Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

sábado, 23 de novembro de 2013

Governo Dilma criou mais de 4,8 milhões de empregos formais!

Número de empregos cresce 3,7% no acumulado do ano, segundo Caged de outubro

Entre Janeiro de 2011 e Setembro de 2013, tinham sido criados 4,7 milhões de empregos formais no Brasil. Agora, com os números de Outubro, já passam de 4,8 milhões de novas vagas com carteira assinada. 

Dados do Ministério do Trabalho mostram aumento de 0,23% no número de empregos formais em relação a setembro, com geração de 94 mil postos de trabalho

O número de empregos formais registrados no mês de outubro cresceu 0,23% em comparação com o mês de setembro deste ano, segundo dados divulgados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), nesta quinta-feira (21). De acordo com o Ministério do Trabalho, foram 94.893 empregos gerados neste período, o que aponta um maior dinamismo no mercado de trabalho formal.
O total de admissões no mês de outubro de 2013 atingiu 1.841.106 e o de desligamentos alcançou 1.746.213, ambos os maiores para o período. No acumulado do ano, o emprego cresceu 3,70%, representando o acréscimo de 1.464.457 postos de trabalho. Nos últimos 12 meses, o aumento foi de 1.036.889 postos de trabalho, correspondendo à elevação de 2,59%.
O desempenho favorável do mês de outubro é explicado pela expansão de seis, dos outros setores de atividades econômicas, com cinco deles evidenciando saldos superiores frente a outubro de 2012, Os principais setores responsáveis pela geração de empregos em outubro foram Comércio (52.178), Serviços (32.071) e Indústria de Transformações (33.474), este último com destaque por ter apresentado o melhor resultado dos últimos três anos. No setor da Agricultura, por motivos sazonais, houve uma perda de 22.734 postos e a Construção Civil registrou uma redução de 2.152 postos.
Em termos geográficos, todas as grandes regiões do país expandiram o nível de emprego, com quatro apontando para dados superiores ao verificados no mesmo período de 2012. No Nordeste foram gerados 40.334 postos, com destaque para o terceiro maior saldo para o período. Na região Sul foram 29.793 postos, no Sudeste 15.789, no Centro-Oeste 1.666 (melhor resultado da região nos últimos três anos) e no Norte com 1.590 postos.
Na análise por estados Alagoas apresentou um aumento de 4.65% em relação ao mês de setembro, com a geração de 15.953 postos de trabalho. Em seguida estão os estados de São Paulo, com 12.854 postos e Santa Catarina, com 12.050 postos.
Entre as vinte e sete Unidades da Federação, vinte e uma delas elevaram o nível de emprego, com três registrando recorde, cinco apontando o segundo maior saldo e uma registrando o terceiro melhor desempenho. Os destaques positivos foram: Alagoas, com 15.953 postos saldo recorde, devido às atividade relacionadas ao complexo sucroalcooleiro, São Paulo: +12.854 postos e Santa Catarina: 12.050 postos, saldo maior que o verificado em outubro de 2012 (8.969 postos).
Além de Alagoas, os dois estados que mostraram desempenho recorde para o período foram: Sergipe 4.993 postos e Mato Grosso: 1.049 postos. Os principais estados que obtiveram o segundo melhor resultado para o mês de outubro foram: Ceará (6.789 postos), Maranhão (3.563 postos), Piauí (2.604 postos), Mato Grosso do Sul (2.302 postos ) e Tocantins (795 postos ). O estado que obteve o terceiro melhor resultado foi o Amazonas (4.440 postos) .
De 2011 a outubro de 2013 o Ministério do Trabalho já registrou mais de 4,854 milhões de postos de emprego.
Fonte:
Ministério do Trabalho
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Governo federal arrecada R$ 20,8 bilhões com concessões de Galeão e Confins!

Consórcio Aeroportos do Futuro arremata Galeão por R$ 19 bilhões

22/11/2013 - 11h54 - Daniel Mello - Repórter da Agência Brasil
São Paulo – O consórcio Aeroportos do Futuro arrematou na manhã de hoje (22) a concessão do Aeroporto Internacional Antonio Carlos Jobim/Galeão, no Rio de Janeiro, com um lance de R$ 19 bilhões. Os direitos de ampliação, manutenção e exploração do Aeroporto Tancredo Neves, em Confins, na região metropolitana de Belo Horizonte foram arrematados pelo consórcio Aerobrasil por R$ 1,82 bilhão. O Galeão recebeu cinco lances na primeira fase do leilão, sendo que a melhor proposta acabou mantida na etapa de lances a viva voz.
Confins recebeu três propostas na etapa de lances por escrito, a maior chegou a R$ 1,4 bilhão, feito pelo mesmo consórcio que acabou vencendo o leilão. As empresas do Aerobrasil tiveram, no entanto, que melhorar a proposta para conseguir arrematar o leilão na disputa em viva-voz.
O consórcio Aliança Atlântica, deu duas novas propostas durante a última fase do leilão, chegando a oferecer R$ 1,8 bilhão pelo aeroporto. O lance mínimo para o terminal mineiro era R$ 1,09 bilhão. Para o Galeão, o lance mínimo era R$ 4,82 bilhões.
Edição: Marcos Chagas
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Haddad desmente 'Folha' sobre repasse de informações à Polícia Civil!

Haddad desmente 'Folha' sobre repasse de informações à Polícia Civil - da Rede Brasil Atual, 22/11/2013

Prefeito rebate: 'Como nós teríamos chegado ao sucesso da operação, sem a parceria com a Polícia Civil? É uma possibilidade ilógica'

São Paulo – O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad (PT), negou que a prefeitura tenha omitido informações à Polícia Civil sobre a Máfia do ISS, responsável por desviar até R$ 500 milhões dos cofres municipais, como informou o jornal Folha de S. Paulo na edição de hoje (22). Segundo a reportagem, a “polícia” estuda ir à Justiça para obter as informações e já teria aberto 12 inquéritos paralelos.
“Nós encaminhamos em parceria com o Ministério Público todo e qualquer indício de irregularidade. O que eu não posso mandar é um estudo preliminar sobre pessoas que sequer tinham sido investigadas”, disse Haddad.
Na reportagem, o delegado José Eduardo Jorge, titular da 2ª Delegacia de Crimes contra a Administração, afirma que a polícia pede informações à prefeitura há seis meses, desde que o procurador-geral do município, Mário Spinelli, disse em entrevista à revista Veja que havia servidores sendo investigados. Jorge chega a afirmar que teve a sensação de que “alguém queria omitir alguma coisa da Polícia Civil”.
Haddad disse ser um equívoco da reportagem tratar um delegado como se falasse por toda a Polícia Civil e rebateu a acusação. “Tudo foi feito com a participação do Ministério Público. Tudo foi feito com o conhecimento da Secretária de Segurança Pública”, disse.
O prefeito demonstrou insatisfação com a repercussão da investigação e disse que está sendo feito o "jogo do bandido". “O que me chateia é que um trabalho tão bem feito e inédito em parceria da prefeitura e do Ministério Público seja maculado pela vaidade de uma pessoa. Em vez de a gente estar celebrando o combate à corrupção e o êxito das investigações, nós estamos levando para a sociedade uma questão menor”, disse.
“Como nós teríamos chegado ao sucesso da operação, sem a parceria com a Polícia Civil? É uma possibilidade ilógica”, afirmou.
Ao ser questionado se haveria uma tentativa de desvio proposital da investigação em função do envolvimento de policiais civis, Haddad afirmou haver um citado nas gravações, mas que isso não tem relação com as afirmações de Jorge.
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Taxa de desemprego de Outubro é a menor da série histórica para o mês, diz IBGE!

