Frases para não se esquecer!

"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Paulo Moreira Leite: Kennedy e o Golpe de 1964!

Paulo Moreira Leite: Kennedy e o Golpe de 1964 - do Vermelho

John Kennedy e João Goulart: dois líderes políticos reformistas e progressistas, mas que foram divididos pelo acirramento da Guerra Fria após a vitória da Revolução Cubana, cuja consolidação levou o pânico ao governo ianque.

Entre tantas reportagens que fiz em minha vida – boas, médias, medíocres – poucas me deram tanta satisfação como o texto que você poderá ler abaixo. Eu era correspondente da Gazeta Mercantil, em Washington, quando tive acesso a transcrição de uma gravação de uma conversa de John Kennedy na Casa Branca, em junho de 1962. 

Por Paulo Moreira Leite, em seu blog


Num encontro com o embaixador Lincoln Gordon, foi nesta ocasião que Kennedy tomou as primeiras medidas práticas para apoiar o golpe militar contra Jango, como definir o envio do adido militar Vernon Walters ao Brasil. No plano ideológico, Kennedy lembrou que apoiar golpes de Estado era sempre perigoso, pois comprometia o discurso democrático norte-americano mas sublinhou que a ameaça comunista poderia ser um bom pretexto.

Publiquei essa reportagem em julho de 2000. Republico agora, no início do ano que marca a passagem de 50 anos do golpe.

Gazeta Mercantil
 Sexta-feira, 21/22/23 julho de 2000

Transcrições de conversas entre John Kennedy e assessores revelam que o presidente dos EUA autorizou apoio financeiro aos adversários de Jango

Paulo Moreira Leite, de Washington

Pertence à Universidade de Virgínia a nova glória acadêmica nas pesquisas sobre envolvimento do governo americano no golpe militar de 1964. Sob coordenação do prof. Timothy Naftali, a universidade prepara para a publicação, em livro, das transcrições de conversas ocorridas na Casa Branca durante o governo de John Kennedy. É um projeto caro, demorado e cuidadoso. O lançamento do primeiro volume, chamado John F. Kennedy: As Grandes Crises, Volume 1, está marcado para o início do ano que vem. (início 2001)

Na década passada ocorreu uma primeira divulgação das conversas de Kennedy. Mas era uma versão selecionada , com trechos e frases censuradas. Este jornal teve acesso com exclusividade a trechos inéditos da transcrição integral de um diálogo de 28 minutos no Salão Oval da Casa Branca, em 30 de junho de 1962, cuja autenticidade é assegurada por dois pesquisadores americanos. Estão presentes John Kennedy e o embaixador Lincoln Gordon, além de Richard Goodwin, assessor graduado do presidente americano.

Os três falam da situação política no Brasil. Também conversam sobre os primeiros passos do movimento militar que, um ano e nove meses depois, iria derrubar João Goulart. Pela transcrição, fica claro que Kennedy deu sinal verde para o golpe militar.

Toda pessoa que já tentou decupar uma fita sabe que a tarefa de reconstituir uma conversa envolve um processo trabalhoso e delicado. Nem todas as palavras são ouvidas com clareza, e muitas vezes o significado só pode ser inteiramente compreendido quando se avalia o conjunto da frase e mesmo a conversa por inteiro — e só depois disso se torna possível reconstituir um diálogo com precisão. "Um leigo não entende nada do que ouve", explica um pesquisador que participou dos trabalhos de transcrição. "A qualidade do som é muito ruim, é difícil distinguir as vozes. As vezes se gasta 90 horas para transcrever frases que duram um minuto."

A decupação dos diálogos na Casa Branca foi deita em várias etapas e produziu versões diferentes. A que este jornal pôde ler não é considerada definitiva. É possível que, por intermédio de novas audições, ocorram pequenas alterações de palavra, aqui ou ali. O sentido geral do que se diz, contudo, parece estabelecido.

Em abril de 1962, o presidente João Goulart fizera uma visita a Washington que, dadas todas as circunstâncias de seu início de governo após o tumulto provocado pela renúncia de Jânio Quadros, foi considerada um triunfo. Quando John Kennedy e Lincoln Gordon se encontram na Casa Branca, dois meses depois, o ambiente entre os dois governos já havia piorado tanto que Kennedy resolvera adiar uma prometida viagem ao Brasil.

Também surgiam os primeiros sinais de descontentamento nos quartéis. Antes de ir para Washington, Gordon recebera em audiência o almirante Silvio Heck, um dos mais ativos golpistas da época, que marcara uma conversa reservada para anunciar que havia uma conspiração em andamento. "Ele não pediu apoio", conta Gordon. "Só disse que gostaria que meu governo fosse informado do que estava acontecendo."

No Salão Oval da Casa Branca, um dos primeiros encontros em pauta, conforme a transcrição, envolve as eleições parlamentares no Brasil naquele fim de ano. Falava-se de votos e também de dinheiro. Oito milhões de dólares, aprende-se, foi a quantia estimada ali, para reforçar o caixa de candidatos alinhados com a oposição a Jango. 


Lê-se uma advertência de Gordon, explicando que, dadas certas característica da política brasileira, não se deveria esperar uma prestação de contas rigorosa sobre o dinheiro — como foi gasto, aonde, com que. Também se fica sabendo que essa soma arrancou uma expressão de espanto, quase protesto, de John Kennedy. A seguir o presidente norte-americano comenta que era muito dinheiro para se torrar numa eleição. A queixa presidencial teve efeito. A CIA acabou liberando a verba — mas não deu tudo o que se pedia. A conta foi de cinco milhões de dólares.

