Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Dines: A 'Folha' deve um mea-culpa ao Brasil por seu apoio ao Golpe de 64 e à Ditadura Militar!

Dines: “Jango foi derrubado porque não houve quem fosse à rua defendê-lo” – 


Exclusivo

Foto: Camila Camacho
Alberto Dines: A 'Folha' deve um mea culpa ao Brasil pelo apoio ao Golpe de 64 e à Ditadura Militar.
Por Ana Helena Tavares - do Quem Tem Medo da Democracia

Militares que se opuseram ao golpe de 64 garantem que os oficiais golpistas eram minoria e não seria difícil resistir. Além disso, o historiador Muniz Bandeira escreveu que “o governo João Goulart, quando caiu, contava com 76% de opinião pública a seu favor”. Porém, João Goulart jamais deu aos legalistas das Forças Armadas a esperada ordem para a resistência. E os civis? Por que não resistiram?
O consagrado jornalista Alberto Dines, observador da movimentação da imprensa tanto hoje como naquela época, tem uma resposta: “Com exceção, dos sindicatos e de alguns políticos, você não tinha uma sociedade tentando se organizar. E aí não tinha quem fosse para a rua para defender. Não havia sociedade civil organizada e a grande imprensa estava toda ela se reunindo para apoiar o golpe”.
“Quem Tem Medo da Democracia?”, marcando os 50 anos do golpe, divulga entrevista exclusiva concedida por Dines a Ana Helena Tavares, que comporá o livro “O problema é ter medo do medo”.
Comissão da Verdade: “deveria incluir a ditadura de Getúlio”
“Nasci em 1932, era Getúlio, ditadura. Depois, quando ele voltou (no início dos anos 50) através de eleições democráticas, havia uma má vontade da imprensa com ele, e era justificada porque Getúlio realmente comandou um período negro. Tudo o que a gente fala de censura e de tortura hoje veio dali. Quando a Comissão da Verdade foi instalada, eu escrevi que devia se incluir a ditadura de Getúlio”.
Mas, se os atores de 64 já morreram quase todos, o que dizer de quem viveu os anos 30? “Claro que as pessoas já morreram todas, mas seria bom ter um relatório”, explica Dines, que prossegue: “Foi muita gente morta, muita gente torturada. Gente remetida para campo de concentração na Alemanha, como a Olga (Benário). Em suma, teve violências incríveis. Incríveis. E essa violência moderna deu origem à violência de 64. Então, acho que a Comissão da Verdade deveria ter incluído isso”.

Como se percebe, Jango tentou, sim em organizar uma Resistência ao Golpe. Mas já era tarde demais. 

O “golpe democrático” do Marechal Lott
Dines chama atenção também para um acontecimento ocorrido no ano seguinte à morte de Getúlio e que, segundo ele, “ninguém pesquisa”. “Houve um golpe militar e 10 anos antes, em 1955, houve no Brasil um golpe democrático, que o país inteiro apoiou e a imprensa foi na onda. Golpe! Foi um golpe militar, entendeu? Eu já era jornalista. Acompanhei. Estava na “Visão”, mas logo depois fui para a Manchete. Eu era repórter, tinha 23 anos, e o golpe estava ali. Houve censura. E o aparato militar estava unido… Unido não, porque tinha o pessoal da direita, ligado ao Lacerda, que queria impedir a posse do Juscelino. Então, o Lott  (ministro da Guerra) deu um golpe para garantir a posse do JK”.
“Ou seja, essa coisa de usar uma quartelada para defender a democracia não é um absurdo. Parece kafkiano, mas não é. O golpe do Lott foi uma coisa absolutamente cirúrgica. Pimba! Fez! Depôs o presidente (Carlos Luz, que assumiu interinamente substituindo Café Filho), deu uns tiros lá no navio Tamandaré, que estava fugindo com Lacerda. Pronto: estava instaurado um regime de exceção. Mas para fazer valer a vontade democrática”, frisa Dines.
“O Costa e Silva falou: ‘eu também quero’”
“Lembrar isso é importante, porque, olhando para trás, as pessoas, em vez de perceberem as nuances todas, não percebem. Então, fica tudo muito preto no branco. E, quando se fala naquele tempo, nunca vi ninguém se lembrar do golpe do Lott. Mas isso serve de referência a 64, porque muitas pessoas achavam que ia ser de novo a mesma coisa (cirúrgico). Não foi porque aí tinha a Guerra Fria e as ambições políticas dos ‘milicos’. O Castelo Branco foi escolhido para chefiar o governo provisório. O Costa e Silva falou: ‘eu também quero’. Aí pronto”, sintetiza o tarimbado jornalista.

