Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

domingo, 12 de janeiro de 2014

John Kennedy e seu governo contraditório, mas progressista! - por Marcos Doniseti!

John Kennedy e seu governo contraditório, mas progressista! - por Marcos Doniseti!


John Kennedy, presidente dos EUA que enviou o projeto dos Direitos Civis ao Congresso, o que irritou profundamente os sulistas ianques, incluindo líderes do próprio Partido Democrata com base eleitoral nos estados da região.

Recentemente, tivemos a 'divulgação', pela 'Folha', de um fato que não constitui nenhuma novidade, ou seja, de que o presidente John Kennedy teria autorizado o apoio do governo dos EUA ao Golpe que derrubou o governo legítimo, democrático e constitucional de João Goulart. E essa autorização foi dada, por Kennedy, ao então embaixador dos EUA no Brasil, Lincoln Gordon. 

Isso já havia sido divulgado anteriormente em vários livros. 

Embora a sua participação no Golpe contra Jango seja inegável (ao qual comentarei mais adiante), o fato concreto é que John Kennedy fez um governo bastante contraditório, sem dúvida alguma, mas que tomou algumas iniciativas progressistas em temas importantes durante o período em que governou os EUA. E é sobre isso que irei comentar agora. 


Os Irmãos Kennedy entraram em conflito com a CIA, Pentágono, Máfia, FBI, exilados cubanos, racistas... Uma coleção de inimigos poderosos e que, de alguma maneira, se envolveram nos planos para matá-los.

Um exemplo é que nos meses anteriores ao seu assassinato, John Kennedy negociava (secretamente) com o governo de Fidel uma normalização das relações entre os EUA e Cuba. O diálogo se dava via dois jornalistas dos EUA (uma delas era apresentadora da ABC). E esse fato desagradou profundamente, para dizer o mínimo, a três segmentos conservadores e bastante ativos da política interna dos EUA naquele momento, que foram os militares, a CIA e os exilados cubanos. 

Kennedy passou a ser visto por tais setores da política ianque como sendo um Presidente 'fraco' e que seria incapaz de liderar os EUA na Guerra Fria e na luta global contra o Comunismo. Isso era besteira, é claro, mas é assim que ele era visto por tais setores. 

Kennedy também planejava chamar de volta para os EUA os assessores militares ianques que estavam no Vietnã (e que começaram a ser enviados ao país asiático ainda no governo de Eisenhower). Aliás, enquanto foi Presidente dos EUA, Kennedy recusou-se a enviar um único soldado dos EUA para combater no Vietnã (isso somente aconteceu quando Lyndon Johnson era o Presidente). E ele ainda  assinou com a URSS o primeiro tratado da história, que proibiu a realização de testes de armas nucleares na atmosfera. 

Assim, as relações entre os EUA e a URSS estavam melhorando bastante nos meses anteriores ao assassinato de Kennedy, o que aliás gerou muita irritação entre as 'Linhas Duras' dos dois países, que desejavam a continuidade e aprofundamento da Guerra Fria. 


No centro da foto, dois dos principais lideres políticos progressistas dos EUA da década de 1960: Martin Luther King e Robert Kennedy.

Aliás, se dependesse de Kennedy e de Kruschov a Guerra Fria teria terminado bem antes. Ambos tinham estabelecido boas relações pessoais, passando a ter uma confiança mútua que, inicialmente, não existia. Por isso, inclusive, que Nikita Kruschov chorou muito quando Kennedy foi assassinado, em 22/11/1963.

Além disso, foi John Kennedy que enviou o projeto de lei dos Direitos Civis para o Congresso, o qual foi aprovado no governo de Lyndon Johnson. Em função disso, aliás, tivemos duas consequências importantes para a política dos EUA, que foram: 

1) 90% dos eleitores negros passaram a votar no Partido Democrata em todas as eleições presidenciais, o que acontece até os dias atuais; 

2) Nunca mais o Partido Democrata venceu uma eleição presidencial no Sul dos EUA, que virou uma região totalmente dominada pelo Partido Republicano. 

Inclusive, quando Lyndon Johnson assinou a lei dos Direitos Civis ele disse algo assim: 'Eu sei que estou fazendo a coisa certa ao assinar esta lei, mas também sei que, ao fazê-lo, estou entregando o controle do Sul dos EUA para o Partido Republicano.'.


