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"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

sexta-feira, 13 de julho de 2012

O capitalismo neoliberal está morto; que venha o capitalismo regulado!

O capitalismo neoliberal está morto; que venha o capitalismo regulado - J. Carlos de Assis, da Carta Maior

O coração do sistema, os bancos, já não funciona. E não há como fazê-lo voltar segundo a fórmula tradicional, antes da liberação financeira, de captação de recursos no mercado a curto prazo e financiamento do sistema produtivo a longo prazo. Para reconciliar o sistema produtivo com o sistema financeiro, alguém terá de pagar o custo da especulação exacerbada.
O capitalismo neoliberal está morto. Seus matadores não são as correntes de esquerda tradicional, mas aquilo que Marx chamava, num nível de abstração acima da esfera política, de suas contradições internas. A revolução política que Marx previu não aconteceu – ou pelo menos não aconteceu no capitalismo maduro, como havia imaginado -, mas está acontecendo sob nossos olhos a desagregação do capitalismo liberal enquanto uma estrutura funcional de geração e de acumulação de capital.

No capitalismo, a geração do valor se dá na esfera produtiva, e não na esfera dos serviços. Entretanto, um serviço em particular é fundamental para o desenvolvimento do setor produtivo: o de intermediação bancária. O crescimento econômico depende fundamentalmente de crédito, assim como a própria acumulação de capital. É verdade que as grandes corporações investem a partir sobretudo de recursos próprios. Assim mesmo dependem de bancos para complementá-los ou para obter outros serviços, como a colocação de bônus.

Contudo, uma dependência relativamente pequena das grandes corporações de financiamento bancário não elimina o fato de que, na economia americana, a esmagadora maioria das pequenas e médias empresas, que respondem por 65% do emprego, dependem fundamentalmente do crédito bancário para se expandirem. O mesmo se reproduz na Europa. Isso dá a dimensão da dependência do capital do sistema bancário. Na verdade, ele é o próprio coração do sistema, bombeando crédito para o resto do corpo econômico. E o emprego acaba sendo uma função de ambos.

A crise atual, porém, provocou um impasse. Na medida em que as hienas do sistema bancário promoveram a mais escandalosa farra especulativa de todos os tempos na esfera financeira, aproveitando-se da liberalização do sistema, a esfera financeira descolou-se da esfera produtiva numa escala jamais vista. Nas vésperas da explosão da crise em 2008, o valor nocional dos derivativos, segundo o BIS, ultrapassava os 700 trilhões de dólares, o que se comparava a um PIB mundial, na época, da ordem de 60 trilhões de dólares.

A despeito das tentativas de reforma financeira nos EUA e na Europa, a mesma marcha especulativa foi retomada nos três últimos anos. Continua a farra dos derivativos e a especulação desenfreada, que, quando dá errado, leva a perdas gigantescas que põem em risco a estabilidade de todo o sistema, como ocorreu recentemente com o Morgan – que pode se dar ao luxo dessas perdas porque é grande demais para quebrar. Contudo, isso ainda não é a essência da contradição entre o sistema bancário e a funcionalidade do capital. A contradição fundamental é que os grandes bancos já não podem dar crédito.

Tome-se o sistema norte-americano. Focando apenas no mercado hipotecário, existem no sistema financeiro cerca de 6 trilhões de dólares em títulos em circulação. Destes, cerca de 3,5 trilhões são de recebimento duvidoso (dependendo do comportamento do mercado imobiliário real) e 1,5 trilhão é de perda certa. As agências reguladoras permitiram que os bancos conservem os títulos em carteira até o vencimento, portanto, sem reconhecer antecipadamente a perda. Isso apenas retarda o momento da verdade, que vai se revelar no vencimento.

Para se preparar para as perdas no vencimento, os bancos não podem estender empréstimos a empresas produtivas, ou reduzem seus empréstimos a um mínimo, porque o retorno é demorado. Preferem ficar no mercado especulativo e de curtíssimo prazo, para gerar lucros imediatos e evitar a quebra. 

Assim, operam preferencialmente no mercado cambial (4 trilhões de dólares ao dia, quase 1 quatrilhão de dólares ao ano), na arbitragem com títulos públicos (tomam crédito no Fed a zero por cento e aplicam em títulos públicos a 3,5%), na colocação de bônus de grandes corporações e em outras atividades com rentabilidade imediata. Do ponto de vista do crédito, trata-se do chamado empoçamento do dinheiro.

Esta é, em síntese, e de um ponto de vista prático, a grande contradição atual do sistema capitalista liberal. O coração do sistema, os bancos, já não funciona. E não há como fazê-lo voltar segundo a fórmula tradicional, antes da liberação financeira, de captação de recursos no mercado a curto prazo e financiamento do sistema produtivo a longo prazo. Em outras palavras, para reconciliar o sistema produtivo com o sistema financeiro, alguém terá de pagar o custo da especulação exacerbada. 

Isso pode vir através do reconhecimento de quebras gigantescas do lado financeiro, que abalariam toda a civilização, ou mediante um mecanismo mais civilizado de estatização do sistema bancário, algo já ensaiado nos países industrializados avançados em 2008 e 2009 com vários grandes bancos (e que é uma realidade permanente na China e na Índia, e uma realidade parcial no Brasil).

(*) Economista e professor da UEPB, presidente do Intersul, autor junto com o matemático Francisco Antonio Doria do recém-lançado “O Universo Neoliberal em Desencanto”, Ed. Civilização Brasileira. Esta coluna sai às terças também no site Rumos do Brasil e no jornal carioca Monitor Mercantil.

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