As tropas governistas do Almirante Aragão
Sobre 1º de Abril de 64, dia do golpe, Dines, que era editor-chefe do Jornal do Brasil, recorda-se que uma tropa do Almirante Cândido Aragão, chefe dos fuzileiros navais, fiel a Jango, entrou na redação “atirando”:“Era um maluco, um delirante. Tenho certeza de que não teve ordem do Jango nem de ninguém. Conhecendo Jango, a natureza dele e os motivos que o levaram a se afastar do país, querendo evitar derramamento de sangue, evidentemente não foi ordem dele. Então, Aragão tomou a iniciativa e mandou uma tropa de fuzileiros que chegaram atirando na porta do jornal. Estavam com roupa de combate e armados. Subiram para a redação e entraram. Todo mundo se assustou muito, mas eles não fizeram nada, não prenderam ninguém”.

'Folha da Tarde' (do mesmo grupo empresarial que publicava a Folha de S.Paulo) noticiava assim a morte de quem lutava contra Ditadura sem medo (no caso, o Bacuri, um dos mais destemidos e corajoso e guerrilheiros).

A Folha deve um mea-culpa ao Brasil
O veterano jornalista considerou o editorial publicado em 1º de setembro de 2013 pelo “O Globo”, em que o jornal faz um mea culpa sobre seu apoio ao golpe de 64, “uma coisa extremamente decente”. Por quê?“Porque alguém tinha que dizer ‘erramos!’. Ninguém fez isso até hoje. Eles fizeram. A Folha fez de uma forma enviesada, numa resenha ao livro (“História da Imprensa Paulista”) do Oscar Pilagallo, onde ele menciona os episódios desagradáveis da Folha (o jornal é acusado, por exemplo, de ter emprestado carros da redação para os torturadores). Nessa resenha, a Folha encampa os fatos tal como o Pilagallo os publicou. Mas eu cobrei. Escrevi um artigo dizendo que a Folha está nos devendo uma coisa mais afirmativa, mais linear, mais inequívoca”.
A “conexão civil do golpe”
Em seu texto mea culpa, “O Globo” conta que, no dia do golpe, também teria sido invadido por tropas do Almirante Aragão. “Na ocasião, alguém me disse que a Tribuna da Imprensa também tinha sido (invadida). Eu não soube do Correio da Manhã. Porque, na verdade, foram os editoriais “Fora” e “Basta”, do Correio da Manhã, que deram o sinal de que começava a quartelada”. Segundo Dines, “o Correio da Manhã foi o jornal usado para liderar a conexão civil do golpe”.
Aliado em 61, traidor em 64
O jornalista pondera, no entanto, que, em 1961, “quando Jango estava voltando da China e havia ameaça de guerra civil, o Correio da Manhã apoiou e alguns outros jornais também deram apoio a ele, para que ele tomasse posse, porque era da Constituição. Depois, quando houve acordo em Brasília para que voltasse dentro de um sistema parlamentarista, Jango espertamente, inteligentemente e patrioticamente aceitou para evitar uma guerra civil. Aí ele começou a trabalhar legitimamente para reverter, discutir a Constituição, fazer uma emenda. Na imprensa, houve uma campanha aberta pelo plebiscito. E o tesoureiro dessa campanha foi o José Luiz Magalhães Lins, banqueiro, o mesmo que depois coordenou a imprensa em prol do golpe ”.
“O Correio disse: ‘não tô nessa!’”
Sempre preocupado em contextualizar os fatos, Dines deixa claro que o apoio do “Correio da Manhã” ao golpe foi pontual e que o jornal poderia ter revertido o processo se tivesse força: “O Correio da Manhã sempre representou o liberalismo político, tendo se oposto a Getúlio, e sempre foi um bastião democrático, com aspas ou sem aspas, não importa. Mas o importante é ver que cerca de um mês depois o Correio da Manhã voltou atrás. Eles perceberam que não iria ser um golpe cirúrgico. O Costa e Silva designou-se comandante militar (cargo normalmente acumulado pelo presidente).

'O Globo' comemora a vitória do Golpe de 64.