O poderoso chefão do FBI, J.Edgar Hoover, odiava os irmãos Kennedy, que também não simpatizavam com ele, para dizer o mínimo. Hoover tinha dossiês dos irmãos, e estes, que de bobos não tinham nada, também possuíam seu dossiê contra o anti-comunista de carteirinha que comandou o FBI por mais de 40 anos. 

E Kennedy fez isso, enviar a lei dos Direitos Civis, mesmo tendo enfrentado uma feroz oposição de muitos líderes do Partido Democrata que tinham a sua base eleitoral no Sul dos EUA. O Partido Democrata quase rachou por causa disso, aliás. E o Sul dos EUA quase iniciou uma insurreição popular contra o governo Kennedy em função desta iniciativa. 

Seu governo também desencadeou uma feroz repressão contra a Máfia, mesmo sabendo que seu pai (Joseph) tinha boas relações com os principais líderes da organização criminosa, com os quais tinha feito muitos negócios, antigamente, o que era do conhecimento dos dois irmãos (John e Robert). 

Aliás, essa repressão contra a Máfia já tinha sido iniciada por Robert Kennedy quando este ainda era Senador. E o mesmo (Robert) deu continuidade à tal política depois que se tornou o Procurador-Geral de Justiça dos EUA (equivalente ao Ministério da Justiça do Brasil) no governo de seu irmão.

Durante a 'Crise dos Mísseis', em 1962, que quase provocou uma Guerra Nuclear entre EUA e a URSS, foi John Kennedy quem mais defendeu uma saída negociada com os soviéticos para resolver a crise e evitar uma guerra nuclear, mesmo sofrendo pressões terríveis (por parte dos militares) para atacar os soviéticos em Cuba. 

E se isso tivesse acontecido a Guerra Nuclear teria sido inevitável, pois os militares soviéticos em Cuba tinham autorização do governo da URSS para retaliar, com armas nucleares, a qualquer ataque que sofressem por parte dos EUA.


Após a Crise dos Mísseis, John Kennedy e Nikita Kruschov melhoraram substancialmente as relações entre EUA e URSS, chegando até a assinar um tratado para limitar testes nucleares, algo inédito entre os dois países até então.

Assim, se hoje estou aqui escrevendo esse texto e você está lendo o mesmo, é porque John Kennedy recusou-se a tomar tal atitude. Pense nisso.

Essa combinação de políticas inegavelmente progressistas por parte do governo Kennedy gerou um ódio mortal da Direita ianque contra o mesmo. Inclusive, ele era chamado de Comunista porque sempre optava por soluções negociadas com os soviéticos, tal como aconteceu durante a Crise dos Mísseis e com a assinatura do Tratado que restringiu testes nucleares, assinado em 1963, poucos meses antes de seu assassinato. 

E nos meses finais de seu governo, Kennedy também dialogou com o governo de Cuba, como já afirmei aqui, visando normalizar as relações entre os dois países, o que levou os exilados cubanos a se sentirem traídos por Kennedy, aliás. Inclusive, muitos destes exilados começaram a falar abertamente em assassinar Kennedy. E existem fortes indícios e provas que levam a acreditar que os mesmos participaram, sim, do assassinato de John Kennedy e, também, de Robert Kennedy.

E não pensem que essa pecha de comunista contra Kennedy era apenas discurso, não de direitista maluco, não. No dia em que Kennedy foi para Dallas, onde acabou assassinado, um jornal do Texas publicou um anúncio de página inteira que o atacava de forma virulenta, chamando-o de Comunista. 

Aliás, seus inimigos já haviam tentado matá-lo em duas oportunidades nas semanas anteriores (em Tampa, na Flórida, e em Chicago) mas os planos de assassinato fracassaram. Nas semanas anteriores ao assassinato, Kennedy foi caçado pelos seus inimigos. Até que, em Dallas, eles o mataram.


Em seu último discurso como Presidente dos EUA, Eisenhower advertiu o povo dos EUA sobre o crescente poderio do complexo industrial-militar. E como John Kennedy recusou-se a apoiar a invasão da Baía dos Porcos, não atacou os mísseis nucleares instalados pelos soviéticos em Cuba, passou a fechar acordos com a URSS (testes nucleares), começou a dialogar com Cuba em 1963 visando normalizar as relações com o governo revolucionário da Ilha e se recusou a enviar soldados dos EUA para combater no Vietnã, tal setor da sociedade americana entrou em conflito com o governo do jovem político de Massachusetts.

