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"O que ameaça a Democracia é a fome, é a miséria, é a doença dos que não tem recursos para enfrentá-la. Esses são os males que podem ameaçar a Democracia, mas nunca o povo na praça pública no uso dos seus direitos legítimos e democráticos.". - Presidente João Goulart, em 11/03/1964.

Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Corinthians: um time de operários num mundo financeirizado!


Corinthians Paulista: um time de operários num mundo financeirizado - por Sandro Barbosa de Oliveira, do jornal Brasil de Fato, 07/01/2013


O Corinthians conquistou o Bicampeonato Mundial de Clubes da FIFA em 2012, tornando-se o maior  vencedor da competição, ao lado do Barcelona, que também a venceu duas vezes (2009 e 2011)
O Corinthians ainda é o time do povo, mas quando é que o povo trabalhador voltará a fazer o time a exemplo da época da Democracia Corinthiana?   
“O Corinthians vai ser o time do povo, e o povo é quem vai fazer o time”
Miguel Battaglia – 1º presidente do Sport Club Corinthians Paulista

A conquista do título da Copa do Mundo de Clubes da FIFA em 2012 no Japão diante do Chelsea Football Club, após conquistar o mesmo torneio no Brasil em 2000, tornou o Sport Club Corinthians Paulista um time mais conhecido mundialmente. 
Conhecido não apenas pelo futebol aplicado taticamente por seus jogadores em campo, mas pela belíssima festa realizada nas arquibancadas por sua fiel torcida, que encantou os anfitriões japoneses e as pessoas apaixonadas por futebol. 
Esta conquista se insere num momento histórico singular para o Brasil que está há seis meses de uma Copa das Confederações e há um ano e meio da Copa do Mundo de Futebol da FIFA.
Inserida num contexto de retomada do crescimento da economia brasileira, que se destacou nos últimos anos ao resistir parcialmente a crise financeira iniciada em 2008, a transformação da gestão interna do clube corintiano alcançou uma eficiência para além dos resultados em campo. 
Esta mudança iniciou-se após o clube ser rebaixado em 2007 e disputar a Série B do Campeonato Brasileiro em 2008, momento trágico em sua história marcada pelo fim da parceria com a MSI, por escandalos de lavagem de dinheiro e investigação da Polícia Federal, além de aspectos no futebol que coincidiram com a crise financeira mundial. 
Ademais, após pôr em prática um planejamento com um elenco modesto, diferentemente do ano de 2005 em que foi tetra campeão brasileiro com jogadores caros para o padrão do futebol brasileiro da época – o passe do argentino Carlitos Tevez custou US$ 20 milhões –, o clube fez uma transformação interna e externa que refletiu no padrão do futebol brasileiro no período.
A mudança foi marcada em 2009 com a forte marcação fora de campo do marketing alvinegro, ao lançar o jogador Ronaldo Fenômeno como um dos destaques desta mudança, e utilizar sua imagem para atrair patrocinadores e investimentos ao clube. 
A vinda do fenômenorepresentou a consolidação do timão no circuito das videologias, conceito utilizado por Eugênio Bucci e Maria Rita Kehl em análise da televisão como forma de representação da sociedade através da imagem, e que permite perceber as configurações socioculturais e psíquicas que estão em jogo nesta realidade histórico-social. 
O jogador Ronaldo Fenômeno foi analisado pelos autores como um caso de “homem que virou imagem”, imagem que veiculada através do futebol televisivo passou a expressar os domínios da cultura de massa, do espetáculo e do fetichismo da mercadoria na busca do gozo individual nas manifestações coletivas dos torcedores.
Em paralelo, a transição operada entre a gestão oligarquica e financeirizada (neoliberal) da era Alberto Dualib (1993-2007), que cumilnou com o desastre do rebaixamento em 2007, foi superada (ou está sendo) por uma gestão com um caráter distinto encabeçada por Andrés Sanchez (2007-2011) e seguida por Mário Gobbi (2011-atual). 
gestão aparece em sintonia com o modelo neodesenvolvimentista pretendido pelas gestões de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) e Dilma Rousseff (2011-atual). 
A mudança que Lula representou para o Brasil, Sanchez representou para o Corinthians. Foi durante a gestão Sanchez que se construiu o centro de treinamento e iniciou a construção do novo estádio, palco que sediará a abertura da Copa do Mundo da FIFA, e que pode resultar em centenas de remoções de residências para obras viárias em seu entorno, situação que fez nascer o Comitê Popular da Copa de São Paulo e o Comitê Comunidades Unidas Itaquera que lutam contra as remoções sem garantia de direitos.    
Com a terceira invasão dos mais de 30 mil torcedores corintianos ao mundial de clubes ao Japão, tal fenômeno significou a externalização de uma paixão religiosa ao clube nascido a partir de cinco operários em 1910. 
Com uma história vinculada ao sofrimento, a fé, as lutas e as resistências populares, não é difícil fazer paralelos da história do Corinthians com o momento atual da economia brasileira, que passa por um momento distinto das décadas de hegemonia neoliberal.
A ascensão da chamada “classe C”, termo oriundo das noções de estratificação social que expressa uma categoria ideológica de classificação de parcela da população, mas que em nada define as relações de classes na sociedade, demonstra a forte política de inclusão perversa pelo consumo, e a intenção velada de ocultar uma realidade que não aparece nas estatísticas. 
Ligada ao fenômeno do lulismo, a conciliação entre as classes sociais aparece como pacto social almejado, e isso atravessa o futebol como um de seus conteúdos mais ocultados. A nação corintiana presente ao Japão foi representada em sua maioria pela pequena burguesia (pequenos proprietários), seguida por profissionais liberais, publicitários, taxistas, entre outros, e trabalhadores que venderam carros, motos, e se endividaram para realizar o sonho de acompanhar o time do coração. 
Todavia, a chamada invasão ao Japão foi algo inédito feito pela torcida corintiana nas histórias dos mundiais fora do Brasil, o que demonstra um novo contexto do futebol brasileiro no cenário mundial.
“O time do povo” atualmente está representado em todas as classes sociais da sociedade. Em segundo lugar em torcida no Brasil, a nação corintiana cresceu vertigionosamente nos anos 1960 e 1970 em sintonia com a industrialização e urbanização crescente na Paulicéia Desvairada. 
Cresceu e se tornou essa nação num momento em que o clube ficou 23 anos sem conquistar títulos, talvez fenômeno único na história do futebol mundial. 
Nesse momento houve uma confluência entre os anseios da população sofrida, explorada e esperançosa por dias melhores com o Corinthians através de uma manife stação nas arquibancadas por meio de uma irmandade de classe, única manifestação coletiva permitida pelo regime militar. 
O termo maloqueiro e sofredor vem desta época, e designava a condição social da torcida – discriminada socialmente pelos rivais, mas integrada por uma identidade de classe por sua libertação (ao menos no futebol). Esta dimensão de classe se manifestou também durante a Democracia Corinthiana (1982-84), momento em que a gestão de Waldemar Pires assumiu e convidou o sociólogo Adilson Monteiro Alves para o cargo de diretor de futebol, numa gestão que passou a ouvir mais os jogadores, comissão técnica e funcionários do clube. 
Isso em conjunto com a presença de jogadores politizados como Socrátes, Wladimir, Zenon, Biro-Biro e Casagrande, resultou num movimento de autogestão e democracia direta em que tudo era definido no voto, ao expressar o que se esperava de democracia no país durante as “Diretas Já!”. Ademais, só é possível democracia direta pelas bases quando os trabalhadores decidem em conjunto.
Com efeito, e após as conquistas da Copa Libertadores da América e do Mundial de Clubes em 2012, parece que o Corinthians vem se tornando o time da moda. E neste último período desde o ano de 2009 vem demonstrando mudança no perfil de seus torcedores através da venda de ingressos mais caros em partidas da Copa Libertadores da América, dos Campeonatos Brasileiro e Paulista, o que expressa uma tendência de elitização no futebol brasileiro que está prestes a sediar uma Copa do Mundo. Os torcedores passaram a ser tratados como meros consumidores de partidas, artigos de futebol e de clubes, e não como aqueles que também fazem o espetáculo futebol.
Num contexto amplo, o futebol atualmente reúne três dimensões indissociáveis: a técnica, como expressão da habilidade e do improviso dos jogadores; a tática, como representação do planejamento e da estratégia do treinador; e o físico, como elemento associado a preparação física dos jogadores. Entretanto, o que se vê predominar são as dimensões da tática e do físico, enquanto a técnica como improviso no futebol aparece em alguns momentos das partidas. 
A técnica como improviso – uma característica do futebol brasileiro –, apareceu na jogada que resultou no belíssimo gol do peruano Paolo Guerrero na final contra o Chelsea, num jogo dominado pela tática e pelo físico de ambos os adversários. 
O Corinthians apresentou um futebol coletivo e vistoso, em que todos os jogadores demonstraram uma consciência tática e física que impressionou, e operaram as jogadas como operários conscientes que operam as máquinas numa fábrica apropriada por eles. 
A diferença é que essa consciência tática ocorre apenas em campo – nos treinamentos e nas partidas –, e se apresenta num momento em que o futebol está sendo dominado pela dimensão financeira da economia através de clubes hierarquizado e que estão sendo dominados pelos interesses das emissoras de televisão, por empresários nas transações de jogadores, de investidores escusos que querem apenas lucrar com esta prática social, e do futebol de resultado muitas vezes sem o brilho oriundo desse pragmatismo da rentabilidade. 
O Chelsea – como uma ironia desta história e ao contrário do Corinthians que seria de propriedade de sua torcida gerido por dirigentes com práticas empresariais –, é de propriedade do bilionário russo Roman Abramovich, que investiu pesado em jogadores estrelas que custaram muito mais que os jogadores do Corinthians. Com efeito, o esperado confronto entre “Davi e Golias” foi desfeito na partida pela equidade tática e física entre as equipes com pintadas de técnica.
O futebol se desenvolveu no Brasil como um teatro trágico de uma parcela da população que precisou driblar as dificuldadades da vida em busca de sua ascensão social, e encontrou no futebol o único refúgio para realizar-se. Reflete também a pirâmide da desigualdade estrutural de uma sociedade em que poucos clubes são grandes e com patrocionadores, enquanto que sua imensa maioria lida diariamente com as dificuldades de fazer futebol sem dinheiro. 
A desigualdade no futebol expressa a desigualdade social no país, e os jogadores bem sucedidos financeiramente tornaram-se as estrelas de um universo que é para poucos, e que está ancorado na meritocracia mediada pelo caráter midiático da videologia dominante. 
Nesse contexto, o Corinthians ficou conhecido no Brasil não como um time que tem uma torcida, mas uma torcida que tem um time. 
O fenômeno das torcidas de futebol é uma características de sociedades industrializadas ou em vias de industrialização, e expressa uma de suas cisões: entre quem joga e quem torce. 
Por esta razão, o Corinthians vem se tornando o time da moda na imprensa esportiva, que necessita de audiência para fazer as propagandas das marcas que sustentam sua máquina de ideologias, mas que precisa se apropriar de tudo que o povo trabalhador produziu – inclusive os clubes de futebol e suas torcidas.
Por um lado, os governos, a mídia e os capitalistas tentam nos impor os direitos do indivíduo isolado e enterrar as ações coletivas, inclusive as ações de torcidas organizadas. Consolidar o torcedor-consumidor é a meta, ao se basear nos pressupostos de isolamento do indivíduo. 
Em São Paulo, por exemplo, muitas manifestações coletivas estão proibidas, aspecto que remete a militarização da sociedade e do espaço urbano nas cidades, e que estão de mãos dadas com as garantias de consumo e renda oriundas das práticas esportivas. 
Demonstrações espontâneas como as da torcida corintiana na despedida da equipe dia 04 de dezembro no Aeroporto de Cumbica não podem acontecer, por isso a festa de retorno dia 18 foi inviabilizada pela Prefeitura e o Governo do Estado de São Paulo. 
Por outro lado, o futebol mostrou historicamente que essas proibições e as tentativas de isolar os indivíduos não funcionam, até porque só é possível haver futebol se for coletivamente, seja em campo ou seja nas festas de torcidas organizadas nas arquibancadas. 
Foi o que a fiel torcida corintiana demonstrou com a chamada invasão ao Japão e que encantou o mundo com sua belíssima manifestação – torcida e time foram um só. As manifestações coletivas nas arquibancadas e nos gramados demonstram o anseio de fazer consciente os processos do futebol (e sociais).   
A recente declaração do ídolo santista Neymar – de que “o futebol está ficando chato” após ser punido com cartão amarelo depois de uma comemoração de um gol, algo que ocorreu também com o xodó da fiel Romarinho em partida contra o Palmeiras, revela que a espontaneidade está proibida também nos gramados. 
Com base nesses processos de financeirização e proibições às manifestações coletivas, como ficará o futebol daqui para frente? E o futebol arte, como reencontrá-lo na alegria e no prazer de jogar futebol e de festejar nas arquibancadas as belíssimas jogadas? 
É possível preservar a cultura de um povo através do futebol e garantir suas manifestações coletivas? E se o futebol é apenas o ópio do povo, porque movimenta identidades coletivas e simbólicas?
A frase fundacional “O Corinthians vai ser o time do povo, e o povo é quem vai fazer o time”ecoou ao longo do século XX e se faz presente no início do século XXI. 
A mudança recente que atravessou o Corinthians desde 2008 revela transformações na forma de gerir e organizar o futebol. Parece que o termo maloqueiro e sofredor cedeu lugar ao bando de loucos
Todavia, se o Corinthians está se tornando o time da moda não sei, o que sei é que sou torcedor e me apaixonei pelo Corinthians antes do time conquistar seu primeiro título nacional. O que me inspirou foi o seu caráter popular e a confluência da identidade de trabalhador com a identidade corintiana. 
O Corinthians ainda é o time do povo, mas quando é que o povo trabalhador voltará a fazer o time a exemplo da época da Democracia Corinthiana?  

Sandro Barbosa de Oliveira é corintiano, morador do Conjunto José Bonifácio em Itaquera e está na condição de mestrando em ciências sociais na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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