O Castelo Branco foi escolhido como presidente (15 de Abril de 64). Então, o Correio disse: ‘não tô nessa!’ Fez muito bem e é uma pena que, àquela altura, o jornal já estivesse muito fragilizado, porque senão o Correio da Manhã poderia reverter todo o processo. Mas representava uma minoria.”, lamenta Dines, que garante: “O único jornal que não apoiou o golpe foi o “Última Hora”, de Samuel Wainer, que teve que se refugiar”.
Minas e seu “governo de resistência a Jango”
Márcio Moreira Alves era repórter do “Correio da Manhã”. Era sobrinho de Afonso Arinos de Melo Franco, o filho, que é acadêmico da ABL e ex-embaixador. “Arinos foi designado pelo Magalhães Pinto, que era governador de Minas, como ‘ministro do Exterior da República de Minas’. E foi o Magalhães Pinto que deu a ordem para as tropas (golpistas) avançarem. Ele criou uma espécie de governo de resistência ao Jango. Tanto que Marcito entrou na minha sala e falou: ‘Titio telefonou. Nós ganhamos’”, lembra Dines.
‘Marcito’ e o AI-5
Importante fazer aqui um parêntese para frisar que, pouco tempo depois, ‘Marcito’, como Moreira Alves era conhecido, seguiu a tendência do “Correio da Manhã” e também disse: ‘não tô nessa!’ Em 1966, Moreira Alves publicou o livro “Torturas e torturados”, censurado ainda na editora. Mais tarde, em 68, já como deputado pelo Movimento Democrático Brasileiro (MDB), viria a fazer um discurso, motivado pela invasão do Exército à Universidade de Brasília (UNB), no qual convocava um boicote às paradas de 7 de setembro.
“Esse boicote pode passar também, sempre falando de mulheres, às moças. Aquelas que dançam com cadetes e namoram jovens oficiais. Seria preciso fazer hoje, no Brasil, que as mulheres de 1968 repetissem as paulistas da Guerra dos Emboabas e recusassem a entrada à porta de sua casa àqueles que vilipendiam-nas. Recusassem aceitar aqueles que silenciam e, portanto, se acumpliciam”,discursou. Esse discurso foi usado pelos militares como pretexto para o AI-5 (Ato Institucional Nº 05, de 13 de dezembro de 68) que, dentre outras coisas, fechou o Congresso.

'Folha de S.Paulo' comemorando a vitória do Golpe de 64.

“Os Idos de Março – E a Queda em Abril”
Ainda em 64, Dines foi responsável pela organização do livro “Os Idos de Março – E a Queda em Abril”, tido como o primeiro a falar sobre o golpe. O livro é composto por textos de diversas pessoas. Dines assina o texto “Debaixo dos deuses” e ali ele assegura: “Não foram só os generais que derrubaram Jango. Quem derrubou Jango foram os que não saíram para defendê-lo”. Convidado nesta entrevista a explicar o sentido dessa passagem, ele avalia:
“Hoje, eu diria que Jango foi derrubado porque não houve quem fosse à rua defendê-lo. Primeiro, a gente não tinha uma sociedade civil organizada. E o período do Jango presidente foi o período mais tumultuado, porque, quando você radicaliza politicamente, a sociedade civil se perde. Se já não tínhamos antes essa visão de sociedade civil, quando radicalizou e houve o golpe, você não tinha… A não ser os sindicatos e alguns políticos da Frente Nacionalista. Fora isso, você não tinha uma sociedade tentando se organizar. E aí não tinha quem fosse para a rua para defender. Porque se tivesse, sei lá, dez mil pessoas nas ruas do Rio, os ‘milicos’ não iam atirar… Mas não havia sociedade civil e a grande imprensa estava toda ela se reunindo para apoiar o golpe. Foi uma quartelada!”.
Jango “não tinha o estofo radical”
A imagem que Dines guarda do presidente deposto João Goulart está bem longe de ser aquela dos que acham que ele era comunista. “O Jango, menos por ele e mais pelas pessoas que o rodeavam, estava enveredando por um caminho de radicalização extremamente perigoso. Porque ele não era o radical. Ele não tinha o estofo radical. Quem o levou a isso foram as pessoas que estavam ao seu lado. Aí temos o Brizola, o Darcy Ribeiro (que foi chefe da Casa Civil de Jango)… Darcy era uma figura adorável. Um sujeito superior, um intelectual de mão cheia. Mas, estando no poder, delirou”.
“O delírio que se vivia e que foi crescendo”
Esse “delírio” de Darcy Ribeiro é exemplificado por Dines através de uma passagem do livro “Herança de um sonho – Memórias de um dirigente comunista”, de Marco Antonio Coelho. Ali é narrado que Darcy, estando em Brasília, na noite de 31 de março de 64, quando Jango ainda estava no poder, teria reunido lideranças de esquerda da Frente Nacionalista, da qual Marco Antonio fazia parte. Darcy, então, teria mandado vir para a sala dele dois caixotes com metralhadoras e falado: ‘vocês peguem isso que nós vamos liquidar a UDN inteira!’ Marco Antonio teria respondido: ‘Você que manda. Somos deputados. Estamos aqui para isso’.
Anos depois, Dines ouviu isso do próprio Marco Antonio. À época da publicação do livro, Darcy era vivo e não desmentiu. Para Dines, “isso serve para mostrar o delírio que se vivia e que foi crescendo”. E acrescenta: “O Jango cometeu uma série de erros. O Comício de 13 de Março. A ida ao Automóvel Clube na manifestação dos marinheiros. Foram erros que ele cometeu porque não tinha a cabeça fria e foi sendo empurrado”.
'O Globo': Em 1962 era contra a criação do 13o. salário. Agora, em 2014, é contra os aumentos reais anuais para o salário mínimo.