Mas, apesar de pensar que o governo de Kennedy teve, sim, um caráter nitidamente progressista, entendo que o maior erro de John Kennedy, em todo o seu governo, sem dúvida alguma, foi apoiar o Golpe de Estado contra Jango. 

Kennedy sabia que Jango não era comunista, mas temia que o governo deste acabasse dominado pelos 'comunistas' e que o Brasil virasse uma nova Cuba. 

Em função da vitória da Revolução Cubana e da transformação da ilha caribenha em um país Socialista, John Kennedy chegou a declarar, na época, que a América Latina tinha se tornado 'a região mais perigosa do mundo'. E o programa que ele lançou, já no seu discurso de posse, que foi a 'Aliança para o Progresso', visava justamente combater a influência e a popularidade da Revolução Cubana na América Latina. 

Na época, Fidel visitou a Venezuela e foi recebido por multidões entusiásticas. A popularidade da Revolução Cubana na região era tão grande que até um Presidente conservador e direitista como Jânio Quadros  chegou a condecorar Che Guevara com a Ordem do Cruzeiro do Sul. 


Invasão da Baía dos Porcos começou a ser planejada e preparada ainda no governo de Eisenhower, em 1960. John Kennedy (que foi enganado pelo CIA, que lhe disse que a vitória da invasão era mais do que certa) autorizou que a CIA promovesse a invasão, mas se recusou a dar apoio militar para a mesma, condenando-a ao fracasso total. A CIA, o Pentágono, a Máfia e os exilados cubanos nunca o perdoaram por isso, culpando Kennedy pelo fracasso da invasão.

E ele foi induzido, claramente, pelo embaixador dos EUA, no Brasil, Lincoln Gordon, de que este risco de 'comunização' do país existia, de fato. E o governo Kennedy também estava convencido de que o rumo que o Brasil tomasse, na época, acabaria determinando o futuro de toda a América do Sul. 

Assim, me parece claro que a política de John Kennedy para o Brasil, durante o governo de Jango, é incompreensível se não tivermos claro de que a mesma foi fortemente influenciada pela vitória e consolidação da Revolução Cubana, bem como pelo clima de Guerra Fria do início dos anos 1960. 

Neste contexto, o governo e a elite dos EUA foram tomados pelo medo de que o exemplo da Revolução Cubana se espalhasse por toda a América Latina, região a qual os EUA consideravam como sendo 'a sua esfera de influência', tal como o Leste Europeu era uma região dominada pela URSS, fato este que os EUA também acabaram aceitando, mesmo que a contragosto, no Pós-Guerra. 

E também é bom lembrar que a Revolução Cubana foi vitoriosa em 01/01/1959, quando o Presidente dos EUA ainda era Eisenhower (do Partido Republicano) e os planos para a invasão de Cuba começaram a ser implementados ainda durante o governo deste. 

Mas Kennedy, depois que tomou posse na Presidência, foi enganado pela CIA, que lhe garantiu que a invasão da Baía dos Porcos seria vitoriosa. Depois que a invasão fracassou e Kennedy descobriu que havia sido enganado, ele ficou furioso com a CIA e afastou os dois principais chefes desta (Allen Dulles e Richard Bissell), colocando John McCone para dirigir a organização secreta. E ele ainda colocou seu irmão, Robert Kennedy, para supervisionar todas as operações secretas da CIA pelo mundo.


John Kennedy, Malcolm X, Martin Luther King e Robert Kennedy: Os quatros principais lideres políticos progressistas dos EUA durante a década de 1960 acabaram assassinados. Nenhum líder conservador do país teve o mesmo destino. Deve ter sido 'mera coincidência'...

Mas como o governo Kennedy se recusou a fornecer apoio militar para a invasão da Baía dos Porcos (cuja operação foi inteiramente planejada, financiada e executada pela CIA... Os militares não tiveram nenhuma relação com a mesma devido à proibição de Kennedy neste sentido), Kennedy foi acusado (pela Direita, pela CIA, militares, e pelos exilados cubanos) de 'ter perdido Cuba para o Comunismo'.

Então, é neste contexto extremamente complexo que devemos ver a política equivocada de Kennedy com relação ao governo de Jango. Isso não justifica o seu erro, mas ajuda a compreendê-lo melhor, sem dúvida alguma. 