Taxa de desemprego de outubro é a menor desde dezembro de 2012

21/11/2013 - 9h40
Vitor Abdala - Repórter da Agência Brasil
Rio de Janeiro – A taxa de desemprego ficou em 5,2% em outubro deste ano, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgada hoje (21) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa é a menor taxa desde dezembro de 2012, que havia sido de 4,6%.
O índice é também inferior ao registrado em outubro de 2012 (5,3%). Em setembro deste ano, a taxa havia sido de 5,4%. Os contingentes de pessoas empregadas (23,3 milhões de pessoas) e desempregadas (1,3 milhão) em outubro deste ano mantiveram-se praticamente estáveis em relação ao mês anterior e a outubro de 2012.
O número de trabalhadores com carteira assinada no setor privado (11,9 milhões) ficou estável em relação a setembro, mas cresceu 3,6% na comparação com outubro do ano passado.
Entre as categorias profissionais, a única queda na oferta de postos de trabalho, na comparação com outubro de 2012, foi observada entre os serviços domésticos (-8,6% ou 127 mil postos de trabalho).
Edição: Marcos Chagas
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Concessão e Privatização: Afinal, qual é a diferença? - por Rafael Patto!

Concessão e Privatização: Afinal, qual é a diferença? - por Rafael Patto, da sua página no Facebook



Pessoas do PSDB e da imprensa tratam a concessão dos aeroportos como se fossem uma medida igualzinha às privatizações tucanas.

O governo lesa-pátria de FHC vendeu a Vale do Rio Doce por 3 bilhões de reais.

A vale, que era uma empresa pública, rentável, pertencente ao povo brasileiro, detentora da maior reserva de minério de ferro do planeta, estratégica para o nosso desenvolvimento, foi transferida para a iniciativa privada por apenas 3 bilhões de reais. E isso é para sempre! A Vale nunca mais voltará a ser uma empresa pública. É causa perdida.

Ontem, o Governo Federal, obteve uma oferta de mais de 19 bilhões de reais do consórcio que venceu a licitação para administrar o Aeroporto do Galeão por 25 anos.

Quer dizer, os PRIVATAS TUCANOS rifaram a maior mineradora do mundo, que dava lucro ao país, por módicos 3 bilhões de reais.

O Governo do PT estabeleceu uma parceria de 25 anos, com um consórcio privado, para administrar um aeroporto e recebeu por isso mais de 19 bilhões de reais.

Após o período de vigência do contrato (25 anos) o aeroporto voltará a ser totalmente controlado pelo poder público. Ou seja, não é privatização (muito menos PRIVATARIA, como fizeram os tucanos). 


É concessão por tempo determinado. E mesmo durante este tempo, o Estado participará da gestão do aeroporto porque a Infraero participará com 49% dessa sociedade entre o poder público e a iniciativa privada e se encarregará da parte "cérebro" dos aeroportos. 

Em outras palavras, o poder público continuará sendo o responsável pela "inteligência" e os parceiros privados cuidarão durante 25 anos do "corpo" do aeroporto. A melhor explicação para isso foi dada pela própria Presidenta, que certa vez afirmou o objeto das concessões é o "hardware" dos aeroportos, não o "software".

Já os tucanos... passaram o hardware, o software e todo o subsolo da Vale. E o pior: não tem prazo. É pra sempre. E sem nenhuma participação do poder público na gestão da empresa.

Só uma dose cavalar de desonestidade autorizaria alguém a afirmar que as concessões dos aeroportos se equivaleriam à irresponsabilidade e traição à pátria que os tucanos cometeram enquanto governaram.

Mesmo sem dar praia, um bom sábado pra todos.


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'Pessimistas terão amargura', diz Dilma, após leilões alcançarem R$ 20 bilhões!

'Pessimistas terão amargura', diz Dilma, após leilões alcançarem R$ 20 bilhões - da Rede Brasil Atual

Presidenta afirma que licitações do Galeão e de Cofins foram 'extraordinárias' e que modelo de concessão beneficiará o Brasil
São Paulo – A presidenta Dilma Rousseff disse hoje (22) que as licitações dos aeroportos do Galeão, no Rio de Janeiro, e de Confins, em Minas Gerais, trarão um ganho “extraordinário” para o governo, e que, assim como aqueles que se posicionavam contra o leilão do Campo de Libra, “os pessimistas” terão um dia de amargura devido ao sucesso atribuído ao resultado da operação. Segundo ela, as concessões possibilitarão a arrecadação de mais de R$ 20 bilhões pelo governo federal.
“Isso mostra duas coisas: o enorme interesse dos investidores em investir no Brasil e claramente que o Brasil continua sendo uma das grandes oportunidades para brasileiros, que têm de ter orgulho do que têm e do que podem ter", afirmou Dilma. "Por isso, aqueles pessimistas e incrédulos, hoje vão ter dia de amargura, porque não deu errado. Porque no Brasil, é muito triste, torcem para dar errado. Desta vez, e mais uma vez, em Libra também torceram, não deu errado. E tenho certeza que das próximas não vai dar errado”, acrescentou. As declarações foram dadas hoje, em Fortaleza, durante cerimônia de anúncio de investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2 – Mobilidade Urbana.
Os lances para obtenção dos direitos de ampliação, manutenção e exploração do Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, alcançaram ágio de até 293%. O mínimo estipulado pelo governo era de R$ 4,82 bilhões, mas os consórcios interessados apresentaram propostas bem acima, sendo a maior delas de R$ 19 bilhões.
Para Cofins, o mínimo era de R$ 1,09 bilhão, e a proposta máxima ficou em R$ 1,8 bilhão – ágio de 65%. Foram cinco lances para o Galeão e três para Cofins. Juntos, os dois aeroportos movimentam 14% do total de passageiros do país, 10% da carga e 12% das aeronaves do tráfego aéreo brasileiro.
Segundo Dilma, o modelo de concessão deve suprir necessidades dos aeroportos e garantir frutos “para o futuro”, além da arrecadação a ser proporcionada ao governo. “O momento é de longa trajetória, ao licitarmos para a inciativa privada a concessão do aeroporto, procuramos construir combinação fundamental entre grandes operadores de aeroportos do mundo e as grandes empresas capazes de construir aeroportos no Brasil."
A licitação, na visão da presidenta, hoje foi bem-sucedida, porque permitirá a expansão da hoje baixa capacidade desses aeroportos. "E a arrecadação é importante, para o futuro dos investimentos que vão dar estrutura para todos nós que transitamos pelo Brasil a fora."

Vontade política

Durante a cerimônia, a presidenta também exaltou a importância das parcerias entre o governo federal e os governos do Ceará e de Fortaleza para investimentos em mobilidade urbana. Serão investidos R$ 2,09 bilhões, sendo R$ 1,05 bilhão do Orçamento Geral da União e R$ 1,04 bilhão de financiamento, para a duplicação e eletrificação da Linha Oeste do Metrô da capitala construção de 13 estações, para a substituição dos trens atuais por trens de unidade elétrica, o projeto para implantação do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) Caucaia-Pecém e a modernização dos sistemas de controle e operação da Linha Sul do Metrô.
A Linha Leste do Metrô receberá investimento de R$ 3,43 bilhões, sendo R$ 1 bilhão do Orçamento Geral da União, R$ 1 bilhão de financiamento e R$ 1,43 bilhão de contrapartida. Com 13,5 km de extensão, 13 estações (incluindo a Estação Central Chico da Silva), 20 trens de unidade elétrica e equipamentos de sistemas fixos. Segundo o governo federal,  a linha beneficiará diariamente 400 mil passageiros.
“Nunca um governo federal colocou tanto dinheiro em parceria com o governo do estado aqui em Fortaleza. O dinheiro não é hoje o maior problema do Brasil, e sim a vontade política. A vontade política possibilita que façamos coisas no Brasil”, assinalou Dilma.
Segundo ela, o governador do Ceará, Cid Gomes (Pros), demostra “vontade política” em implementar melhorias no transporte urbano coletivo no estado, e disse ter orgulho de participar da parceria. “Aqui em Fortaleza, há um maior esforço de investimento em mobilidade urbana para fazer metrô de forma mais rápida e barata. Esse investimento vai permitir que o Ceará seja a cidade com maior quilometragem proporcional de trilhos de metrô implantados.”
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domingo, 17 de novembro de 2013

A resposta esmagadora - por Saul Leblon!