“Debaixo dos deuses”
Em artigo veiculado em 2007 pelo Observatório da Imprensa, o historiador João Amado diz que, no texto “Debaixo dos deuses”, a queda de Jango é narrada como “um ato heróico”. Dines alega que isso é loucura e que João Amado resolveu pegá-lo como “bode expiatório”.
“A minha intenção ao escrever aquele livro era puramente jornalística. Era comum nos EUA: um grande acontecimento que o jornal não conseguia cobrir gerava um livro complementar. Quando veio o golpe de 64, o JB tinha um material espetacular. Então, pegamos um grupo de colaboradores para cada um dar seu ponto de vista. Quem disse que ‘o Jango caiu de podre’ não fui eu, foi o Antonio Callado, que é um ícone da esquerda. Eu organizei o livro como se faz numa chefia de reportagem. Designei: um vai cobrir o governo Jango; outro vai cobrir São Paulo; outro o Palácio Guanabara, onde estava o Lacerda… Assim, dividimos o livro em partes. É claro que eu captava o espírito do momento, mas cobri a redação”.
A conjuntura do golpe e sua “dimensão trágica”
O livro “Os idos de março” traz diversas citações da peça “Julio Cesar”, de William Shakespeare. Dines, que na juventude quase chegou a ser cineasta, explica que havia visto o filme “Julius Caesar”com Marlon Brando, inspirado na peça: “Percebi que havia em alguns momentos do que estávamos vivendo (na conjuntura do golpe) uma dramaticidade. Então, resolvi intercalar os vários episódios com passagens do Shakespeare. Eu quis dar uma dimensão trágica. Como foi mesmo. Fiz a costura central, tentando dar um tom literário com a ajuda do Shakespeare”.
Solto pela imprensa internacional
Dines foi preso duas vezes. A primeira em 22 de dezembro de 1968, pouco depois do AI-5, porque fez um discurso definido como “subversivo” (denunciando a censura) numa formatura da PUC-RJ, onde havia lecionado. Escolhido como paraninfo, resolveu “colocar a boca no trombone”. Trechos foram publicados no JB e depois disso houve a prisão. Dines revela que a direção do JB não se mobilizou para soltá-lo. 
Quem me libertou entre aspas foi um editorial do The New York Times. Porque a notícia da minha prisão circulou, através da agência United Press, que funcionava em cima da redação do JB. Então, eles sabiam de tudo e espalharam a notícia, por telegrama, dizendo que o editor-chefe do JB foi preso. Os jornais todos repercutiram e o NYT deu uma notinha editorial como protesto. Evidentemente que logo depois dessa publicação, a história repercutiu, o Itamaraty avisou o governo e, no dia seguinte, me tiraram de onde eu estava. Um lugar muito desconfortável. Aí eu já podia sair, apanhar sol, comer direito”.

O então Presidente João Goulart, anunciando medidas nacionalistas e reformistas no comício da Central do Brasil em 13/03/1964.