Porém é sempre bom lembrar que a intervenção dos EUA, na política brasileira, visando derrubar o governo de Jango, teve continuidade no governo de Lyndon Johnson, que era um rival dos irmãos Kennedy dentro do Partido Democrata (ele e Robert nunca se suportaram) e foi dele a ordem para enviar uma frota naval para ajudar no Golpe de Estado contra o governo democrático de Jango. 

Aliás, fica a dúvida: Como eu disse aqui, o governo Kennedy estava negociando, secretamente, a normalização das relações diplomáticas com o governo revolucionário cubano. 

E se estas negociações tivessem sido bem sucedidas (algo que seria muito difícil, sem dúvida, devido ao clima político internacional explosivo da época, bem como às próprias críticas que Kennedy recebia internamente por ser 'fraco' com Cuba), o que teria acontecido? Quais seriam as consequências disso? 

Teria Kennedy mantido os planos de intervenção no Brasil, apoiando o Golpe contra Jango, caso as relações dos EUA com Cuba tivessem sido normalizadas? 

Isso é algo para se pensar. 

Afinal, o grande medo do governo Kennedy era que o Brasil tomasse o mesmo caminho de Cuba, tornando-se Socialista. E se isso acontecesse, Kennedy estava convencido de tal fato levaria toda a América do Sul a seguir o mesmo rumo. 


John Kennedy e João Goulart: Dois jovens políticos progressistas que chegaram à Presidência de seus países durante os conturbados anos 1960. Ambos adotaram políticas reformistas e progressistas e acabaram pagando um alto preço por isso. A Guerra Fria e o clima explosivo criado pela Revolução Cubana levou o Presidente dos EUA a apoiar a derrubada do governante brasileiro, pois temia que o Brasil tomasse o mesmo caminho de Cuba. 

Desta maneira, o governo Kennedy é, sim, repleto de contradições, mas adotou políticas progressistas (inclusive em questões de política externa) e tudo indica que caminhava para fazer um segundo mandato muito mais progressista do que o primeiro. No segundo mandato, Kennedy planejava, entre outras iniciativas, chamar de volta os assessores militares dos EUA que estavam no Vietnã e encerrar a Guerra Fria com a URSS.

Aliás, um fato que, a meu ver, corrobora esta visão que defendo aqui, foi o rumo que tomou a carreira política de Robert Kennedy após o assassinato do irmão. 

Robert era, inicialmente, um político mais conservador do que John. Mas, depois da morte deste, ele foi tomando posições cada vez mais progressistas, tanto nas questões de política interna, como de política externa. 

Um exemplo claro disso é o de uma viagem que ele realizou para a África do Sul, em 1965. Em todas as oportunidades nas quais teve para falar com o povo sul-africano (em universidades, por exemplo), Robert Kennedy atacou fortemente ao regime racista do Apartheid, chegando até a estimular uma revolta contra o mesmo, com o objetivo de destruí-lo. Mesmo sendo censurado pelo governo racista, as afirmações de Robert chegaram ao conhecimento do povo negro sul-africano e quando ele visitou o gueto de Soweto, milhares de pessoas saíram às ruas para saudá-lo. 

Posteriormente, Robert Kennedy também adotou uma postura totalmente contrária à continuidade da Guerra do Vietnã. E esse discurso de colocar fim à guerra foi encampado em sua campanha para se tornar o candidato Democrata à Casa Branca. 


Robert Kennedy discursa, após vencer as primárias da Califórnia, que lhe garantiam a vitória na disputa pela candidatura presidencial do Partido Democrata. E a vitória na eleição presidencial era mais do que certa. Mas novamente a tragédia se abateu sobre a família Kennedy...

Caso John Kennedy tivesse conseguido atingir estes objetivos (encerrando a Guerra Fria com a URSS e normalizando as relações com Cuba), com certeza os rumos da política interna dos EUA e do próprio cenário mundial teriam se alterado de maneira significativa. A história teria sido diferente, sem dúvida alguma. 

E talvez os EUA não tivessem apoiado o Golpe contra Jango...


Fontes de informação para escrever este artigo:

1) Livro 'Irmãos', de David Talbot;

2) Documentário 'O Dia que durou 21 Anos', de Camilo e Flávio Tavares;

3) Fidel - Biografia a Duas Vozes - Ignacio Ramonet;


Nenhum comentário: