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"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

sábado, 4 de janeiro de 2014

Porque o Real precisa ser desvalorizado!

O câmbio fora de lugar - por Jaciara Itaim, da Carta Maior


Não há mais como fugir do problema e retardar esse processo necessário à consolidação de qualquer projeto desenvolvimentista. O câmbio precisa ser desvalorizado

O início do ano pode ser um bom período para se fazer uma reflexão a respeito dos rumos a corrigir na condução da política econômica. Dentre as inúmeras questões polêmicas, parece haver uma espécie de unanimidade entre os economistas que não se identificam com o “diktat” do mercado a respeito da taxa de câmbio. Trata-se do diagnóstico a respeito da inadequação de seu valor atual.

O ponto é que a indiscutível valorização da taxa de câmbio acaba sendo resultado da opção obtusa de buscar o sacrossanto tripé da política econômica a qualquer custo.

Ao decidir por manter uma política monetária de taxas oficiais de juros na estratosfera, as conseqüências são previsíveis até mesmo para qualquer estudante de primeiro economia de economia. As reuniões do COPOM - em que há mais de uma década a SELIC é colocada nas alturas – têm indicado que o governo pretendeu reduzir o ritmo das atividades da economia, no chamado setor real.

Juros altos significam redução das iniciativas para novos investimentos produtivos e também a inibição do patamar de consumo até então existente na sociedade. Os recursos monetários tendem a ser direcionados, em grande parte, para a esfera financeira. Trata-se de uma solução de natureza estagnacionista, uma via de ajuste pela redução do ritmo de operação das variáveis econômicas.

O nó entre juros elevados e câmbio valorizado

Porém, essa estratégia que já era ruim, infelizmente passa a ficar ainda pior no quadro do ajuste conservador proposto pelo menu do neoliberalismo. A manutenção da taxa de juros em patamar tão elevado significa uma alta atratividade das aplicações realizadas, aqui nas praças tupiniquins, para o capital especulativo que gira em torno do planeta. Essa massa de recursos está ansiosa por uma única coisa: alta rentabilidade com baixo risco. 

E nada mais! Assim, um dos fundamentos da política a favor dos interesses do financismo é a ilusão da chamada “liberdade de fluxo de capital”. Ou seja, em nome da suposta obediência à liberdade de ação para as forças de oferta e demanda, o Brasil escancara suas portas para a livre entrada e saída dessa massa formidável de dinheiro duvidoso, que orbita na dimensão financeira do capitalismo contemporâneo.

Como as sucessivas equipes econômicas foram convencidas de que não caberia aplicar as óbvias e urgentes medidas de controle do fluxo de capital estrangeiro, nossa economia ficou absolutamente vulnerável aos humores e aos desejos dos especuladores internacionais. A armadilha do câmbio estava desenhada antes mesmo do modelo começar a operar a pleno vapor. 

Na grande maioria dos países desenvolvidos, o ingresso dos recursos especulativos é acompanhado de exigências, a exemplo de um prazo mínimo para os recursos permanecerem na economia pela qual se interessaram e contrapartidas de setores a serem contemplados pelas aplicações. 

Afinal, é o mínimo que se pode exigir, uma vez que o conjunto da sociedade está fazendo um esforço considerável para oferecer recursos de seu próprio orçamento público para uma mera remuneração de juros de tais aplicações parasitas.

Mas aqui, não! Em Pindorama a coisa é diferente. Trata-se de um verdadeiro paraíso para especulação internacional. O dinheiro entra e sai quando bem entender, sem nenhuma exigência por parte de nossas autoridades monetárias.

Pelo contrário, ele é sempre bem vindo e os volumes recordes de entradas são cada vez mais comemorados, como se apenas benefícios trouxessem para a economia brasileira. Quando, na verdade, o que ocorre é exatamente o inverso. Somos penalizados por tais movimentos.

Inundação de importados e redução de investimentos: desindustrialização

Face à ausência de controle e frente ao estímulo apetitoso de juros elevados, somos inundados por volumes expressivos de recursos externos. Essas divisas ingressam na economia brasileira e encontram um mercado cambial “livre”. Ou seja, um contexto em que a formação da taxa de câmbio é definida apenas pela conjugação das forças de oferta e demanda de moedas estrangeiras - basicamente, no nosso caso, o dólar norte-americano. 

Como a SELIC muito elevada nos converte em campeões mundiais da taxa de juros, há uma pressão permanente e vigorosa de oferta de divisas externas em nosso mercado. Esse vetor faz com que o preço dessa mercadoria seja muito baixo. Bingo! O resultado é uma taxa de câmbio valorizada na relação dólar x real.

Os efeitos nefastos desse câmbio fora de lugar já são prá lá de conhecidos. O processo tem início por essa espécie de capricho em atender às vontades de acumulação fácil do financismo. Real valorizado não é um desejo de nenhum setor expressivo presente em nossa economia. Ele apenas provoca um desequilíbrio entre preços relativos, como se diz no jargão do economês. 

Os bens importados ficam artificialmente mais baratos do que os similares produzidos internamente. E dá-lhe a enxurrada de importados oriundos dos países asiáticos, em especial da China. Se essas mercadorias já estariam com preços internacionais mais reduzidos em função dos baixos salários envolvidos na sua produção local, chegam aqui em condições de aquisição sem a mínima condição de concorrência, m razão do câmbio fácil. O mesmo fenômeno pode ser observado na farra das compras em Miami e outras mecas de consumo barato, mas de bens de qualidade reduzida.

Outra conseqüência ainda mais devastadora para nossa economia refere-se à redução dos investimentos no setor real. Como as perspectivas de vendas futuras são muito duvidosas em razão da concorrência dos produtos importados, as empresas aqui tendem a diminuir a construção de novas unidades ou mesmo a modernização ou ampliação das plantas existentes. 

A taxa de câmbio valorizada também dificulta a já complicada capacidade de exportação de bens manufaturados. O resultado óbvio está sendo sentido, de forma continuada, há muitos anos: é a chamada “desindustrialização” da economia brasileira. 

Os setores mais estimulados acabam sendo sempre os ligados à exportação de produtos primários, de baixo valor agregado. São as diferentes cadeias e ramos ligados ao agronegócio, bem como a venda ao exterior de petróleo, minério de ferro e demais produtos da linha extrativista. Trata-se da perpetuação do modelo neo-colonial da divisão internacional do trabalho: exportamos matérias-primas e importamos manufaturados.

Câmbio no lugar: a necessária desvalorização

Desde o início de 2003, em quase a metade dos meses desses onze anos, a taxa de câmbio média esteve situada abaixo de R$ 2 reais por dólar. Durante muito tempo chegou mesmo a ficar abaixo de R$ 1,60. Uma loucura, patrocinada por um irrealismo econômico carregado de profunda irresponsabilidade. Ora, está mais do que evidente que esse artificialismo só prejudica a sociedade e a economia brasileiras. 

O câmbio está mesmo muito fora de lugar! A passividade do governo em tratar de tema tão sensível acabou criando uma verdadeira armadilha. Como a sociedade se acostumou a esse novo patamar de consumo de importados, desvalorizar a taxa cambial provoca a elevação dos preços desses produtos e matérias-primas quando cotados em moeda nacional. E tal acomodação tende a ser chacoalhada com elevação de preços e algum impacto inflacionário.

Mas não há mais como fugir do problema e retardar esse processo necessário à consolidação de qualquer projeto desenvolvimentista de país. O câmbio precisa ser desvalorizado. 

Seja por uma ação pró-ativa do governo, administrando de forma competente a taxa de juros e a taxa de câmbio. Ou então pegando carona na recuperação das atividades econômicas nos Estados Unidos, onde a taxa de juros praticada pelo FED tende a subir. A rentabilidade relativa dos papéis brasileiros ficará menor e a enxurrada de capital especulativo tenderá a diminuir. Ótimo!

Gastaremos menos com juros enviados ao exterior e reacomodaremos nossa taxa de câmbio a patamares mais adequados. Há diversos estudos e modelos apontando que uma taxa de R$ 3 reais por dólar não deve assustar ninguém. Ela apenas atuará como fator estimulador das exportações e oferecerá uma perspectiva mais realista para o horizonte das importações.

(*) Economista e militante por um mundo mais justo em termos sociais e econômicos.

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