“Como é que um jornal católico é chefiado por um jornalista judeu?”
“A pessoa que lidou comigo, que presidiu o Inquérito Policial Militar que me enquadrou, foi um coronel, depois general, chamado César Montagna. Foi o mesmo que tomou o Forte de Copacabana a tapa em 64. Ele deu um tapa na sentinela e entrou. Esse cara era um conservador catolicíssimo. Os militares, em sua maioria, eram católicos. Exceto lá no sul, onde a família Geisel era luterana.  Aí grande parte do interrogatório naquele dia era os militares me perguntando: ‘como é que um jornal católico é chefiado por um jornalista judeu?’ Isso fez parte do interrogatório inúmeras vezes. Por isso, hoje sou tão atento a essa questão. Porque a gente sabe o que a combinação de religião e política produz.”.
E o JB? “Meteu-se” na política militar
O Jornal do Brasil participou da “conexão civil” do golpe e, de acordo com Dines, não rompeu com ela ao longo da ditadura: “Não rompeu! Ao contrário. O jornal se enredou cada vez mais, coisa que não podia ter feito. Todo mundo diz que Roberto Marinho foi o homem dos militares e tal… Mas ele não se metia nos assuntos militares. O JB meteu-se e eu acabei pagando o pato… Eu saí em 1973 porque o Brito (dono do jornal) cometeu um erro de se meter na política militar. Ele resolveu ficar contra a candidatura Geisel, a favor do esquema que tinha sido proposto pelo pessoal do Médici, de escolher um ‘candidato civil’ (aspas propostas pelo entrevistado), que era o Leitão de Abreu, então ministro-chefe da Casa Civil. Era uma candidatura civil, mas ele era um conservador e um homem do Médici. Então, o Brito resolveu apoiar esse esquema. Mas esse esquema não tinha sustentação. Quem foi eleito foi o Geisel”.
Demitido por indisciplina
“Aí o Brito se apavorou, porque ele dependia do governo de SP para manter concessões de TV. Ele se desesperou e, como eu estava incomodando ele muito…” Como exemplo do “incômodo” que estava causando a Nascimento Brito, Dines cita uma antológica capa que produziu para noticiar o assassinato de Salvador Allende, então presidente do Chile, derrubado e morto por militaresFoi em 1973. Dines recebeu ordem da censura brasileira para não dar manchete sobre o assunto. Não deu. Fez uma capa toda em letras pequenas, sem manchete. Chamou mais atenção do que se fosse nos moldes tradicionais. 
E depois disso? O que mais incomodou Brito? 
“Eu não aceitava as loucuras dele. Ele, então, me demitiu. Por indisciplina. Claro que não colocou isso no papel. Mas me chamou e fui na casa dele, sem saber de nada. Foi uma conspiração absolutamente silenciosa. Aí chego lá, eu ia sentando e ele falou: ‘Não precisa não. Você está demitido do jornal por indisciplina’. Fui embora, nem fui pro jornal.”.

Golpe de 64 foi um golpe contra o Brasil e o seu povo, que lutava para construir uma sociedade justa, democrática e soberana.