A resposta esmagadora - por Saul Leblon, da Carta Maior

Cabe à campanha de Dilma incorporar o salto programático que os últimos acontecimentos ensejam, na esfera da democracia e do desenvolvimento.





A derrubada violenta de Jango em 1964 foi antecedida, a exemplo do que se fez com Vargas, dez anos antes, de uma campanha midiática encharcada de ódio e acusações de corrupção contra o seu governo e a sua pessoa.

A popularidade de Vargas revestiu o desenvolvimento brasileiro com travas de soberania  e direitos sociais inaceitáveis pelo dinheiro local e forâneo.

A mesma e dupla intolerância colidia com a aprovação popular às reformas de base de Jango, constatada então por pesquisas do Ibope sonegadas à opinião pública pelos veículos de comunicação (leia neste blog ‘Jango: mídia falsificou a autópsia política’).

Nos dois casos, a caça à corrupção se transformaria na única marreta disponível para a derrubada conservadora do governo.

Quis o destino que  49 anos depois do golpe de 64, quando a versão falsificada daquele período é desmentida pelo desagravo solene do Estado brasileiro a Jango, um novo ataque disfarçado  contra os mesmos objetivos se configure.

É pedagógico e inquietante.

As mesmas forças, os mesmos interesses, os mesmos veículos e o mesmo linguajar que levaram Vargas ao suicídio e violentaram a democracia em 64, agora se unem abertamente para golpear o esforço progressista de retomar a construção interrompida de um Brasil mais justo e soberano.

Contra Vargas, ergueram-se as manchetes do ‘mar de lama’.

Contra Jango, ‘o ouro de Moscou, ‘a República sindicalista’, ‘o naufrágio dos valores cristãos’, ‘falência do abastecimento’.

Nos dias que correm, ‘o mensalão’,  ‘a companheirada’, o  ‘intervencionismo estatal’, a ‘gastança’, o ‘abismo fiscal’, a implosão iminente da economia.

‘Se não for hoje, de amanhã o Brasil não passa’, reitera o necrológio diário do colunismo especializado em sepultar o interesse social na cova da república rentista.

Exacerbam-se  os decibéis do jogral que não desafina nunca.

A purga redentora dos livres mercados é a única solução para uma economia envenenada pela criação de 20 milhões de empregos em 12 anos. A  prisão  ‘exemplar’ dos ‘mensaleiros’ é o laxativo  indispensável à assepsia de uma política cúmplice do voluntarismo econômico, como diz o grão tucano FHC.

Não se releve aqui o ilícito cometido em um sistema eleitoral apodrecido pela hegemonia dos interesses que agora se  avocam os savonarolas da moralidade pública.

O dinheiro privado que dá à campanha o seu fulgor publicitário é o mesmo que desidrata projetos, amesquinha governos, aleija lideranças  e desacredita o voto e a política.

Importa, todavia, enxergar além da neblina  que subordina o principal ao secundário.

Em 54, em 64 e em 2014 o nome do jogo não é ética, como se constata da temperança  das manchetes --e togas inflamadas-- quando se trata da corrupção conservadora.

Exemplos terminais de credibilidade em ruína, como o da ‘Folha de SP’,  já se prestam  ao estudo acadêmico de cases da manipulação informativa, em que o veículo deixa de ser referência para ser referido.

O que está em jogo é o comando do processo de desenvolvimento brasileiro.

O udenismo  de 54 e 64 ao contrário de atenuar  sua ganância e o entreguismo foi coagido  pela determinação das finanças globalizadas a radicalizar seu descompromisso com a sorte do desenvolvimento e o destino da sociedade brasileira.

Não se diga que a mesma asfixia não esgoelou em parte a agenda progressista.

Mas o fato é que  nem mesmo um programa moderado de reformas e oxigenação social  como o da coalizão centrista liderada pelo  PT é tolerável.

Avulta desse estreitamento histórico a sofreguidão estalada nas manchetes, que promovem o adestramento  circense das togas incumbidas de ocupar o picadeiro com degolas e sentenças profiláticas.

Contra o PT  e contra tudo o que ele representa.

Como se sabe, ele representa a corrupção sistêmica, sendo a do conservadorismo sempre um ponto fora da curva.

Ao comando de holofotes, a toga desempenhou seu número nesta quarta-feira, dando cambalhotas no enredo da indignação seletiva, com o qual se pretende vitaminar candidaturas rastejantes a 2014.

Cumpre assinalar não apenas as linhas de passagem que  unem o opróbio entre  1954,1964 e 2014.

Sobretudo, é imperativo iluminar a seta do tempo que não se quebrou  na atualidade de mudanças estruturais reclamadas pelo país e por sua gente.

Em 13 de março de 1964, Jango pronunciaria  um discurso memorável, que dava a agenda das reformas estruturais o lugar que ela ainda cobra na história brasileira.

É para a exumação dessa construção interrompida, que reafirma sua pertinência nos dias que correm, que Carta Maior chama a atenção nesse momento, especialmente de seus leitores jovens.

E o faz dando ao discurso da Central do Brasil o espaço de atualidade que a narrativa conservadora sempre lhe sonegou.

Sobre aquele pronunciamento, o leitor de Carta Maior, Fausto Neves Ribeiro da Silva, comentou:

 “ Ouvi este discurso com o radinho de pilha debaixo do travesseiro. Eu tinha 14 anos. Estava numa juventude atenta, que não acreditava em esperança mas em ações. Quem se manteve atento guarda na memória, ou aprendeu, o que e quanto perdemos” 


(veja e ouça um trecho aqui)

Leia, a seguir, a íntegra do comício na Central do Brasil:

Devo agradecer em primeiro lugar às organizações promotoras deste comício, ao povo em geral e ao bravo povo carioca em particular, a realização, em praça pública, de tão entusiasta e calorosa manifestação. Agradeço aos sindicatos que mobilizaram os seus associados, dirigindo minha saudação a todos os brasileiros que, neste instante, mobilizados nos mais longínquos recantos deste país, me ouvem pela televisão e pelo rádio.

Dirijo-me a todos os brasileiros, não apenas aos que conseguiram adquirir instrução nas escolas, mas também aos milhões de irmãos nossos que dão ao brasil mais do que recebem, que pagam em sofrimento, em miséria, em privações, o direito de ser brasileiro e de trabalhar sol a sol para a grandeza deste país.

Presidente de 80 milhões de brasileiros, quero que minhas palavras sejam bem entendidas por todos os nossos patrícios.

Vou falar em linguagem que pode ser rude, mas é sincera sem subterfúgios, mas é também uma linguagem de esperança de quem quer inspirar confiança no futuro e tem a coragem de enfrentar sem fraquezas a dura realidade do presente.

Aqui estão os meus amigos trabalhadores, vencendo uma campanha de terror ideológico e sabotagem, cuidadosamente organizada para impedir ou perturbar a realização deste memorável encontro entre o povo e o seu presidente, na presença das mais significativas organizações operárias e lideranças populares deste país.

Chegou-se a proclamar, até, que esta concentração seria um ato atentatório ao regime democrático, como se no Brasil a reação ainda fosse a dona da democracia, e a proprietária das praças e das ruas. Desgraçada a democracia se tiver que ser defendida por tais democratas.

Democracia para esses democratas não é o regime da liberdade de reunião para o povo: o que eles querem é uma democracia de povo emudecido, amordaçado nos seus anseios e sufocado nas suas reinvindicações.

A democracia que eles desejam impingir-nos é a democracia antipovo, do anti-sindicato, da anti-reforma, ou seja, aquela que melhor atende aos interesses dos grupos a que eles servem ou representam.

A democracia que eles querem é a democracia para liquidar com a Petrobrás; é a democracia dos monopólios privados, nacionais e internacionais, é a democracia que luta contra os governos populares e que levou Getúlio Vargas ao supremo sacrifício.

Ainda ontem, eu afirmava, envolvido pelo calor do entusiasmo de milhares de trabalhadores no Arsenal da Marinha, que o que está ameaçando o regime democrático neste País não é o povo nas praças, não são os trabalhadores reunidos pacificamente para dizer de suas aspirações ou de sua solidariedade às grandes causas nacionais. Democracia é precisamente isso: o povo livre para manifestar-se, inclusive nas praças públicas, sem que daí possa resultar o mínimo de perigo à segurança das instituições.

Democracia é o que o meu governo vem procurando realizar, como é do seu dever, não só para interpretar os anseios populares, mas também conquistá-los pelos caminhos da legalidade, pelos caminhos do entendimento e da paz social.

Não há ameaça mais séria à democracia do que desconhecer os direitos do povo; não há ameaça mais séria à democracia do que tentar estrangular a voz do povo e de seus legítimos líderes, fazendo calar as suas mais sentidas reinvindicações.

Estaríamos, sim, ameaçando o regime se nos mostrássemos surdos aos reclamos da Nação, que de norte a sul, de leste a oeste levanta o seu grande clamor pelas reformas de estrutura, sobretudo pela reforma agrária, que será como complemento da abolição do cativeiro para dezenas de milhões de brasileiros que vegetam no interior, em revoltantes condições de miséria.

Ameaça à democracia não é vir confraternizar com o povo na rua. Ameaça à democracia é empulhar o povo explorando seus sentimentos cristãos, mistificação de uma indústria do anticomunismo, pois tentar levar o povo a se insurgir contra os grandes e luminosos ensinamentos dos últimos Papas que informam notáveis pronunciamentos das mais expressivas figuras do episcopado brasileiro.

O inolvidável Papa João XXIII é quem nos ensina que a dignidade da pessoa humana exige normalmente como fundamento natural para a vida, o direito ao uso dos bens da terra, ao qual corresponde a obrigação fundamental de conceder uma propriedade privada a todos.

É dentro desta autêntica doutrina cristã que o governo brasileiro vem procurando situar a sua política social, particurlamente a que diz respeito à nossa realidade agrária.

O cristianismo nunca foi o escudo para os privilégios condenados pelos Santos Padres. Nem os rosários podem ser erguidos como armas contra os que reclamam a disseminação da propriedade privada da terra, ainda em mãos de uns poucos afortunados.

Àqueles que reclamam do Presidente de República uma palavra tranqüilizadora para a Nação, o que posso dizer-lhes é que só conquistaremos a paz social pela justiça social.

Perdem seu tempo os que temem que o governo passe a empreender uma ação subversiva na defesa de interesses políticos ou pessoais; como perdem igualmente o seu tempo os que esperam deste governo uma ação repressiva dirigida contra os interesses do povo. Ação repressiva, povo carioca, é a que o governo está praticando e vai amplia-la cada vez mais e mais implacavelmente, assim na Guanabara como em outros estados contra aqueles que especulam com as dificuldades do povo, contra os que exploram o povo e que sonegam gêneros alimentícios e jogam com seus preços.

Ainda ontem, trabalhadores e povo carioca, dentro da associações de cúpula de classes conservadoras, levanta-se a voz contra o Presidente pelo crime de defender o povo contra aqueles que o exploram nas ruas, em seus lares, movidos pela ganância.

Não tiram o sono as manifestações de protesto dos gananciosos, mascarados de frases patrióticas, mas que, na realidade, traduzem suas esperanças e seus propósitos de restabelecer a impunidade para suas atividades anti-sociais.

Não receio ser chamado de subversivo pelo fato de proclamar, e tenho proclamado e continuarei a proclamando em todos os recantos da Pátria – a necessidade da revisão da Constituição, que não atende mais aos anseios do povo e aos anseios do desenvolvimento desta Nação.

Essa Constituição é antiquada, porque legaliza uma estrutura sócio-econômica já superada, injusta e desumana; o povo quer que se amplie a democracia e que se ponha fim aos privilégios de uma minoria; que a propriedade da terra seja acessível a todos; que a todos seja facultado participar da vida política através do voto, podendo votar e ser votado; que se impeça a intervenção do poder econômico nos pleitos eleitorais e seja assegurada a representação de todas as correntes políticas, sem quaisquer discriminações religiosas ou ideológicas.

Todos têm o direito à liberdade de opinião e de manifestar também sem temor o seu pensamento. É um princípio fundamental dos direitos do homem, contido na Carta das Nações Unidas, e que temos o dever de assegurar a todos os brasileiros.

Está nisso o sentido profundo desta grande e incalculável multidão que presta, neste instante, manifestação ao Presidente que, por sua vez, também presta conta ao povo dos seus problemas, de suas atitudes e das providências que vem adotando na luta contra forças poderosas, mas que confia sempre na unidade do povo, das classes trabalhadoras, para encurtar o caminho da nossa emancipação.

É apenas de lamentar que parcelas ainda ponderáveis que tiveram acesso à instrução superior continuem insensíveis, de olhos e ouvidos fechados à realidade nacional.

São certamente, trabalhadores, os piores surdos e os piores cegos, porque poderão, com tanta surdez e tanta cegueira, ser os responsáveis perante a História pelo sangue brasileiro que possa vir a ser derramado, ao pretenderem levantar obstáculos ao progresso do Brasil e à felicidade de seu povo brasileiro.

De minha parte, à frente do Poder Executivo, tudo continuarei fazendo para que o processo democrático siga um caminho pacífico, para que sejam derrubadas as barreiras que impedem a conquista de novas etapas do progresso.

E podeis estar certos, trabalhadores, de que juntos o governo e o povo – operários , camponeses, militares, estudantes, intelectuais e patrões brasileiros, que colocam os interesses da Pátria acima de seus interesses, haveremos de prosseguir de cabeça erguida, a caminhada da emancipação econômica e social deste país.

O nosso lema, trabalhadores do Brasil, é “progresso com justiça, e desenvolvimento com igualdade”.

A maioria dos brasileiros já não se conforma com uma ordem social imperfeita, injusta e desumana. Os milhões que nada têm impacientam-se com a demora, já agora quase insuportável, em receber os dividendos de um progresso tão duramente construído, mas construído também pelos mais humildes.

Vamos continuar lutando pela construção de novas usinas, pela abertura de novas estradas, pela implantação de mais fábricas, por novas escolas, por mais hospitais para o nosso povo sofredor; mas sabemos que nada disso terá sentido se o homem não for assegurado o direito sagrado ao trabalho e uma justa participação nos frutos deste desenvolvimento.

Não, trabalhadores; sabemos muito bem que de nada vale ordenar a miséria, dar-lhe aquela aparência bem comportada com que alguns pretendem enganar o povo. Brasileiros, a hora é das reformas de estrutura, de métodos, de estilo de trabalho e de objetivo. Já sabemos que não é mais possível progredir sem reformar; que não é mais possível admitir que essa estrutura ultrapassada possa realizar o milagre da salvação nacional para milhões de brasileiros que da portentosa civilização industrial conhecem apenas a vida cara, os sofrimentos e as ilusões passadas.

