. O governo recuou justamente porque está olhando para as classes sociais.

Talvez o governo tenha percebido que estes 73% que declararam apoiar a proposta não se converteriam em mobilização de massa, pois o que motiva os manifestantes a ir para as ruas são os fins, não os meios, e não há nenhuma fração de classe disposta a ir para as ruas pela Constituinte. Exceto se houvesse radicalização política.

Fez-se um cálculo: de um lado, apostar na Constituinte, e, exceto se houvesse radicalização política, correr o alto risco de perder a oportunidade aberta pelas manifestações; de outro lado, apostar no plebiscito, cujo risco parece ser menor. A opção, à maneira do lulismo, foi pelo menor risco e sem radicalização.

Ao cabo, para avaliar se o governo errou ou acertou em retirar a proposta (ou em tê-la colocado antes), só há um critério: que classes e frações de classe dariam sustentação para a proposta, e que classes e frações de classe combateriam a proposta?

É impossível responder com certeza a tais perguntas, mas é possível e necessário fazer cálculos, “detalhar ao máximo suas ações e os cenários possíveis que essas engendrariam”. 

Se o governo errou ao recuar, não é porque procura seguir à risca este princípio?

Mas isso não esgota o problema, pois tal raciocínio parte de um pressuposto: evitar a radicalização política. Portanto, ele apenas evidencia a ponta do iceberg. Diante de tal raciocínio, alguém poderia objetar: “O governo deveria manter a proposta de Constituinte! A classe trabalhadora daria apoio à proposta! Basta investir na radicalização! O governo recusa a radicalização e o enfrentamento em seus cálculos políticos!”.

Justo. O governo poderia apostar nesse caminho: o caminho da radicalização política

Por que não aposta? Porque o lulismo guarda em si um paradoxo.



O paradoxo do lulismo

A classe trabalhadora brasileira não é um todo homogêneo. Possui frações. 

Além do proletariado fabril, cujo paradigma é o metalúrgico, há uma nova classe trabalhadora, predominantemente jovem, que ascendeu via ensino superior privado, que consome mais, tem maiores expectativas, mas não enxerga perspectivas de futuro no mercado de trabalho. Por isso, vive sob tensão. E as ruas mostraram que essa tensão pode ser canalizada tanto pela esquerda como pela direita.

Por outro lado, há uma outra fração da classe trabalhadora, muito superior em tamanho, que ainda vive em condições de pobreza e miséria, e que constitui a principal base social e eleitoral do lulismo.

Segundo André Singer, essa fração quer mudanças, mas possui um traço conservador: rejeita a radicalização política, pois associa o tumulto social ao desemprego e à carestia. 

Para mantê-los a seu lado e favorecê-los, a estratégia dos governos Lula e Dilma consiste em evitar a radicalização. De fato, este setor tem sido beneficiado: a pobreza e a desigualdade estão caindo – o traço conservador está na lentidão do processo.

Mas há aqui um paradoxo.

O governo tem razões para evitar a radicalização política: a radicalização suscitaria crises, instabilidade, fuga de capitais etc., o que tenderia a elevar o nível de desemprego e a afetar diretamente o subproletariado. 

Nessa situação, além do risco de ver bloqueado o processo (lento) de redução da pobreza – o qual depende do Estado e, portanto, dá-se necessariamente no interior de uma correlação de forças adversa, tendo de haver-se com a lógica da governabilidade –, essa fração de classe provavelmente enxergaria na direita uma alternativa política, como fez em 1989, 1994 e 1998, quando deu a vitória para Collor e FHC; some-se a isso o fato de que hoje a classe média tradicional é, dentre todas as classes, aquela que está se sentido mais prejudicada e tem maior força de ânimo para ir às ruas manifestar seu descontentamento com pitadas de protofascismo, como já ocorreu outrora na história do Brasil.



Porém, na medida em que viabiliza a ascensão social dos de baixo, a estratégia precisa cada vez mais fazer enfrentamentos, pois a continuidade da ascensão depende de reformas estruturais, a começar pela melhora radical dos serviços públicos.

Além disso, precisa viabilizar a organização e a mobilização da nova classe trabalhadora, caso contrário essa fração de classe poderá optar por alternativas conservadoras. Se a nova classe trabalhadora pender para a direita, não se trata de perder apenas o governo nas urnas. É o processo em curso de combate à pobreza e à desigualdade que será bloqueado.

Dito isso, o impasse da estratégia do lulismo pode ser colocado nestes termos: de um lado, o lulismo precisa evitar a radicalização, não só por razões eleitorais, mas também por razões econômicas: a radicalização provavelmente paralisaria o governo, enquadrado que está pelo Congresso e pelo Judiciário, e provavelmente elevaria o desemprego, fazendo voltar a aumentar a desigualdade; de outro, é necessário preparar-se para a radicalização, pois, na medida em que os trabalhadores ascendem, a radicalização torna-se inevitável.

É lugar comum a constatação de que o lulismo é a estratégia da acomodação, do amortecimento; mas essa é uma meia verdade. 

Pois, na medida em que o tempo passa, a estratégia do lulismo alimenta cada vez mais o conflito, cria condições cada vez mais favoráveis para a luta. Eis o paradoxo. 

Prova disso é o ascenso de greves operárias em curso atualmente, relacionado não à piora no mercado de trabalho, mas justamente ao oposto, permitindo inclusive que mais de 95% dos reajustes salariais situem-se acima da inflação.

Contraditório, o lulismo envolve um pacto conservador ao mesmo tempo em que guarda em si uma vocação igualitarista. Mas suas promessas de igualdade só poderão ser realizadas se o lulismo tiver força para superar-se, ultrapassar o paradoxo inscrito nele mesmo. Terá? Invejo os que têm capacidade de dizer categoricamente “sim” ou “não” – mas desconfio que estão todos blefando.



A raíz do paradoxo

Qual é a origem do paradoxo?

Em outro artigo publicado recentemente, O tempo do esgotamento (Carta Capital, maio/2013) Safatle afirma que “o ciclo do ‘lulismo’ acabou por não ter tido condição de aprofundar suas políticas”. O ciclo de fato acabou?

Toda sociedade é dividida. A sociedade brasileira também é, mas com uma diferença: nossa sociedade é muito dividida. A Islândia, com seus 350 mil habitantes e Índice Gini de uma sociedade com elevadas condições de vida, é um bom exemplo do que o Brasil não é. Na verdade, o Brasil figura entre os países mais desiguais do mundo. O exato oposto da Islândia.

Ao afirmar que o ciclo do lulismo acabou, é essa enorme divisão que Safatle perde de vista. Aqui novamente não vou cansar o leitor com números, embora devesse. Não é raro ler e ouvir que o subproletariado não existe; há ainda aqueles que reconhecem a existência dessa fração de classe, mas que atribuem a ela o que na verdade faz parte do proletariado. Estou falando do curioso fenômeno da invisibilidade do subproletariado. Mas este é assunto para outro momento.

Por ora, basta lembrar que, segundo dados do IBGE de 2011, dos brasileiros em idade ativa, 23,6% ganham até 1 salário mínimo, e 22,4% ganham de 1 a 2 salários mínimos. 

Ainda há uma parcela da população brasileira –  quase metade da população – que vive abaixo da condição proletária, sem condições de participar da luta de classes.

Se o principal instrumento de combate à pobreza e à desigualdade no lulismo é o salário mínimo, que nos últimos dez anos teve ganho superior a 70% acima da inflação, cabe a pergunta: acaso a política de valorização do salário mínimo esgotou-se?

Há outros números sobre a classe trabalhadora e medidas do governo Dilma que poderiam ser evocados para comprovar que o processo de redução da pobreza, cujo foco é o subproletariado, ainda está em curso, nos marcos do lulismo

Não vou fazê-lo, primeiro porque estão disponíveis a quem tiver interesse em saber, segundo porque de nada serviriam.

Meu objetivo não é desmentir a constatação feita por Safatle de que as políticas não foram aprofundadas. Essa é uma verdade. É parte do paradoxo. Ocorre que não é toda a verdade, mas apenas parte dela. O erro ocorre quando se confunde a parte com o todo.

Ao amparar-se nessa constatação a fim de sustentar que o lulismo esgotou-se, Safatle está olhando apenas para o proletariado e ignorando solenemente a existência do subproletariado. Olha para uma parte da realidade, e ignora outra. 

Ora, se a esquerda precisa ter a coragem de dizer seu nome, ela precisa antes saber para quem almeja dizer. Não pode ignorar a parcela majoritária da classe trabalhadora!



A sociedade brasileira é tão desigual que o proletariado no Brasil não é a base da pirâmide, mas um estrato intermediário.

Há ainda um complicador adicional. Se o lulismo surge na opção pelos mais pobres, ou seja, se o projeto lulista consiste em “favorecer o subproletariado” (André Singer, Os sentidos do lulismo, p. 165), é forçoso ver que o lulismo emerge como uma resposta àquele que, para Safatle, é nada menos do que “o principal problema que acomete a esquerda atual”:

“/…/ o principal problema que acomete a esquerda atual é sua dificuldade em ser uma esquerda popular. Isso significa duas coisas: saber expor problemas sociais a partir da perspectiva dos que são mais vulneráveis a eles e, sobretudo, ser um enunciador crível para tais camadas populares”. (A esquerda que não teme dizer seu nome, p. 16)

Ora, o lulismo surge do movimento de aproximação do PT, num primeiro momento, e do governo Lula, num segundo momento, junto aos mais pobres, aos “mais vulneráveis”. 

Foram eles que pautaram o PT e o governo, não o oposto. É porque está organicamente ligado a eles que o PT e o governo evitam a radicalização, não o oposto

Aliás, os “mais vulneráveis” – dezenas de milhões –, não foram para as ruas.

A origem do paradoxo do lulismo reside, pois, em nosso atraso histórico. Esse atraso expressa-se na profunda divisão da sociedade brasileira. Nossa sociedade não é apenas dividida; é muito dividida. Talvez o problema maior do governo não está no fato de o lulismo ser alvejado pela classe média e enquadrado pela burguesia, mas no fato de encontrar-se prensado entre duas frações da classe trabalhadora, e no fato de não poder rifar nenhuma delas.

Para se ter dimensão do problema, já em 1981 – num texto em que, assim como Safatle, Florestan procura ultrapassar a dicotomia entre Reforma e Revolução – Florestan Fernandes escreve: “[a burguesia brasileira] teme a massa (dos pobres) e a classe (dos trabalhadores), mas possui um medo ainda maior da conjunção e união das duas entre si”.

Trinta anos depois, o problema persiste. A diferença é que agora foi evidenciado.

Como enfrentar o paradoxo? Não ouso oferecer respostas. Essa é a questão central, para a qual toda esquerda deve procurar respostas. Arrisco apenas uma afirmação: o governo precisa acelerar a incorporação do subproletariado ao proletariado.



Do tempo das ideias

Salvo raras exceções, os intelectuais de esquerda vêem só um dos lados do paradoxo: ou bem constatam a impossibilidade de radicalização; ou bem constatam a necessidade de radicalização. 

Os primeiros costumam ficar na defensiva, olhando para o retrovisor, como se pudessemos viver das conquistas que já tivemos; os outros costumam idealizar a realidade, dando como líquida e certa a vitória, desde que tenhamos um governo verdadeiramente de esquerda. Ambos vêem a verdade, ou uma parte dela. O problema está em tomar o todo pela parte.

O problema precisa ser encarado de todos os lados. O ponto é que há razões para evitar a radicalização, ao mesmo tempo em que há razões para investir na radicalização. A análise que se limita a um ou outro aspecto pode render aplausos ou vaias (depende do público), mas equivale a fugir do problema real. E fugir só concorre para a “petrificação do discurso” (p. 15).

Vladimir Safatle é um intelectual inteligente. Seu livro A esquerda que não teme dizer seu nome é uma das poucas obras da última década que consegue ultrapassar essa dicotomia. Por isso é leitura obrigatória.

Contudo, no artigo aqui discutido, Safatle incorreu num grave erro. 

Ao invés de analisar a situação da perspectiva das classes, ele o fez da perspectiva de um abstrato “povo brasileiro”, como se o povo fosse um todo homogêneo, quando na verdade é recortado de cima a baixo por conflitos e divisões.

Ignorando as divisões de classe existentes em nossa sociedade e a maneira como cada fração de classe se situa na atual conjuntura, bem como as reais motivações e inclinações de cada fração neste momento e suas tendências, partindo do pressuposto da existência de um povo homogêneo em busca da “participação direita”, a conclusão não poderia ser outra: ao invés de uma proposta de síntese, Safatle ofereceu uma lição de moral. 



Para a esquerda democrática, que historicamente “não sabe como governar e intervir nas tendências da governabilidade” (p. 74), não é um bom aprendizado.

A questão toda está em saber como enfrentar o paradoxo do lulismo, imposto pelo atraso histórico de nosso país, expresso numa divisão social abissal, e que com o lulismo finalmente veio à tona. 

Enfrentar o paradoxo equivale a propor sínteses. Pressupõe uma leitura do Brasil. 

Exige uma solução brasileira.

Antônio David  é pós-graduando em filosofia na USP

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