O conselho de Civita
Após ser demitido pelo JB, Dines precisou sair do país, já que não via oportunidades de emprego aqui. “O Governo militar fechou as portas. Fiquei com fama de revolucionário, que inflamava redações”, recorda-se. Foi nesse contexto que recebeu um conselho de Roberto Civita, dono do grupo Abril: “Passe uma temporada fora, porque aqui você não vai conseguir nada”. Um mês depois, Dines recebeu convite da Universidade de Columbia, nos EUA, para ser professor lá. “Com certeza, foi ele”.
“Por que não dei um murro na mesa?”
Se o JB nunca rompeu com a ditadura, muitos podem se perguntar por que Dines ficou tantos anos lá. Calejado, essa é uma pergunta que ele próprio se faz, aproveitando para falar do medo, tema central do livro em que será publicada esta entrevista. 
“Eu não tinha medo. De nada. Nenhuma das minhas decisões, afrontando a censura ou não, tinha a ver com medo ou não medo. Uma coisa eu sabia, que quem fazia o jornal era o dono do jornal. A minha função ali era fazer um bom jornal. Um jornal inteligente, para que, pelo menos, depois de passada a ditadura, nós tivéssemos uma imprensa boa. Essa era a minha intenção em todos os momentos. Eu acho que (com relação ao JB) atingi meu objetivo. Foi um belo jornal. Continuou por muitos anos e depois se esgotou porque não tinha condições. Agora, claro que a gente se arrepende. Por que não dei um murro na mesa e pedi demissão? Houve um episódio em que fiz isso. O Castelinho (Carlos Castelo Branco) me chamou na casa dele – e eu o respeitava muito. Ele falou: ‘Dines, se você pedir demissão, vai ser muito pior para nós todos’”.
Quando foi preso pela segunda vez, Dines ainda estava no JB. Essa prisão durou apenas um dia e ele levanta uma hipótese, que ele mesmo diz que pode ser “teoria conspiratória”: a de que a direção do JB não só tinha conhecimento de que ele seria novamente preso, como teria sido algo premeditado para que ele não pudesse se manifestar e não estivesse na redação num dia em que os censores não estariam lá.
A Folha de S. Paulo e suas “ramificações da extrema-direita”
Após voltar do exterior, Dines foi para a Folha de S. Paulo. Trabalhando lá, teve oportunidade, por exemplo, de entrevistar Videla, então ditador argentino, e outros ditadores da América Latina. “Os jornais brasileiros podiam publicar sobre outras ditaduras, mas não sobre a daqui”, comenta. 
Também na Folha, foi o primeiro a denunciar as perseguições ao jornalista Wladimir Herzog. Herzog também era judeu, mas Dines conta que não o defendeu por isso: “O Zuenir me telefonou – eu nem conhecia –, mas ele falou ‘olha, Dines, está havendo um negócio horrível, vê se você dá uma ajuda aí para acabar com essa chantagem’. E eu publiquei. Uma semana antes de ele (Herzog) morrer. Ele estava sendo perseguido pela extrema-direita. Extrema-direita que tinha ramificações no próprio jornal”.
“A greve dos dois Paulos” e  o “Jornal da cesta”
A saída da Folha veio pelas mãos de Boris Casoy, que censurou o artigo “A greve dos dois Paulos”, onde Dines contrapunha os papéis antagônicos que Paulo Maluf e Dom Paulo Evaristo Arns exerceram na greve dos metalúrgicos no ABC Paulista. Censurado dentro da Folha, resolveu publicar o texto no Pasquim, onde tinha uma coluna denominada “Jornal da cesta”. Nessa coluna, Dines usava como lema uma frase que atribuía a Shakespeare, mas que nunca foi dita pelo escritor inglês. Era, na verdade, o pensamento do próprio Dines: “Na história da imprensa, o que conta não é o que sai publicado, mas o que vai pra cesta”.

Até hoje a Grande Mídia apoia movimentos golpistas. Assim foi nos casos de Hugo Chávez, Evo Morales, Rafael Correa, Manuel Zelaya e de Fernando Lugo. Uma vez golpista, sempre golpista.

Lula: “fez piquete para os jornalistas”
No mesmo ano da greve dos metalúrgicos no ABC, em 1979, ocorreu uma greve de jornalistas, que Dines define como “burrada e suicídio”. Lula, que liderava a greve no ABC, participou das duas. “Ele fez piquete para os jornalistas”, lembra Dines que, na ocasião, perdeu a chefia da sucursal da Folha por ter liberado o ponto. A Associação Nacional dos Jornais (ANJ) foi criada “como consequência” à greve, garante Dines, mas ele lamenta que a entidade tenha se tornado “uma distorção, um pool político”.
 “ACM achava que o Serra ia levar o Brasil para o comunismo”
E como é hoje a relação da imprensa com os presidentes? Dines não pestaneja: “O Lula foi eleito com apoio da imprensa. As redações inteiras, a imprensa toda… E tinha gente que hoje está contra, mas estava favorável, achando que tinha que ser o Lula mesmo e tal… A própria candidatura de oposição ao Lula, que era o José Serra não estava sendo apoiada pelo antigo PFL, hoje DEM, porque o Antônio Carlos Magalhães tinha horror à esquerda e achava que o Serra ia levar o Brasil para o comunismo… Então, rompeu e, imagina, apoiou o Lula.”
“A imprensa não é pluralista”
“Então, chegar e dizer: ‘a imprensa é golpista’? Eu não diria que a imprensa é golpista… Agora, a imprensa não é pluralista. Mas já foi… Antes de 64, você tinha vozes discordantes dentro dos jornais. Hoje, você não tem. A Folha, quando fez a reforma da qual eu participei em 1975, ela tinha uma visão pluralista. Aí recebeu ordem pra recuar. Puseram o Bóris Casoy para dirigir a Folha. Depois entraram outros… Se bem que, ainda hoje, eu acho a Folha um pouquinho mais plural que os outros. O Estadão é um conservador radical. O Estadão é Opus Dei e o grande inimigo da imprensa livre no Brasil chama-se Opus Dei. Agora, sobre isso você tinha que escrever outro livro…”.

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