O caminho das reformas é o caminho do progresso pela paz social. Reformar é solucionar pacificamente as contradições de uma ordem econômica e jurídica superada pelas realidades do tempo em que vivemos.


Trabalhadores, acabei de assinar o decreto da SUPRA com o pensamento voltado para a tragédia do irmão brasileiro que sofre no interior de nossa Pátria. Ainda não é aquela reforma agrária pela qual lutamos.

Ainda não é a reformulação de nosso panorama rural empobrecido.

Ainda não é a carta de alforria do camponês abandonado.

Mas é o primeiro passo: uma porta que se abre à solução definitiva do problema agrário brasileiro.

O que se pretende com o decreto que considera de interesse social para efeito de desapropriação as terras que ladeiam eixos rodoviários, leitos de ferrovias, açudes públicos federais e terras beneficiadas por obras de saneamento da União, é tornar produtivas áreas inexploradas ou subutilizadas, ainda submetidas a um comércio especulativo, odioso e intolerável.

Não é justo que o benefício de uma estrada, de um açude ou de uma obra de saneamento vá servir aos interesses dos especuladores de terra, quese apoderaram das margens das estradas e dos açudes. A Rio-Bahia, por exemplo, que custou 70 bilhões de dinheiro do povo, não deve bemeficiar os latifundiários, pela multiplicação do valor de suas propriedades, mas sim o povo.

Não o podemos fazer, por enquanto, trabalhadores, como é de prática corrente em todos os países do mundo civilizado: pagar a desapropriação de terras abandonadas em títulos de dívida pública e a longo prazo.

Reforma agrária com pagamento prévio do latifundio improdutivo, à vista e em dinheiro, não é reforma agrária. É negócio agrário, que interessa apenas ao latifundiário, radicalmente oposto aos interesses do povo brasileiro. Por isso o decreto da SUPRA não é a reforma agrária.

Sem reforma constitucional, trabalhadores, não há reforma agrária. Sem emendar a Constituição, que tem acima de dela o povo e os interesses da Nação, que a ela cabe assegurar, poderemos ter leis agrárias honestas e bem-intencionadas, mas nenhuma delas capaz de modificações estruturais profundas.

Graças à colaboração patriótica e técnica das nossas gloriosas Forças Armadas, em convênios realizados com a SUPRA, graças a essa colaboração, meus patrícios espero que dentro de menos de 60 dias já comecem a ser divididos os latifúndios das beiras das estradas, os latifúndios aos lados das ferrovias e dos açudes construídos com o dinheiro do povo, ao lado das obras de saneamento realizadas com o sacrifício da Nação. E, feito isto, os trabalhadores do campo já poderão, então, ver concretizada, embora em parte, a sua mais sentida e justa reinvindicação, aquela que lhe dará um pedaço de terra para trabalhar, um pedaço de terra para cultivar. Aí, então, o trabalhador e sua família irão trabalhar para si próprios, porque até aqui eles trabalham para o dono da terra, a quem entregam, como aluguel, metade de sua produção. E não se diga, trabalhadores, que há meio de se fazer reforma sem mexer a fundo na Constituição. Em todos os países civilizados do mundo já foi suprimido do texto constitucional parte que obriga a desapropriação por interesse social, a pagamento prévio, a pagamento em dinheiro.

No Japão de pós-guerra, há quase 20 anos, ainda ocupado pelas forças aliadas vitoriosas, sob o patrocínio do comando vencedor, foram distribuídos dois milhões e meio de hectares das melhores terras do país, com indenizações pagas em bônus com 24 anos de prazo, juros de 3,65% ao ano. E quem é que se lembrou de chamar o General MacArthur de subversivo ou extremista?

Na Itália, ocidental e democrática, foram distribuídos um milhão de hectares, em números redondos, na primeira fase de uma reforma agrária cristã e pacífica iniciada há quinze anos, 150 mil famílias foram beneficiadas.

No México, durante os anos de 1932 a 1945, foram distribuídos trinta milhões de hectares, com pagamento das indenizações em títulos da dívida pública, 20 anos de prazo, juros de 5% ao ano, e desapropriação dos latifúndios com base no valor fiscal.

Na Índia foram promulgadas leis que determinam a abolição da grande propriedade mal aproveitada, transferindo as terras para os camponeses.

Essas leis abrangem cerca de 68 milhões de hectares, ou seja, a metade da área cultivada da Índia. Todas as nações do mundo, independentemente de seus regimes políticos, lutam contra a praga do latifúndio improdutivo.

Nações capitalistas, nações socialistas, nações do Ocidente, ou do Oriente, chegaram à conclusão de que não é possível progredir e conviver com o latifúndio.

A reforma agrária não é capricho de um governo ou programa de um partido. É produto da inadiável necessidade de todos os povos do mundo. Aqui no Brasil, constitui a legenda mais viva da reinvindicação do nosso povo, sobretudo daqueles que lutaram no campo.

A reforma agrária é também uma imposição progressista do mercado interno, que necessita aumentar a sua produção para sobreviver.

Os tecidos e os sapatos sobram nas prateleiras das lojas e as nossas fábricas estão produzindo muito abaixo de sua capacidade. Ao mesmo tempo em que isso acontece, as nossas populações mais pobres vestem farrapos e andam descalças, porque não tem dinheiro para comprar.

Assim, a reforma agrária é indispensável não só para aumentar o nível de vida do homem do campo, mas também para dar mais trabalho às industrias e melhor remuneração ao trabalhador urbano.

Interessa, por isso, também a todos os industriais e aos comerciantes. A reforma agrária é necessária, enfim, à nossa vida social e econômica, para que o país possa progredir, em sua indústria e no bem-estar do seu povo.

Como garantir o direito de propriedade autêntico, quando dos quinze milhões de brasileiros que trabalham a terra, no Brasil, apenas dois milhões e meio são proprietários?

O que estamos pretendendo fazer no Brasil, pelo caminho da reforma agrária, não é diferente, pois, do que se fez em todos os países desenvolvidos do mundo. É uma etapa de progresso que precisamos conquistar e que haveremos de conquistar.

Esta manifestação deslumbrante que presenciamos é um testemunho vivo de que a reforma agrária será conquistada para o povo brasileiro. O próprio custo daprodução, trabalhadores, o próprio custo dos gêneros alimentícios está diretamente subordinado às relações entre o homem e a terra. Num país em que se paga aluguéis da terra que sobem a mais de 50 por cento da produção obtida daquela terra, não pode haver gêneros baratos, não pode haver tranquilidade social. No meu Estado, por exemplo, o Estado do deputado Leonel Brizola, 65% da produção de arroz é obtida em terras alugadas e o arrendamento ascende a mais de 55% do valor da produção. O que ocorre no Rio Grande é que um arrendatário de terras para plantio de arroz paga, em cada ano, o valor total da terra que ele trabahou para o proprietário. Esse inquilinato rural desumano é medieval é o grande responsável pela produção insuficiente e cara que torna insuportável o custo de vida para as classes populares em nosso país.

A reforma agrária só prejudica a uma minoria de insensíveis, que deseja manter o povo escravo e a Nação submetida a um miseravel padrão de vida.

E é claro, trabalhadores, que só se pode iniciar uma reforma agrária em terras economicamente aproveitáveis. E é claro que não poderíamos começar a reforma agrária, para atender aos anseios do povo, nos Estados do Amazonas ou do Pará. A reforma agrária deve ser iniciada nas terras mais valorizadas e ao lado dos grandes centros de consumo, com transporte fácil para o seu escoamento.

Governo nenhum, trabalhadores, povo nenhum, por maior que seja seu esforço, e até mesmo o seu sacrifício, poderá enfrentar o monstro inflacionário que devora os salários, que inquieta o povo assalariado, se não form efetuadas as reformas de estrutura de base exigidsa pelo povo e reclamadas pela Nação.

Tenho autoridade para lutar pela reforma da atual Constituição, porque esta reforma é indispensável e porque seu objetivo único e exclusivo é abrir o caminho para a solução harmônica dos problemas que afligem o nosso povo.

Não me animam, trabalhadores – e é bom que a nação me ouça – quaisquer propósitos de ordem pessoal. Os grandes beneficiários das reformas serão, acima de todos, o povo brasileiro e os governos que me sucederem. A eles, trabalhadores, desejo entregar uma Nação engrandecida, emancipada e cada vez mais orgulhosa de si mesma, por ter resolvido mais uma vez, pacificamente, os graves problemas que a História nos legou. Dentro de 48 horas, vou entregar à consideração do Congresso Nacional a mensagem presidencial deste ano.

Nela, estão claramente expressas as intenções e os objetivos deste governo. Espero que os senhres congressistas, em seu patriotismo, compreendam o sentido social da ação governamental, que tem por finalidade acelerar o progresso deste país e assegurar aos brasileiros melhores condições de vida e trabalho, pelo caminho da paz e do entendimento, isto é pelo caminho reformista.

Mas estaria faltando ao meu dever se não transmitisse, também, em nome do povo brasileiro, em nome destas 150 ou 200 mil pessoas que aqui estão, caloroso apelo ao Congresso Nacional para que venha ao encontro das reinvindicações populares, para que, em seu patriotismo, sinta os anseios da Nação, que quer abrir caminho, pacífica e democraticamente para melhores dias. Mas também, trabalhadores, quero referir-me a um outro ato que acabo de assinar, interpretando os sentimentos nacionalistas destes país. Acabei de assinar, antes de dirigir-me para esta grande festa cívica, o decreto de encampação de todas as refinarias particulares.

A partir de hoje, trabalhadores brasileiros, a partir deste instante, as refinarias de Capuava, Ipiranga, Manguinhos, Amazonas, e Destilaria Rio Grandense passam a pertencer ao povo, passam a pertencer ao patrimônio nacional.

Procurei, trabalhadores, depois de estudos cuidadosos elaborados por órgãos técnicos, depois de estudos profundos, procurei ser fiel ao espírito da Lei n. 2.004, lei que foi inspirada nos ideais patrióticos e imortais de um brasileiro que também continua imortal em nossa alma e nosso espírito.

Ao anunciar, à frente do povo reunido em praça pública, o decreto de encampação de todas as refinarias de petróleo particulares, desejo prestar homenagem de respeito àquele que sempre esteve presente nos sentimentos do nosso povo, o grande e imortal Presidente Getúlio Vargas.

O imortal e grande patriota Getúlio Vargas tombou, mas o povo continua a caminhada, guiado pelos seus ideais. E eu, particurlamente, vivo hoje momento de profunda emoção ao poder dizer que, com este ato, soube interpretar o sentimento do povo brasileiro.

Alegra-me ver, também, o povo reunido para prestigiar medidas como esta, da maior significação para o desenvolvimento do país e que habilita o Brasil a aproveitar melhor as suas riquezas minerais, especialmente as riquezas criadas pelo monopólio do petróleo. O povo estará sempre presente nas ruas e nas praças públicas, para prestigiar um governo que pratica atos como estes, e também para mostrar às forças reacionárias que há de continuar a sua caminhada, no rumo da emancipação nacional.

Na mensagem que enviei à consideração do Congresso Nacional, estão igualmente consignadas duas outras reformas que o povo brasileiro reclama, porque é exigência do nosso desenvolvimento e da nossa democracia. Refiro-me à reforma eleitoral, à reforma ampla que permita a todos os brasileiros maiores de 18 anos ajudar a decidir dos seus destinos, que permita a todos os brasileiros que lutam pelo engrandecimento do país a influir nos destinos gloriosos do Brasil. Nesta reforma, pugnamos pelo princípio democrático, princípio democrático fundamental, de que todo alistável deve ser também elegível.

Também está consignada na mensagem ao Congresso a reforma universitária, reclamada pelos estudantes brasileiros. Pelos universitários, classe que sempre tem estado corajosamente na vanguarda de todos os movimentos populares nacionalistas.

Ao lado dessas medidas e desses decretos, o governo continua examinando outras providências de fundamental importância para a defesa do povo, especialmente das classes populares.

Dentro de poucas horas, outro decreto será dado ao conhecimento da Nação. É o que vai regulamentar o preço extorsivo dos apartamentos e residências desocupados, preços que chegam a afrontar o povo e o Brasil, oferecidos até mediante o pagamento em dólares. Apartamento no Brasil só pode e só deve ser alugado em cruzeiros, que é dinheiro do povo e a moeda deste país. Estejam tranqüilos que dentro em breve esse decreto será uma realidade.

E realidade há de ser também a rigorosa e implacável fiscalização para seja cumprido. O governo, apesar dos ataques que tem sofrido, apesar dos insultos, não recuará um centímetro sequer na fiscalização que vem exercendo contra a exploração do povo. E faço um apelo ao povo para que ajude o governo na fiscalização dos exploradores do povo, que são também exploradores do Brasil. Aqueles que desrespeitarem a lei, explorando o povo – não interessa o tamanho de sua fortuna, nem o tamanho de seu poder, esteja ele em Olaria ou na Rua do Acre – hão de responder, perante a lei, pelo seu crime.

Aos servidores públicos da Nação, aos médicos, aos engenheiros do serviço público, que também não me têm faltado com seu apoio e o calor de sua solidariedade, posso afirmar que suas reinvindicações justas estão sendo objeto de estudo final e que em breve serão atendidas. Atendidas porque o governo deseja cumprir o seu dever com aqueles que permanentemente cumprem o seu para com o país.

Ao encerrar, trabalhadores, quero dizer que me sinto reconfortado e retemperado para enfrentar a luta que tanto maior será contra nós quanto mais perto estivermos do cumprimento de nosso dever. À medida que esta luta apertar, sei que o povo também apertará sua vontade contra aqueles quenão reconhecem os direitos populares, contra aqueles que exploram o povo e a Nação.

Sei das reações que nos esperam, mas estou tranqüilo, acima de tudo porque sei que o povo brasileiro já está amadurecido, já tem consciência da sua força e da sua unidade, e não faltará com seu apoio às medidas de sentido popular e nacionalista.

Quero agradecer, mais uma vez, esta extraordinária manifestação, em que os nossos mais significativos líderes populares vieram dialogar com o povo brasileiro, especialmente com o bravo povo carioca, a respeito dos problemas que preocupam a Nação e afligem todos os nossos patrícios. Nenhuma força será capaz de impedir que o governo continue a assegurar absoluta liberdade ao povo brasileiro. E, para isto, podemos declarar, com orgulho, que contamos com a compreensão e o patriotismo das bravas e gloriosas Forças Armadas da Nação.

Hoje, com o alto testemunho da Nação e com a solidariedade do povo, reunido na praça que só ao povo pertence, o governo, que é também o povo e que também só ao povo pertence, reafirma os seus propósitos inabaláveis de lutar com todas as suas forças pela reforma da sociedade brasileira. Não apenas pela reforma agrária, mas pela reforma tributária, pela reforma eleitoral ampla, pelo voto do analfabeto, pela elegibilidade de todos os brasileiros, pela pureza da vida democrática, pela emancipação econômica, pela justiça social e pelo progresso do Brasil.

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Egito X Arábia Saudita: “Sobre os sunitas: Egito pode caminhar para uma guerra de classes!

Egito X Arábia Saudita:  “Sobre os sunitas"! - da Rede CastorPhoto


15/11/2013, Conflicts Forum’s - WeeklyComment
Traduzido pelo pessoal da Vila Vudu



Com um apelo contra decisão judicial que impôs pena de banimento à Fraternidade Muçulmana, com confisco de todos os bens da organização, derrubado pelo Tribunal na 4ª-feira passada -  e com o presidente Mursi, na mesma semana, comparecendo ante um tribunal no Cairo, que o acusa de crimes para os quais a lei egípcia prevê a pena de morte – encerra-se com violência um importante capítulo da história do movimento islâmico sunita.

Poder-se-ia argumentar que os tormentos pelos quais passa a Fraternidade Muçulmana sejam apenas pontos de um dos fios do elaborado tecido do Islã, e que instituições sunitas milenares, como a mesquita Al-Ahzar, continuam; mas as implicações da derrubada violenta da Fraternidade Muçulmana são muito mais profundas: tocam no nexo mais amplo que é parte da própria identidade sunita – o modo como muçulmanos, praticantes e “seculares” passarão a se verem, eles mesmos: o Islã será secularizado, para “adaptar-se” a tempos materialistas, ou esses eventos, mais provavelmente, levarão a resposta violenta ou, mesmo, levarão a recapturar, para o Islã, algo de seu legado histórico, agora sob forma contemporânea?

Não se trata apenas de um movimento sunita global influente, que vê implodir toda sua estratégia para fazer sua visão de sociedade islâmica “permear” legitimamente o processo político até o poder. 

Trata-se também da constelação de eventos que acompanham essa implosão, e que arrasta com ela a ambição desmedida, carregada de húbris, da Arábia Saudita, que aspira a liderar o mundo sunita (jogando a Casa de Saud numa amarga guerra de atrito contra outros grandes clusters sunitas sobre os quais tentou impor uma autodeclarada “autoridade” de líder do Islã sunita). 

Esse evento parece também soprar novos ventos sobre as brasas de velhas animosidades ainda fumegantes entre um islamismo “nacionalizado” (i.e. o Islã-“estado” burocraticamente controlado no Egito) e o movimento islâmico – como o atestam os insistentes e violentos protestos de estudantes no campus da universidade Al-Azhar.

Campus da Universidade Al-Ahzar, Cairo, Egito (parte central da foto)


Considerados os ódios mais amplos que hoje dilaceram a sociedade egípcia, o que acontecerá ao Islã populista – ainda a parte mais significativa do eleitorado, sobretudo entre os mais pobres? Por que o Islã populista não se desintegraria e degeneraria – pelo menos em parte – numa colcha de retalhos fundamentalista, violenta, em fúria, xenofóbica de movimentos jihadistas. Como se vê acontecer hoje na Síria, não é impossível. Pode acontecer.

Até agora, a região viu-se reconfigurada ao longo de uma linha divisória de um eixo sunita “moderado”versus um “arco xiita”. E a Fraternidade Muçulmana se autoconstruiu nessa moldura: era parte do Islã sunita “moderado”. 

Também do ponto de vista da Fraternidade Muçulmana, eles conquistaram a posição de Wali al Amr (Guardião, o Encarregado), quer dizer, foram investidos de autoridade legítima no Egito e, assim sendo, fazem jus à fidelidade dos muçulmanos egípcios.

Mas, em vez de receberem fidelidade e respeito, foram ilegalmente derrubados do governo, por ação do próprio poder cuja única legitimidade advém do princípio do Wali al-Amr – a Casa de Saud. 

O paradoxo foi suficientemente severo para lançar não só a Fraternidade em estado de completo desarranjo e confusão, mas, também, grande parte do salafismo, do qual o wahhabismo é um dos ramos. Muitos salafistas no Egito e fora do Egito entendem que a Fraternidade Muçulmana é Wali al-Amr de pleno direito – e que, em termos islâmicos, foi traída, ao ser deposta.

Fachada do complexo da mesquita Rabaa Adawiya, Cairo após batalha campal entre o exército egípcio e militantes da Fraternidade Muçulmana em 15/8/2013


Em resumo, é possível que o “modelo” de islamismo da Fraternidade Muçulmana tenha implodido e esteja agora carente de uma re-concepção; mas o mesmo pode ter acontecido também à posição da Casa de Saud como “líder” do Islã sunita – uma espécie de “dano colateral”, consequência do ataque que os sauditas lideraram contra os Irmãos. 

As tensões geradas por a Casa de Saud ter incitado um governo secular e ocidentalizado (no Egito) a matar, prender e violentar islamistas fraturaram o Islã sunita muito mais profundamente e muito mais largamente do que fraturaram a Fraternidade. Muitos salafistas no Egito e fora de lá, não surpreendentemente, se posicionaram a favor da Fraternidade Muçulmana, ao verem o ataque comandado por Sisi e inspirado pelos sauditas, não como ataque só contra os Irmãos – mas como ataque contra o próprio Islã.

Mas, se a Arábia Saudita foi o detonador que implodiu o modelo da Fraternidade Muçulmana (e, por extensão, também seu próprio “modelo” salafista, fundado na mesma teoria política sobre a prática do “governante muçulmano pio”, ouSalaf), nem por isso a Casa de Saud pode ser responsabilizada, só ela, pelo atual desarranjo e pelo cisma dentro do Islã sunita. Essas sementes foram lançadas há muito tempo, embora, sim, a Casa de Saud tenha com certeza exacerbado a tendência na direção da exterioridade – a ânsia por poder e “mundanidade” material – dentro do Islã sunita.

Faisal Devji
Um acadêmico estudioso do Islã, o Dr. Faisal Devji, introduziu a ideia, aparentemente contraintuitiva, de que o Islã político, longe de ser a manifestação política assertiva que reivindica para si, padeceu, desde o início, isso sim, do defeito de jamais ter sido suficientemente político [itálicos no original] – quer dizer, de não ter sido verdadeiramente político, pelo menos o suficiente para satisfazer as expectativas que gerou.

Seyed Mawdudi (antes de 1907), por exemplo, teve com seu objetivo principal fazer voltar atrás o que viu como “invasões” da hegemonia intelectual ocidental sobre o que considerava reservas do Islã. Seu trabalho não visou a fundar qualquer nova “ideia” política. Seus trabalhos não continham qualquer teoria política, embora Mawdudi tocasse em ideias leninistas. 

Mas depois que os turcos aboliram o Califato e a Umma no projeto de secularização de Attaturk dos anos 1920s (que assim aboliu simbolicamente o poder sunita), e num momento em que o Islã estava desorganizado, ele começou a trabalhar a noção do Salaf como “projeto político”, não apenas como fonte de poder religioso. 

Eram os tempos das “grandes” ideias: o nacionalismo, o estado-nação, o socialismo e o Baathismo. E o Islã precisava ser reformatado de modo que respondesse ao ethos do tempo e às aspirações dos jovens, que se afastavam do Islã para abraçar o socialismo.

Foi nesse ponto que o Islamismo tornou-se “populista”, na ânsia para recuperar os jovens, e começaram os atritos com al-Azhar. Só durante o período posterior (anos 60s e 70s) o salafismo receberia o “polimento” intelectual (ironicamente, ação da Fraternidade Muçulmana, quando vivia em exílio na Arábia Saudita) que lhe daria a respeitabilidade acadêmica no mundo islâmico que lhe faltara até então.

Em resumo, aquele novo “projeto” islamista focou-se em dar aos muçulmanos uma “identidade política” de forma muito externalizada - com uso dos trajes islâmicos, sinais públicos de religiosidade, etc. – uma identidade política estilizada a qual, ela própria, era originalmente, é claro, uma noção política ocidental. 

O Islã Político adotou também uma doutrina muito externalizada, com ênfase em alcançar poder político. A religiosidade, por exemplo, deveria brotar do ativismo social e político, mais do que transformação humana interior. 