Outro ponto da conversa envolve os primeiros passos da conspiração militar. Gordon começa falando como bom democrata. Explica que é contrário a que os EUA encoragem um golpe. Diz que seria preferível organizar as forças adversárias de Goulart para ir diminuindo os poderes do presidente brasileiro. 


O embaixador fala que só admite a idéia de golpe em último caso e deixa claro que, em sua opinião, o principal responsável pelo desfecho da crise será o próprio presidente.

Aos poucos, Gordon evolui em seu pensamento, porém. Explica que a melhor política seria que o governo americano deixasse claro que não era necessariamente adversário de uma operação militar, desde que ela fosse realizada para impedir que houvesse uma ruptura capaz de retirar o Brasil da área de influência norte-americana para transformá-lo num satélite soviético. 


A leitura da transcrição demonstra que John Kennedy acompanha atentamente a conversa, auxilia Gordon em seu raciocínio, complementa e enfatiza as frases do embaixador.

Há um momento em que Lincoln Gordon vai dizer por quê se pode apoiar um golpe militar e cabe ao presidente Kennedy completar a frase, explicando que é para impedir a vitória do comunismo.

Assessor de John Kennedy, e de diversos presidentes que vieram depois, democrata linha dura que depois se mudou para o campo oposto, tornando-se um dos mais ativos e respeitáveis adversários da guerra do Vietnã, Richard N. Goodwin também está presente à conversa.

A transcrição registra uma divergência entre ele e Gordon quanto a natureza do governo João Goulart. O embaixador tem uma visão mais otimista, comparando Jango a Perón. Goodwin compara Goulart a Gamal Abdel el-Nasser, o ditador do Egito, e mesmo a Franz Bronz Tito, patrono da Iugoslávia, ambos líderes de umas das grandes líderes de uma das grandes dores de cabeça da diplomacia americana da época. Encabeçavam o movimento dos não-alinhados.

Goodwin também deixa claro que o movimento militar só terá apoio se tiver um caráter constitucional. Passando as questões práticas, Goodwin se revela preocupado com as plenárias da Organização dos Estados Americanos, nas quais, inquietos com golpes militares e levantes cada vez mais freqüentes, os representantes costumavam aprovar moções de repúdio a esse tipo de intervenção.

A transcrição registra que Goodwin se mostra temeroso de que esse tipo de manifestação da OEA acabe por desencorajar os militares brasileiros. Também se lê que Kennedy concorda com essa opinião.

"Essa transcrição faz todo sentido", diz um militar brasileiro que acompanhou cada passo do golpe. Existem elementos importantes nessa transcrição. Sempre se soube que a CIA havia organizado uma operação clandestina para ajudar a oposição na campanha de 1962 — a gravação indica que essa decisão teve respaldo do próprio John Kennedy. também fica claro que a Casa Branca estava preocupada com o que ocorria no Brasil e nunca deixou de considerar a alternativa militar. Isso não é novidade — mas não deixa de ser curioso observar a franqueza e descompromisso com que o assunto é tratado.

O diálogo inteiro, na verdade, não durou mais do que 28 minutos. Depois dele, o golpe militar já era uma saída considerada em Washington.

Este jornal ouviu longamente o embaixador Lincoln Gordon, um dos personagens centrais desse encontro. Gordon diz recordar-se perfeitamente dessa reunião na Casa Branca mas lamenta não ter tido acesso a transcrição da fita "para poder refrescar minha memória".

O embaixador recorda que é natural que se falasse de temas políticos numa conversa com o presidente mas não se lembra de o encontro ter descido a detalhes como mandar um pacote de dólares para ajudar os adversários do presidente João Goulart. "Isso aconteceu mesmo, todo mundo sabe, mas não sei se foi nessa conversa" diz. 


"O que se dizia, na época, é que se havíamos feito isso na Itália, em 1948, e poderíamos fazer o mesmo agora." Coincidência ou não, esse argumento relacionado aos italianos apareceu na conversa de 30 de junho de 1962, informa a transcrição.

Foi Goodwin quem lembrou o precedente da ajuda à democracia-cristã contra os comunistas, no pós guerra, no momento em que se falava sobre o envio de dinheiro à oposição brasileira.

Não se deve diminuir nem exagerar o papel de John Kennedy no golpe militar de 1964. O presidente americano não estava falando em dar início a uma operação destinada a derrubar João Goulart. Recebeu a informação de que havia um movimento embrionários nos quartéis e avisou que, sob determinadas condições, essa conspiração podia ser apoiada.

A convicção de que se devia prestar atenção à alternativa já era poderosa na época . Uma das primeiras conseqüências práticas da conversa de 30 de junho foi a nomeação de um novo adido militar. "Kennedy disse que eu precisava ter o melhor oficial que conseguisse," conta o embaixador. 


O nome definido foi Vernon Walters, então coronel, que falava português e conhecia a cúpula do Exército. Naqueles tempos, o coronel Walters estava servindo na Itália. Por determinação de Kennedy, Gordon dobrou a oposição do Pentágono e do secretário de Defesa, Robert McNamara, conseguindo levar Walters para o Brasil.

No Salão Oval, Lincoln Gordon lembrou que a quantia necessária para financiar a oposição de Jango era de US$ 8 milhões.

Assessor de Kennedy, Richard Goodwin temia que a reação da OEA a um golpe no Brasil pudesse desencorajar os militares.


Link:

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=233160&id_secao=1

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