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Joseph Pulitzer: "Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma."

"O sigilo não oferecerá nunca mais guarida ao desrespeito aos direitos humanos no Brasil"

(Presidenta Dilma Rousseff, ao sancionar a criação da Comissão da Verdade)

Emiliano Zapata: “Mais vale, homens do Sul, morrer de pé que viver de joelhos!”

sábado, 25 de maio de 2013

Contas externas brasileiras: sinal amarelo!

Contas externas brasileiras: sinal amarelo - por Victor Leonardo de Araujo, da Carta Maior

Governo brasileiro precisa estimular as exportações, restringir importações e agregar valor para  os produtos exportados pelo país para manter as contas externas equilibradas, elevando o superávit comercial. Uma desvalorização controlada do Real também ajudaria neste processo.

A deterioração do resultado em transações correntes e o esquema frágil para financiá-lo, notadamente dependendo da atração de capitais de curto prazo, são apenas as facetas mais visíveis do problema, que tem contornos um pouco mais complexos.

Os dados recentemente divulgados pelo Banco Central sobre o balanço de pagamentos brasileiro fizeram acender o sinal amarelo. A deterioração do resultado em transações correntes e o esquema frágil para financiá-lo, notadamente dependendo da atração de capitais de curto prazo, são apenas as facetas mais visíveis do problema, que tem contornos um pouco mais complexos.

O déficit em transações correntes brasileiro tem sido agravado por um duplo movimento: a redução do saldo comercial e a intensificação do déficit na conta de serviços e rendas. 

No caso da economia brasileira o déficit de rendas é algo estrutural. Esta conta registra, entre outras coisas, os pagamentos de juros que remuneram o estoque das dívidas pública e privada contraídas no exterior e as remessas de lucros das empresas estrangeiras aqui instaladas. 


Como o Brasil “nasceu” endividado (perdoem-me pelo lugar-comum), é deficitário nesta conta desde que se faz o seu registro sistemático. A soma da conta de serviços e rendas com a balança comercial, mais as transferências unilaterais, resulta no saldo em transações correntes do balanço de pagamentos. 

O déficit em transações é, portanto, um bom indicador da dependência brasileira dos recursos externos necessários para “fechar” as suas contas externas. Déficits em transações podem ser financiados com fluxos de capitais externos atraídos nas diversas modalidades existentes, ou com a perda de reservas internacionais.

Países cronicamente deficitários na conta de rendas só podem registrar superávit em transações correntes se obtiverem superávits na balança comercial e nas transações de serviços em magnitude superior ao déficit de rendas. Pois é aí que reside a armadilha. 


O déficit de rendas brasileiro acumula aproximadamente US$ 40 bilhões nos 12 meses findos em abril de 2013. As remessas líquidas de lucros totalizaram no mesmo período US$ 27,7 bilhões, contra US$ 10 bilhões de juros líquidos. O ano de 2005 marcou uma inflexão na composição do nosso déficit de rendas: até então preponderantemente composto por pagamento de juros, as remessas de lucros passaram a responder pela maior parcela deste déficit. 

Este processo é resultado de uma estratégia implementada desde a década de 1990 de atrair investimento direto externo para o Brasil, cuja remuneração se dá justamente na forma de remessas de lucros. 

Esta estratégia foi intensificada nos últimos anos, de modo que no biênio 2011-2012 os fluxos de IDE têm superado a marca dos US$ 67 bilhões anuais, muito acima dos valores registrados no biênio anterior (em torno de US$ 36 bilhões). Isto significa que a economia brasileira já pode prever remessas de lucros maiores em um futuro não muito distante.

Mas as remessas de lucro não são as únicas a pressionar as transações correntes brasileiras. A conta das tão famigeradas viagens internacionais acumula um déficit de US$ 16 bilhões, perdendo apenas para a conta de aluguel de equipamentos (– US$ 18,7 bilhões). 


A pauta exportadora brasileira, por sua vez, encontra-se debilitada depois de sofrer um processo de primarização que resultou em uma recomposição de sua pauta exportadora na qual 64% correspondem a produtos primários (eram 46% em 2002).

Isto significa que a obtenção de superávits em transações correntes depende de uma conjuntura internacional muito favorável, que combine expansão acentuada da demanda internacional por produtos primários, e também elevação dos seus preços. 

Esta conjuntura vigorou de 2003 até o início de 2011, quando os preços do minério e dos alimentos se expandiram de forma inédita e o Brasil conseguiu registrar saldos recordes na balança comercial e superávit em transações correntes. 

A partir de 2011 os preços internacionais das commodities começaram a recuar. O resultado foi a queda acentuada do saldo comercial. Os preços das commodities se estabilizaram em níveis ainda elevados, mas como as contas externas brasileiras continuam pressionadas – por crescentes remessas de lucros, pagamentos de juros, aluguéis de máquinas, viagens internacionais, e importação de produtos industrializados de maior conteúdo tecnológico – o resultado é o aparecimento de déficits crescentes em transações correntes.

Em um raciocínio estático, a vida pode seguir sem maiores transtornos pela atração de investimentos diretos e em carteira em magnitude suficiente para permitir o financiamento deste rombo, e o sinal verde pode ser dado para a continuidade desta estratégia. 


Em um raciocínio dinâmico, contudo, o sinal é amarelo: investimentos (direto e em carteira) hoje significam estoques de passivos externos cuja remuneração terá de ser feita no futuro, acarretando maiores déficits em transações correntes, que serão financiados por mais investimentos direto e em carteira, que engendrarão mais remessas de lucros e juros e maiores déficits em transações... 

Esta estratégia tem como pressuposto que sempre haverá como financiar os déficits em transações em condições favoráveis. Infelizmente, a história foi muito cruel com os que nela afiançaram seu futuro: a economia internacional movimenta-se na forma de ciclos; na fase descendente os mecanismos de financiamento se estancam, com efeitos na forma de crises cambiais, inflação e baixo crescimento.

Para a nossa sorte, o sinal deverá permanecer amarelo durante um tempo. Os bancos centrais norte-americano e europeu já anunciaram que manterão a política monetária frouxa durante bastante tempo, o que permitirá novos fluxos de capitais para os países emergentes financiarem seus déficits em transações. A China, apesar da desaceleração econômica, continuará demandando minério de ferro e soja do Brasil. 

Mas, como todos os motoristas sabem, sinal amarelo não significa “siga”. Enquanto o sinal não fica vermelho, uma possibilidade seria seguir em outra direção: na diversificação da estrutura produtiva com reflexos na diversificação da pauta exportadora, reduzindo o grau de dependência da balança comercial dos ciclos de preços de commodities. 


Em suma, fazer política industrial. 

O desafio não é fácil: o prazo de maturação entre a adoção de uma nova estratégia e a colheita dos resultados é longo, o que requer urgência na sua implementação.

* Professor da Faculdade de Economia da UFF. E-mail: victor_araujo@terra.com.br


Link:

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=22098


Meu Comentário!

Muito dificilmente o Brasil passará por uma nova crise das suas contas externas, como aquela que aconteceu em 1998-1999. Primeiro que temos reservas internacionais, de quase US$ 380 bilhões, e que são suficientes para pagar os compromissos externos do país, já que o Brasil é, hoje, credor externo líquido. 

Mas o governo Dilma precisa tomar medidas concretas para aumentar o superávit comercial do país e, assim, manter as contas externas mais equilibradas, reduzindo o déficit em transações correntes, para impedir que o mesmo continue crescendo e que possa vir a ser reduzido. 

Entre estas medidas, poderíamos ter:

1) Agregar valor às exportações, estimulando setores como o de aviação, siderúrgico, automóveis, software, que são muito mais valorizados do que produtos como soja, minério de ferro ou suco de laranja;

2) Aumentar tarifas de importação, principalmente para produtos industrializados (bens intermediários, em especial), estimulando um processo de substituição de importações mais agressivo;

3) Desvalorizar o Real para um patamar de R$ 2,20-R$ 2,30, pelo menos, a fim de aumentar a competitividade das exportações brasileiras e encarecer as importações;

4) Aumentar o número de setores da economia que é beneficiado por reduções de impostos e desonerações, principalmente os segmentos industriais, que são aqueles que mais sofrem com a concorrência dos importados.

Medidas como essas, que não seriam as únicas, é claro, ajudariam na redução do déficit externo brasileiro e iriam colaborar para impedir que o mesmo continue a crescer. 


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