Todas essas mudanças efetivamente distanciaram o Islã sunita dos seus discursos históricos e deram-lhe uma forma de utopismo “nesse mundo” – outra vez, noção ocidental amplamente secular – apesar de agora fundado numa comunidade supostamente ideal dos muçulmanos aderentes desde os primeiros tempos. O islã sunita cedeu na “interioridade” e abraçou uma busca utópica de replicar – de algum modo e no complexo mundo de hoje – uma sociedade idealizada (e, de certo modo, imaginária).

Essa visão utópica é que implodiu no Egito. Não bastou, como agora já se vê claramente, sugerir que, se os egípcios simplesmente seguissem o exemplo doSalaf, todos os seus muitos problemas desapareceriam – apagados no sentimento utópico emergente de uma nova ordem. É o mesmo que dizer, em resumo, que a Fraternidade Muçulmana não foi suficientemente política. Tinha fome de poder, mas não teorizara o político nem o tornar-se verdadeiramente político. A utopia implodiu.

Assim sendo, o que vem a seguir? O que já aconteceu é que a liderança da Fraternidade Muçulmana foi separada da rua – o movimento mergulhou na clandestinidade e, o que é mais sério, tudo leva a crer que sua estrutura popular básica, as células do qual o movimento é construído, grupos locais de sete membros, conhecidos como usras – estão sob pressão e começam a desintegrar-se.

Militantes da Fraternidade Muçulmana são atacados pelo exército com gás lacrimogêneo durante manifestação na Av. Kornish El Nile, Cairo, Egito em 6/10/2013
Com bons argumentos, depois de terem flertado com o poder político e do fim terrível que viveram, muitos jovens muçulmanos (da Fraternidade Muçulmana e salafistas) já estão dizendo aos seus líderes: “nós bem que avisamos; nunca seria permitido: a lição a aprender é que é preciso queimar o sistema, antes de conseguir realmente reformá-lo”.

Em termos resumidos, a análise que fazem é que a Fraternidade Muçulmana, longe de ter excluído demais os diferentes, foi excessivamente conciliadora,acomodou-se demais ao “estado profundo” e aos generais. 

Os líderes supuseram, ingenuamente, que os remanescentes do estado profundo pudessem ser vencidos e cooptados. A lição, pois, para muitos jovens muçulmanos, é que o poder tem de ser “tomado” – e depois mantido a ferro e fogo.

Em poucas palavras: cabe esperar a emergência de movimentos isolados, mais violentos, comprometidos com as políticas jihadistas para destruir o estado-nação, com vistas a estabelecer emirados “com os pés no chão”.

Recep Erdogan
Alguns Irmãos Muçulmanos, provavelmente a tendência recente dos “Irmãos-empresários”, podem simplesmente se passar para o secularismo em plena floração, mas terão fraca influência. 

Como o “islamismo-secular” de Erdogan e do Partido AKP na Turquia, que se baseou na crença segundo a qual, ao esposar a economia liberal de mercado, um governo islamista conseguiria se autovacinar contra a intervenção ocidental para arrancá-lo do poder; e que também já perdeu a posição de destaque que teve no mundo árabe.

É interessante que alguns pensadores islamistas tenham recentemente apontado para conclusão muito diferente, a ser extraída da experiência egípcia: chamam a atenção precisamente para a contradição inerente entre um Islã sunita muito declaradamente externalizado, que perdeu a vida interior e talvez nunca mais consiga recuperá-la (o que o Imã Khomeini conseguiu fazer com sucesso, para o Islã xiita). 

Clamam por um reequilibramento e sugerem que, no longo prazo, o Islã sunita terá de redescobrir a própria interioridade – e que essa deve ser compreendida como a principal lição a extrair do Egito.

O maior ponto aqui é o atual desarranjo, as fraturas dentro do Islã sunita, com linhas de separação que já geram seitas e sectarismos, e que separam sunitas e xiitas: os islamistas “seculares” versus islamistas; muçulmanos jihadistas versu smuçulmanos não jihadistas; Islã “nacionalizado”versus Islã populista; elites urbanas contra populações rurais. 

A antiga fronteira sectária que aparta a Sunnah e a Xia reproduz o desarranjo político e intelectual mais amplo no qual a região tombou: todos os “modelos” políticos ditos sunitas para a região (turco, do Golfo, egípcio, etc.) fracassaram politicamente e economicamente, quando submetidos ao teste crucial do levante árabe.

E assim também, no plano político estratégico, a implosão da doutrina Carter e o fracasso da vontade ocidental, estão fazendo rachar o “eixo” dos estados sunitas moderados – o qual foi configurado em torno do, hoje também decadente, poder unipolar.

Chas W. Freeman 

O mundo simples das rivalidades coloniais e entre as superpotências já desapareceu há muito tempo. A noção de que é “conosco ou contra nós” perdeu toda a ressonância no moderno Oriente Médio. Nenhum governo na região está disposto agora a entregar o próprio futuro a estrangeiros, menos ainda a uma única potência estrangeira. Portanto, o papel das grandes potências externas na região vai-se tornando variável, complexo, dinâmico e assimétrico, muito mais que amplo, exclusivo, estático ou uniforme.

E é precisamente aí que a Arábia Saudita sente-se tão vulnerável: antes tão confortável no papel nada exigente de engrenagem do “eixo sunita” configurado em oposição polar ao “arco xiita”, a Arábia Saudita descobre-se hoje à deriva num novo mundo variável, complexo, dinâmico e assimétrico.

Alguns sugerem que o neonacionalismo preencherá esse vácuo angustiante. Talvez. 

Mas se contam com o Egito como caso exemplar de algum renascimento nacionalista, é pouco e não convence. Sobre quais princípios se basearia esse novo nacionalismo árabe? O socialismo original no qual se baseou antes já não está disponível. No Oriente Médio, o neoliberalismo não fez sucesso. Que visão daria sustentação a algum novo nacionalismo? Ou não passará de culto à personalidade, travestido como nacionalismo?

No Egito, cujos eventos serão cruciais na modelagem do futuro da região, o desenvolvimento que se vê cada dia mais claramente é a eclosão de uma guerra de classes, ao estilo Pinochet, muito mais que algum novo projeto nacional.

A tolerância sumiu, em retirada. A alta burguesia e as classes endinheiradas (muito assertivamente seculares) acorrem ao palácio do seu ídolo ditador, que adoram com tanto fervor quanto desprezam e demonizam as classes mais pobres: aqueles “comunistas” subversivos (cf. América Latina) ou aqueles “terroristas” (cf. a Fraternidade Muçulmana no Egito).

As orações e sermões das 6ª-feiras, a indicação dos imãs das mesquitas e a religião são controlados pelo aparelho do Estado. E, também ao estilo Pinochet, já há rumores sobre “desaparecidos” entre os egípcios não privilegiados e já demonizados. E também já circulam notícias de rixas nos baixos escalões do Exército e ameaças de mais golpes, depois do golpe. Quem sabe?



[*] Conflicts Fórum visa mudar a opinião ocidental em direção a uma compreensão mais profunda, menos rígida, linear e compartimentada do Islã e do Oriente Médio. 

Faz isso por olhar para as causas por trás narrativas contrastantes: observando como as estruturas de linguagem e interpretações que são projetadas para eventos de um modelo de expectativas anteriores discretamente determinam a forma como pensamos - atravessando as pré-suposições, premissas ocultas e até mesmo metafísicas enterradas que se escondem por trás de certas narrativas, desafiando interpretações ocidentais de “extremismo” e as políticas resultantes; e por trabalhar com grupos políticos, movimentos e estados para abrir um novo pensamento sobre os potenciais políticos no mundo.